Dia 13 (Zhangjiajie) – As Escadarias de Tianmenshan, a Queda das Vocações e a Solidão dos Idosos

O sol principiava a romper a bruma quando iniciámos a subida à montanha sagrada de Tianmenshan. Ao nosso lado caminhava o guia Frank, um jovem de olhar vivo e fala cadenciada, cuja história pessoal encerra uma amarga ironia do nosso tempo: diplomado com distinção em enfermagem, optara por abandonar os hospitais e dedicar-se ao turismo, onde a generosidade das gorjetas e o contacto com os visitantes lhe asseguravam um sustento infinitamente mais próspero e menos desgastante do que o trabalho na saúde. Subi os novecentos e noventa e nove degraus da Escadaria do Céu, que conduzem à colossal cavidade natural cravada na rocha, um exercício de esforço físico e meditação sobre o valor do trabalho humano. A descida, para pasmo de quem admira as soluções do engenho, fez-se através de um impressionante sistema de escadas rolantes contínuas, escavadas no próprio coração da montanha ao longo de quilómetros de rocha dura.

À tarde, voámos para Pequim. O atraso do voo e a posterior travessia de mais de cinquenta quilómetros até ao centro da capital recolocaram-nos diante da dimensão monumental e por vezes esmagadora do Estado chinês, onde a mobilidade das massas é tratada como uma equação matemática de precisão absoluta. O percurso do jovem Frank, contudo, permanecia na minha memória como o espelho perfeito dos dramas que afligem a vida social em Portugal.

Dia 12 (Zhangjiajie) – As Montanhas Flutuantes de Zhangjiajie, o Fast-Food na Escarpa e a Barreira do Acesso

A fuga de profissionais qualificados para áreas de menor exigência clínica ou para a emigração deixa os nossos serviços desprovidos do essencial, enquanto a população envelhece na mais completa e dolorosa solidão. Mais de quatrocentos mil idosos vivem atualmente sós ou isolados no nosso país, entregues a uma rotina de abandono que degrada o corpo e o espírito. Ao mesmo tempo, assiste-se ao desperdício intolerável de mais de um milhão de consultas externas perdidas todos os anos por faltas não justificadas de utentes que, por falta de meios de transporte, esquecimento ou simples desleixo, deixam vagas vazias num sistema já de si estrangulado.

É a imagem de um país que se desagrega nos extremos: quem precisa de cuidado não o encontra, e quem o tem ao seu dispor deixa-o perder por falta de acompanhamento. A superação deste drama social exige a generalização urgente de rastreios populacionais organizados nas áreas do cancro e do risco cardiovascular, descentralizando a colheita de exames para os Cuidados Primários e farmácias comunitárias. No plano tático e humano, é imperativo lançar um Programa Nacional de Domiciliação e Visitação Preventiva aos idosos isolados, unindo as Unidades Locais de Saúde às autarquias e ao sector social, ao mesmo tempo que se criam mecanismos automáticos de desmarcação e responsabilização pela falta injustificada a atos médicos, devolvendo o respeito pelo tempo dos profissionais e pela vida dos doentes.

Nelson Ferreira Pires
Diretor-geral da Recordati

Ao longo dos próximos dias serão publicados novos capítulos deste Diário de Viagem à China.