
A manhã amanheceu envolvida numa bruma quase sagrada em Zhangjiajie. Acompanhados pela nossa guia Mary, da etnia Tujia, adentrámos a reserva cujos pilares vertiginosos de arenito inspiraram as paisagens flutuantes do filme Avatar. Há ali uma sabedoria ancestral que se manifesta nas pequenas coisas: ramos de árvore fincados delicadamente nas fendas da rocha pelos locais, truque engenhoso para detetar o movimento e os deslizamentos da terra antes que a tragédia se confirme.
Esta coexistência entre a observação da natureza e a modernidade expressa-se também nos contrastes do comércio local: bancadas exibem aranhas e escorpiões fritos para comer e para espanto dos turistas, enquanto cartazes do Estado avisam sobre a proibição estrita de caçar as salamandras-gigantes-da-china, espécie protegida com zelo absoluto. Para vencer a imensidão vertical, tomámos o elevador Bailong, uma estrutura colossal de vidro fixada na face da montanha que nos elevou a mais de trezentos metros de altura em escassos sessenta e seis segundos, deixando o estômago para trás e os olhos marejados diante da vastidão.
No topo do pico Tianzi, a paisagem das agulhas de rocha a rasgar o céu corta a respiração a qualquer mortal; todavia, o verdadeiro choque surreal dá-se metros adiante, ao encontrar um restaurante McDonald’s a funcionar com rigoroso sucesso comercial no coração deste património mundial da UNESCO. A descida em teleférico, flutuando sobre o abismo verdejante, encerrou um dia em que a imponência monumental da criação se viu cruzada pela eficiência implacável do consumo globalizado. Esta convivência entre a facilidade de vencer abismos físicos e a persistência de barreiras intransponíveis evoca, por contraste, os graves obstáculos que as famílias portuguesas enfrentam no acesso à saúde e à inovação terapêutica.
Dia 11 (Fengdu) – Fengdu, a Cidade dos Fantasmas e as Sombras do Orçamento
O valor que os cidadãos pagam diretamente do seu próprio bolso por medicamentos e cuidados essenciais (out-of-pocket) continua dolorosamente elevado, representando cerca de trinta e cinco por cento de todo o gasto em saúde no país, segundo dados do INE. Esta carga financeira insustentável faz com que cerca de oito por cento dos doentes abandonem ou adiem a compra de medicamentos prescritos por pura incapacidade financeira, sacrificando a sua saúde na balança da sobrevivência económica.
Em simultâneo, o Estado português demonstra uma lentidão burocrática inaceitável: o tempo médio de avaliação e aprovação de reembolso de um medicamento inovador pelo Infarmed ultrapassa os setecentos dias, atrasando em mais de um ano e meio o acesso a terapêuticas já autorizadas na Europa e capazes de salvar vidas.
A superação desta injustiça exige a criação do Teto Máximo Anual de Despesa em Medicamentos por Agregado Familiar, assegurando a comparticipação integral pelo Estado acima desse patamar para proteger o rendimento das famílias. Há doentes que não compram a medicação por falta de dinheiro e por um sistema de reembolsos cegos. No plano tático e imediato, é imperativo instituir a ‘Via Verde da Inovação Terapêutica’, alavancada em Contratos de Partilha de Risco Baseados no Desempenho Real do Medicamento, garantindo que a inovação clínica chegue sem demoras aos doentes que dela necessitam.
Nelson Ferreira Pires
Diretor-geral da Recordati
Ao longo dos próximos dias serão publicados novos capítulos deste Diário de Viagem à China.




