Shared Service Centers. Só de ouvir o nome, muita gente já sabe o que vem a seguir: call centers, processamento de faturas, trabalho repetitivo, empregos de baixo valor. A ideia de que são centros onde se faz o que mais ninguém quer fazer — e que se instalam em países onde a mão-de-obra é barata.
Percebo de onde vem esse preconceito. Durante décadas, foi isso que aconteceu em muitos lugares do mundo. A Índia sabe bem o que é ser o “back-office do planeta”.
Mas o que temos de construir para Portugal não tem de ser, não deve ser, e não pode ser igual a isso.
O que é, afinal, um Shared Service Center?

Não é um conceito novo. Durante décadas, estes centros foram associados quase automaticamente a países em desenvolvimento — à Índia, às Filipinas, ao Leste Europeu. Locais com talento abundante e custo de mão-de-obra baixo. E há verdade nisso. Mas essa narrativa está desatualizada.
O que está a acontecer em Portugal é diferente. E é muito mais interessante.
Portugal já está no mapa.
Os números falam por si. Segundo o Guia Salarial da Adecco Portugal de 2026, o país conta atualmente com 93 operações ativas de Shared Service Centers, envolvendo 88 empresas e mais de 30 mil empregos diretos. Desde 2015, foram criados 58 novos centros — ou seja, 62% do total existente surgiu na última década. Cerca de 90% dessas operações pertencem a empresas internacionais ¹.
Os exemplos concretos são impressionantes — e não ficam apenas na farmacêutica.

A Bosch tem em Braga uma das suas maiores operações europeias: mais de 3.500 colaboradores, com centros de investigação e desenvolvimento e áreas de Global Services integradas ³.
O BNP Paribas, por sua vez, tem em Lisboa e no Porto mais de 9.700 colaboradores no total da sua operação em Portugal — que inclui funções de banca, operações financeiras e tecnologia para toda a Europa ⁴.
E na Indústria Farmacêutica e das ciências da vida? Os exemplos são cada vez mais relevantes.
A Amgen abriu em Lisboa, em 2021, o Amgen Capability Centre Portugal — o primeiro centro de competências da empresa fora dos Estados Unidos. Hoje, conta com mais de 500 colaboradores de mais de 40 nacionalidades, em áreas como Regulatory Affairs, Cybersegurança, Data & Analytics, Finanças e I&D ⁵. Foi eleito, em 2024, a empresa nº 1 no ranking Great Place to Work Portugal na sua categoria.
A AstraZeneca tem em Lisboa um hub global em crescimento acelerado, com um investimento anunciado de 600 milhões de euros até 2033 e uma equipa que se aproximava dos 750 colaboradores no final de 2025, a trabalhar em funções de Global Business Services, HR e operações médicas ⁶.
A porta de entrada que ninguém nos contou
Aqui está o ponto que, na minha opinião, ainda não está a ser aproveitado como devia.

E sobretudo, é aqui que entra uma dimensão que raramente se discute: a possibilidade de construir carreiras verdadeiramente globais sem sair do país. Não estamos a falar de processar faturas ou de responder a chamadas. Estamos a falar de profissionais que coordenam ensaios clínicos a nível europeu, que tomam decisões de regulatory affairs para 30 países, que gerem cadeias de abastecimento globais ou que desenvolvem estratégia comercial a partir de Portugal para mercados em quatro continentes. São funções de alto valor acrescentado, com responsabilidade real e impacto global — e estão a ser feitas a partir de Portugal.
E há outro ângulo que raramente se discute: a diáspora. Portugal tem uma das maiores comunidades emigrantes do mundo, com portugueses espalhados pela Suíça, pelo Reino Unido, por Boston e muitos outros locais. Muitos formados, experientes, com redes internacionais. Os SSCs são um dos instrumentos mais eficazes para os trazer de volta — ou para os manter ligados ao país, mesmo à distância.
Querer viver em Portugal mas trabalhar para o mundo? Hoje, isso é possível. E não é um sonho. É uma realidade que 30 mil pessoas já estão a viver.
Da transação à estratégia: o salto que temos de dar
Importa, porém, ser honesto.
Muitos SSCs começam — é natural e inevitável — com funções mais transacionais: processamento de faturas, payroll, reporting, suporte de RH. Funções importantes, mas que ficam aquém do potencial real destas estruturas.

O que fica por dizer
Portugal tem talento com formação sólida. Tem uma posição geográfica e cultural única, que facilita a ligação entre Europa, América e África. Tem línguas. Tem qualidade de vida. E tem, cada vez mais, casos de sucesso que o provam.
O que falta, por vezes, é contar esta história — e ter uma estratégia clara para a próxima fase. Quem conhece este ecossistema por dentro tem a responsabilidade de ajudar a construí-la. E isso já está a acontecer.
Porque entre Portugal e o mundo, a distância é menor do que parece!
Daniel Guedelha
GenH: CEO & Founder
Referências
¹ Adecco Portugal — Guia Salarial Shared Service Centers 2026: https://tek.sapo.pt/noticias/negocios/artigos/empresas-internacionais-ja-criaram-mais-de-30-mil-empregos-em-shared-service-centers-em-portugal
² Siemens Global Business Services Portugal — 18 anos em Portugal (2023): https://www.ccila-portugal.com/pt/infoteca/news/detalhes/siemens-global-business-services-ha-18-anos-em-portugal
³ Bosch em Braga — site oficial Bosch Portugal: https://www.bosch.pt/a-nossa-empresa/bosch-em-portugal/braga/
⁴ BNP Paribas em Portugal — site oficial: https://www.bnpparibas.pt/en/
⁵ Amgen Capability Centre Portugal — Great Place to Work (2023) + site de carreiras Amgen: https://www.amgen.pt/noticias/press-releases/2023/12/amgen-capability-center-portugal
⁶ AstraZeneca em Lisboa — site de carreiras AstraZeneca: https://careers.astrazeneca.com/Lisbon




