Durante a sessão de abertura do 15º Congresso das Farmácias, Helder Mota Filipe, bastonário da Ordem dos Farmacêuticos (OF), declarou que “o aumento da despesa com medicamentos deve originar uma reflexão séria”. Neste sentido, abordou a questão da inovação terapêutica, cuja disponibilização “permite tratar doenças que até há uns anos não tinham resposta”. Porém, para o responsável da OF, tendo em conta “a pressão crescente da despesa pública com medicamentos”, é “fundamental que o Governo promova uma discussão e identifique soluções”.
Helder Mota Filipe apontou ainda que, “neste contexto, torna-se preocupante a estagnação observada na utilização de medicamento genéricos”.
Aproveitar a rede instalada
Numa realidade onde “os desafios são muitos”, os farmacêuticos, de acordo com o bastonário, “têm conseguido mostrar a sua capacidade de adaptação”.
Fazendo menção aos resultados do ‘Estudo do Valor da Rede de Farmácias em Portugal’, apresentado durante a manhã, Helder Mota Filipe questionou, “perante estes dados por que não está o SNS e o Governo a aproveitar mais esta rede já instalada, próxima e altamente qualificada?” Quando o SNS enfrenta constrangimentos, “torna-se difícil justificar que uma rede com estas características não esteja mais integrada na resposta aos cidadãos”
Daí que seja “fundamental acelerar o movimento de expansão e valorização dos serviços farmacêuticos, competindo ao Ministério da Saúde, e mais genericamente, ao Governo, decidir se quer ou não aproveitar o potencial da rede de farmácias”.
Dispensa de medicamentos hospitalares e situações clínicas ligeiras
No relativo à dispensa de medicamentos hospitalares em farmácias comunitárias, Helder Mota Filipe declarou que “estamos ainda longe do que seria aceitável”, sendo que “de 42 instituições, apenas 22 IPO e ULS utilizaram este serviço”. No entanto, “temos mais 2600 farmacêuticos comunitários habilitados para a dispensa de medicamentos hospitalares.
Quanto à intervenção dos farmacêuticos em situações clínicas ligeiras, o dirigente da OF lembrou que “a proposta já está há mais de um ano no gabinete da ministra da Saúde…”.
Helder Mota Filipe falou ainda da preparação individualizada da medicação (PIM), nomeadamente ao nível lares de idosos, referindo que “este serviço está aquém do que defendemos”.
Em contrapartida, a vacinação nas farmácia é “um bom exemplo do que deve ser a articulação entre o SNS e as farmácias”, tendo os farmacêuticos se revelado “essenciais para garantir o acesso equitativo”.
Helder Mota Filipe concluiu o seu discurso, referindo que “os farmacêuticos querem fazer mais pela saúde dos portugueses, mas para isso é preciso que haja vontade política”.
“Humanização de cuidados, inovação e sustentabilidade”
Quanto a Ema Paulino, presidente da Associação Nacional das Farmácias (ANF), a farmacêutica, durante a sua intervenção afirmou que o momento atual “exige clareza sobre o papel das farmácias”, sendo que “2026 apresenta-se com elevado potencial transformador” e com “oportunidades únicas para repensar o modelo”.
Para a dirigente da ANF, as melhorias a implementar devem assentar em três pilares: “humanização de cuidados, inovação e sustentabilidade”. No entanto, “não partimos do zero”, pois “estamos presentes em todos os 308 municípios; todos os dias mais de meio milhão de pessoas entra numa farmácia; para 82% dos portugueses, a farmácia é o local de saúde mais próximo; e dois em cada três cidadãos escolhe sempre a mesma a farmácia”. Uma realidade que leva Ema Paulino a sublinhar que “proporcionar um farmacêutico de família é premente no atual contexto”.
No que toca à intervenção farmacêutica nas situações clínicas ligeiras, a presidente da ANF, citando o estudo já referido, indicou que “97,8% dos atos registados, que estão muito subnotificados, foram resolvidos nas farmácias” e alertou que “não substituem o papel de outros níveis de cuidados, complementam-no”.
Em suma, está-se perante uma “Farmácia ainda mais próxima, clínica, integrada, digital e sustentável”, em que os serviços devem ser “devidamente enquadrados, avaliados e remunerados”.
Um caminho que, para Ema Paulino “exige enquadramento regulamentar, como contratualização”, visto “não ser possível pedir mais responsabilidade sem assegurar condições para que essa responsabilidade seja prestada em segurança e com sustentabilidade”. Afinal, “a sustentabilidade económica das farmácias é uma condição para garantir o acesso das populações a cuidados”.
Em jeito de conclusão, a farmacêutica declarou que “precisamos de transformar capacidade demonstrada em política publica estruturada, com remuneração adequada, com sustentabilidade para as farmácias e valor para os sistema”.




