Todos podemos ser vacinas

A desinformação mata. É uma frase dura, mas ilustra a importância de falar sobre este tópico.

A informação falsa, manipulada ou descontextualizada cria barreiras ao acesso a cuidados de saúde de qualidade e pode conduzir a decisões danosas para o indivíduo e para a população. As consequências não são abstratas. Um estudo de modelação sobre o impacto da desinformação na vacinação contra a COVID-19 no Canadá estimou, apenas entre março e novembro de 2021, cerca de 198 mil casos adicionais, 13 mil hospitalizações, 2.800 mortes e 300 milhões de dólares canadianos em custos hospitalares.[1]

A hesitação vacinal é um exemplo particularmente claro para compreender o impacto da desinformação. Olhando para os Estados Unidos da América (EUA), verificamos que 2025 e 2026 foram os anos com maior número de casos de sarampo nos últimos 30 anos.[2] Sendo o sarampo uma infeção evitável por uma vacina que tem uma efetividade bastante robusta, não surpreende que 93% das pessoas infetadas não estivessem vacinadas. Entre estas, mais de 380 foram hospitalizadas.

Olhando para a União Europeia e para o Espaço Económico Europeu (UE/EEE), entre maio de 2025 e abril de 2026, a Roménia foi o país com a maior taxa de notificação de sarampo por milhão de habitantes. É também o país com menor cobertura vacinal no esquema completo, 68% em 2024, valor que diminuiu 18% em apenas 5 anos, sugerindo menor confiança na vacinação.[3]

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a vacinação contra o sarampo salvou 58 milhões de vidas entre 2000 e 2024.[4]  Com a transformação do sarampo numa doença do passado, observamos um paradoxo notável. Graças ao seu sucesso, as vacinas diminuíram a perceção de risco da doença e facilitaram a sobrevalorização das reações adversas da vacina que são, geralmente, ligeiras e de resolução rápida. Como consequência, a diminuição na confiança na vacinação pode abrir espaço ao regresso da doença e a casos e mortes evitáveis.

Vários adultos consideram, erradamente, que o sarampo é uma doença ligeira que confere uma imunidade natural duradoura mais efetiva do que a vacinação. Na verdade, provoca frequentemente um estado de imunossupressão transitória que torna o indivíduo mais suscetível a infeções secundárias. Adicionalmente, pode evoluir para formas graves de doença, sendo que algumas apenas se manifestam anos após a infeção.[5] A vacinação atua neste eixo, prevenindo doença através de medicamentos seguros, efetivos e de qualidade, sem expor as pessoas aos riscos desproporcionais da infeção natural.

Hoje, a desinformação circula mais depressa do que muitos vírus. Alimentada por algoritmos, emoções fortes e falsas certezas, chega a pessoas que procuram respostas simples para medos legítimos. Combatê-la é uma responsabilidade coletiva em prol da proteção individual e de toda a população, que começa na disseminação de mensagens fidedignas e simples sobre os benefícios das intervenções baseadas na ciência e sobre os riscos da desinformação.

Todos podemos ser vacinas contra a desinformação.

Bruno Alves
Farmacêutico na Unidade de Vacinas, Imunização e Produtos Biológicos da DGS, Doutorando na Escola Nacional de Saúde Pública

 

[1] Himelfarb, A. et al. Fault Lines: Expert Panel on the Socioeconomic Impacts of Science and Health Misinformation. Ottawa: Council of Canadian Academies; 2023.

[2] U.S. Centers for Disease Control and Prevention. Measles Cases and Outbreaks. Consultado em 29/06/2026. Disponível em: https://www.cdc.gov/measles/data-research/index.html

[3] European Centre for Disease Prevention and Control. Measles and Rubella monthly report. Consultado em 29/06/2026. Disponível em: https://measles-rubella-monthly.ecdc.europa.eu/

[4] World Health Organization. Weekly epidemiological record. 28 November 2025. Disponível em: https://iris.who.int/server/api/core/bitstreams/8c65dd54-ee98-4438-938c-e7114851f870/content

[5] Direção-Geral da Saúde. Livro Azul de Vacinas: Sarampo. 2025. Disponível em: https://www.dgs.pt/ficheiros-de-upload-2013/37-sarampo-ultima-atualizacao-27112025-pdf.aspx