Depressão em Portugal: a mesma doença, tratamentos diferentes

Saúde mental nunca esteve tão presente no debate público: campanhas de sensibilização, notícias e publicações nas redes sociais multiplicam-se, o que não se tem traduzido em menor carga de doença nem necessariamente melhores cuidados. Portugal continua a ser um dos países da Europa com maior prevalência de depressão. Notícias recentes revelam uma tendência crescente no consumo de antidepressivos, atingindo as 80 mil embalagens dispensadas por dia em 2025 (salvaguardando que antidepressivos têm outras indicações terapêuticas para além da depressão).

Quando investigamos estes números, não basta saber quanto se consome, é preciso saber quem adoece, e quem tem acesso a que tratamento.

Um estudo recente que realizámos na Escola Nacional de Saúde Pública, utilizando dados do Inquérito Nacional de Saúde, tenta dar algumas respostas. Analisando a população em idade ativa (25 – 64 anos), verificámos que a depressão está concentrada nos grupos de menor rendimento; as pessoas do escalão de rendimento mais baixo têm 2.7 vezes maior probabilidade de reportar depressão, ou ter sintomas ativos, que pessoas do escalão mais elevado.

A desigualdade não se fica pela prevalência; entre pessoas que reportam depressão no último ano, os mais ricos recorrem mais a consultas com especialistas de saúde mental. No entanto, quando olhamos para quem tem sintomas ativos de depressão, essa diferença entre escalões de rendimento desaparece. Estes dados sugerem que pessoas de rendimento mais alto têm capacidade de pagar tratamento continuado, enquanto em doença aguda ou urgência, o tratamento por consulta com especialista parece estar garantido para todos (embora não tenhamos dados para verificar esta hipótese).

Quando analisamos quem toma medicação para a depressão, verificamos o inverso: é nas pessoas mais pobres com sintomas ativos que a medicação é mais utilizada, o que aponta para a prescrição farmacológica como primeira linha de tratamento para estes grupos.

Um outro ponto que o nosso estudo levanta é o papel potencialmente mediador dos comportamentos em saúde, que tipicamente afetam mais camadas socioeconómicas mais baixas, atenuam até 24% a associação entre baixo rendimento e depressão. Estes comportamentos são, em grande medida, moldados pelo contexto e determinantes sociais da saúde; para além de literacia, as pessoas precisam de ambientes que tornem as escolhas saudáveis possíveis.

O que nos dizem, então, todos estes dados?

Portugal tem uma enorme carga de doença mental que afeta de forma desproporcionada quem tem menos recursos, e onde o tratamento não é igual para quem tem a mesma necessidade.

Neste contexto de escassez de profissionais de saúde mental e volume crescente de medicação dispensada, é urgente compreender melhor as causas destas desigualdades, e identificar vias de prevenção (através dos contextos sociais) e tratamento mais custo-efetivas, para que o que se gasta se traduza em cuidados mais equitativos e eficazes.

Uma questão persiste: quando o tratamento que se recebe depende do rendimento, significa que a resposta do SNS é baseada na melhor evidência, ou reflete apenas o que está acessível a quem tem menos? E que consequências traz para o futuro?

Maria Rita Paiva Pessoa
Researcher | Health Policy and Systems Management Department
NOVA – Escola Nacional de Saúde Pública

 

Referências:

Paiva Pessoa MR, Alves J, Duarte C, Reis C, Nunes A, Pereira J. Socioeconomic inequalities and health behaviours in depression: a picture of mental health in Portugal. European Journal of Public Health. 2026. doi:10.1093/eurpub/ckag087

Consumo de psicofármacos atinge máximo e SNS gasta 152 milhões em 2025. Público [Internet]. 23 Abr 2026 [citado em Maio 2026]. Disponível em: https://www.publico.pt/2026/04/23/sociedade/noticia/consumo-psicofarmacos-atinge-maximo-sns-gasta-152-milhoes-2025-2172232