Dia do Farmacêutico: “Uma das transformações mais importantes tem de começar ainda antes da entrada no mercado de trabalho”

Nos últimos 14 anos, a Farmácia atravessou um dos períodos mais transformadores da sua história recente. Entre alterações legislativas, mudanças demográficas, uma pandemia sem precedentes e a crescente valorização do papel clínico dos farmacêuticos, o setor foi obrigado a reinventar-se, adaptando-se a novas exigências e assumindo responsabilidades cada vez mais relevantes junto dos cidadãos.

Se este percurso ficou marcado pela capacidade de resposta e resiliência da profissão, os próximos anos trazem novos desafios, desde a escassez de recursos humanos à atração das gerações mais jovens para a Farmácia Comunitária, passando pela inovação tecnológica, pela sustentabilidade económica e pela expansão dos serviços farmacêuticos.

No âmbito do Dia Nacional do Farmacêutico, que se comemorou no passado sábado (26), Afonso Garcia, presidente da Associação Portuguesa de Estudantes de Farmácia (APEF), faz o balanço das principais mudanças registadas desde 2012 e aponta os caminhos que poderão moldar a Farmácia até 2040.

Afonso Garcia, presidente da APEF

“Os últimos 14 anos foram marcados por uma evolução significativa do papel do farmacêutico no sistema de saúde português. Se há alguns anos a discussão estava muito centrada naquilo que o farmacêutico fazia tradicionalmente, hoje existe uma compreensão progressivamente mais ampla da sua intervenção enquanto profissional de saúde, desde a prevenção da doença e promoção da saúde à gestão da terapêutica e ao acompanhamento do doente.

A pandemia foi, naturalmente, um momento particularmente relevante nesta transformação. Tornou mais evidente a importância da proximidade, da acessibilidade e da capacidade de resposta dos farmacêuticos, mas também acelerou uma discussão que já vinha sendo feita, a necessidade de aproveitar plenamente as competências destes profissionais e de os integrar de forma mais efetiva nas respostas do sistema de saúde.

Também no plano das competências profissionais se verificaram mudanças importantes. A evolução da intervenção dos farmacêuticos na vacinação e a crescente discussão em torno de novas responsabilidades clínicas são exemplos de uma profissão que tem procurado responder às necessidades de uma população cada vez mais envelhecida, com maior prevalência de doença crónica e com terapêuticas progressivamente mais complexas.

Contudo, considero que uma das transformações mais importantes tem de começar ainda antes da entrada no mercado de trabalho, a formação farmacêutica tem de acompanhar a transformação da profissão. Neste campo, a APEF considera que a evolução tem sido bastante positiva, mas que ainda há um longo caminho que pode e deve ser percorrido.

Dia do Farmacêutico: “Continuamos com um modelo de atividade dos farmacêuticos muito dependente da dispensa”

Neste percurso, permanecem também desafios importantes, tornar a profissão mais atrativa para as novas gerações, garantir condições para que os farmacêuticos possam exercer plenamente as suas competências e reforçar a articulação entre os diferentes profissionais de saúde.”

O Farmacêutico em 20240

“Em 2040, acredito que a profissão farmacêutica será necessariamente mais clínica, mais digital e mais integrada no sistema de saúde, sem perder aquilo que constitui uma das suas maiores forças, a proximidade das populações.

O farmacêutico deverá assumir um papel cada vez mais relevante na gestão da terapêutica e no acompanhamento de doentes, particularmente num contexto de envelhecimento populacional, multimorbilidade e aumento da complexidade dos tratamentos. A prevenção, a literacia em saúde, a adesão à terapêutica e a utilização segura e eficaz do medicamento deverão continuar a ganhar importância.

Ao mesmo tempo, novas áreas terão de assumir maior expressão. A inteligência artificial, a saúde digital, a farmacogenómica, a medicina personalizada, as terapias avançadas e a utilização de dados em saúde vão transformar a forma como os medicamentos são desenvolvidos, utilizados e acompanhados. O farmacêutico terá de ser capaz de compreender estas ferramentas e, sobretudo, de interpretar a informação que delas resulta para tomar decisões centradas no doente.

Mas há uma competência que considero transversal a todas estas mudanças, a capacidade de trabalhar em equipa. O farmacêutico de 2040 não será definido apenas pelo conhecimento técnico do medicamento, mas pela sua capacidade de integrar esse conhecimento numa equipa multidisciplinar, comunicar com outros profissionais e com o doente e contribuir para decisões em saúde baseadas em evidência.

Por isso, se queremos chegar a 2040 com uma profissão preparada para esse futuro, a transformação tem de começar hoje, incluindo no ensino farmacêutico. As competências que queremos ver nos farmacêuticos de 2040 têm de começar a ser trabalhadas nas faculdades muito antes de 2040.

No fundo, não acredito que o futuro passe por definir uma única área de intervenção como “a” área do farmacêutico. O futuro passa por termos farmacêuticos capazes de intervir em diferentes contextos, com competências clínicas, científicas, digitais e humanas, e com uma responsabilidade cada vez maior na construção de respostas de saúde mais próxima e sustentável.”