
O itinerário leva-nos à Ilha de Lantau. A ascensão inicia-se no teleférico de Tung Chung, justamente cotado entre as melhores experiências de transporte aéreo do mundo (um dos 10 melhores do mundo). À medida que a cabine ganha altitude, a selva urbana de Hong Kong dá lugar a uma paisagem montanhosa e serena, coroada pela imponência do Buda Gigante de Tian Tan. A gigantesca estátua de bronze contempla o mar com uma serenidade olímpica, indiferente às convulsões do capital humano que fervilha lá em baixo.
Na mesma ilha, a visita à aldeia piscatória de Tai O, com as suas casas de palafita assentes sobre canais lodosos, oferece o contraste perfeito entre a tradição de subsistência e a hipermodernidade dos arranha-céus vizinhos. O dia encerra-se com um jantar no Times Square de Hong Kong, cercado por luzes digitais de escala monumental. Este contraste entre a quietude contemplativa do Buda e a agitação consumista dos centros urbanos ilustra a dualidade do capital humano no Oriente.
A China investe agressivamente na formação técnica e na retenção dos seus cientistas, enquanto a Europa enfrenta uma hemorragia contínua dos seus quadros mais qualificados. Esta sangria de talento atinge contornos dramáticos no sistema de saúde português. A rigidez das carreiras públicas, a degradação das condições de trabalho e a ausência de incentivos ao mérito continuam a empurrar milhares de médicos e enfermeiros formados com dinheiro dos contribuintes para o sector privado ou para a emigração.
Diário de Viagem: Dia 3 (Hong Kong) – As Tintas do Rosto e a Farmácia do Mundo
Balanços sociais do SNS revelam que mais de um milhar de médicos e dois mil enfermeiros abandonam o sistema público todos os anos. Cerca de quarenta por cento dos jovens médicos recém-especialistas recusam assinar contrato com o SNS após a conclusão do internato. Para tapar os buracos nos serviços de urgência, o Estado utiliza empresas de prestação de serviços, recorrendo a médicos “tarefeiros” a quem paga valores por hora substancialmente superiores aos auferidos pelos profissionais do quadro. Este modelo perverso destroi o espírito de equipa, desmotiva os profissionais efetivos e insufla custos operacionais num poço sem fundo.
A resposta estratégica exige a criação dum Estatuto “SNS Mais”, dotado de grelhas remuneratórias atrativas e diferenciação por mérito. Taticamente, é imperativo canalizar as verbas desperdiçadas em tarefeiros para o reforço dos quadros próprios através da generalização do regime de dedicação plena.
Nelson Ferreira Pires
Diretor-geral da Recordati
Ao longo dos próximos dias serão publicados novos capítulos deste Diário de Viagem à China.




