
A inovação em Saúde começa antes da tecnologia, quando olhamos para um problema antigo e perguntamos: e se fizéssemos diferente?
Inovar em saúde é cada vez mais compreender problemas reais, experimentar respostas, medir resultados e transformar organizações e territórios. É dessa inquietação que devem nascer os centros de inovação. Reunir profissionais, cidadãos, academia, empresas e decisores em torno de desafios concretos é a base. Depois converter os pilotos e projetos validados em soluções replicáveis e acima de tudo, melhores cuidados. Desta forma, e para atingirmos o verdadeiro objetivo das dinâmicas e mecanismos de inovação, precisamos da criação de espaços/ambientes onde a base possa ser uma realidade permanente e nos quais se invista de forma clara nas condições técnicas e humanas.
Sabemos que investir gera diferenciação. Um território com contexto clínico real, competências, dados seguros e espaços de cocriação torna-se mais atrativo para talento, empresas, investigação e financiamento. A inovação torna-se o motor de competitividade, emprego qualificado e fixação de pessoas, com retorno económico e social para o futuro.
Sentimos a procura crescente e a escassez de recursos. A necessidade de integrar responsavelmente a inteligência artificial (IA) na tecnologia de saúde é algo cada vez mais “palpável”. Mas a IA só cria valor quando é segura, transparente, auditável e serve mesmo as pessoas. Por isso, a perspetiva dos profissionais (e dos utilizadores/doentes) é insubstituível: são eles que conhecem a realidade, os circuitos, as limitações e quando realmente uma ferramenta liberta tempo para cuidar ou, ao invés, apenas acrescenta mais complexidade desnecessária.
A tecnologia deve criar valor permanente para quem protege a saúde ou gere a doença com autonomia, responsabilidade e segurança. A telesaúde, a telemonitorização e a gestão integrada de informação podem antecipar descompensações, evitar deslocações, apoiar cuidadores e aproximar equipas. Importa transformar os dados em alertas úteis, decisões partilhadas e informação com valor para a continuidade e agilidade nos cuidados. Só assim conseguiremos que cada pessoa se mantenha mais saudável ou “menos doente”. Existem, no entanto, inúmeros desafios com o excesso de “informação digital” e é determinante que esta transformação e capacitação aconteça cada vez mais cedo. A literacia digital e em saúde deve dar a crianças e jovens as competências para avaliar informação, usar ferramentas com sentido crítico e fazer escolhas informadas.
A tempestividade exige por isso experimentar e tentar diferente para resolver problemas de “sempre”. Integrar cuidados entre organizações públicas de saúde, respostas sociais e até prestadores privados permite percursos mais simples, próximos e coerentes, com significado para o cidadão. Fazê-lo é talvez o mais complexo desafio atual em saúde e precisamos de inovação para o resolver. As ULS já ocupam uma posição decisiva nesse caminho: reúnem cuidados primários, hospitalares e comunitários, conhecem a população e podem identificar necessidades, mobilizar profissionais, testar em contexto real, avaliar impacto e levar à escala aquilo que funciona.
Precisamos de subir o nível.
A inovação aprende-se fazendo. Concursos, workshops, projetos, programas, estudos e desafios colaborativos permitem experimentar e integrar diversas perspetivas no produto final. Quando escolas, universidades, serviços de saúde, organizações sociais, empresas e cidadãos participam desde o início, as soluções ganham relevância, incentivam a iniciativa económica e promovem desenvolvimento e coesão regional.
É neste enquadramento que um centro de inovação ganha sentido: uma dinâmica aberta de encontro, cocriação e aceleração, capaz de transformar necessidades e desafios do território em projetos, aprendizagem e soluções úteis. Ao aproximar profissionais, cidadãos, cuidadores, academia, setor social, empresas e decisores, pode fazer da inovação uma prática contínua, com responsabilidade, evidência e retorno para as pessoas. Com impacto e valor para a saúde das pessoas e das comunidades. É essa a verdadeira missão da inovação em saúde: transformar problemas reais em melhores cuidados, porque experimentar melhor é também cuidar melhor.
Os dados estão lançados…
Maurício Alves
Membro do NHEM e do seu grupo IA@SNS
Adjunto do Conselho de Administração da ULS Alto Alentejo




