Dia do Farmacêutico: “Continuamos com um modelo de atividade dos farmacêuticos muito dependente da dispensa”

Nos últimos 14 anos, a Farmácia atravessou um dos períodos mais transformadores da sua história recente. Entre alterações legislativas, mudanças demográficas, uma pandemia sem precedentes e a crescente valorização do papel clínico dos farmacêuticos, o setor foi obrigado a reinventar-se, adaptando-se a novas exigências e assumindo responsabilidades cada vez mais relevantes junto dos cidadãos.

Se este percurso ficou marcado pela capacidade de resposta e resiliência da profissão, os próximos anos trazem novos desafios, desde a escassez de recursos humanos à atração das gerações mais jovens para a Farmácia Comunitária, passando pela inovação tecnológica, pela sustentabilidade económica e pela expansão dos serviços farmacêuticos.

No âmbito do Dia Nacional do Farmacêutico, que se comemorou no passado sábado (26), Bruno de Campos Guerreiro, presidente da Associação Portuguesa de Farmacêuticos para a Comunidade (APFC), faz o balanço das principais mudanças registadas desde 2012 e aponta os caminhos que poderão moldar a Farmácia até 2040.

Bruno de Campos Guerreiro, presidente da APFC

“Os últimos 14 anos foram um período de transformação importante para a profissão farmacêutica em Portugal, embora com uma evolução que nem sempre acompanhou aquilo que os farmacêuticos já demonstraram ser capazes de fazer.

Houve uma mudança na forma como o farmacêutico é chamado a intervir junto da população. Passámos de uma intervenção muito centrada no medicamento e na sua dispensa para uma intervenção progressivamente mais assistencial, com maior participação na prevenção da doença, na vacinação, nos rastreios, no acompanhamento da terapêutica e nas estratégias de promoção da adesão. A pandemia de COVID-19 foi particularmente importante neste processo, porque demonstrou de forma muito evidente a capacidade de resposta, a adaptabilidade e a proximidade dos farmacêuticos à população.

Demonstrámos na prática que o farmacêutico pode ser muito mais do que o profissional que dispensa medicamentos. Pode intervir na promoção da saúde, acompanhar pessoas com doença crónica, identificar problemas relacionados com a terapêutica, contribuir para a prevenção e, sobretudo, estar presente de forma muito próxima quando o sistema de saúde não consegue dar resposta.

Nesse período também houve uma evolução importante na própria perceção social da profissão. Existe uma crescente confiança nos farmacêuticos e nas suas competências, e as pessoas procuram-nos cada vez mais para esclarecer dúvidas, compreender a terapêutica, resolver situações de saúde de menor complexidade ou simplesmente obter aconselhamento. O que significa que a população foi reconhecendo progressivamente uma dimensão clínica e assistencial na profissão que nem sempre teve correspondência no seu enquadramento institucional no sistema de saúde.

E é precisamente aqui que vejo alguns dos principais desafios dos últimos 14 anos. Apesar da evolução da prática, continuamos com um modelo de atividade dos farmacêuticos muito dependente da dispensa e, nas farmácias comunitárias, da margem comercial dos medicamentos, enquanto muitos dos serviços e cuidados farmacêuticos continuam insuficientemente valorizados e financiados. Se queremos uma profissão mais clínica e mais integrada no sistema de saúde, também temos de ter modelos de remuneração que valorizem adequadamente os serviços e os cuidados prestados pelos farmacêuticos. Isto acaba por limitar a utilização plena das competências dos farmacêuticos e cria uma diferença entre aquilo que já fazemos e aquilo que o sistema de saúde reconhece e integra.

Temos também desafios ao nível da autonomia profissional, da progressão na carreira, da diferenciação e especialização, e da integração do farmacêutico nos percursos assistenciais. A transformação digital trouxe novas oportunidades, mas a integração da informação clínica e a interoperabilidade com os restantes profissionais e sistemas de saúde continuam muito aquém daquilo que seria necessário para uma verdadeira continuidade de cuidados.

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Por isso, diria que a profissão evoluiu mais rapidamente naquilo que demonstrou ser capaz de fazer do que na forma como o sistema de saúde reconheceu e integrou essa capacidade.

E é precisamente esse o grande desafio que temos pela frente: transformar aquilo que já demonstrámos na prática, e aquilo pelo que somos procurados pelas pessoas, numa evolução estruturada da profissão, com maior autonomia, diferenciação, integração clínica e reconhecimento do valor que o farmacêutico pode gerar em saúde.”

O Farmacêutico em 20240

“Olhando para 2040, penso que a profissão farmacêutica será necessariamente mais clínica, mais diferenciada, mais autónoma e também mais integrada nos sistemas de saúde.

A primeira grande mudança será provavelmente a evolução do farmacêutico de um profissional muito associado ao medicamento para um profissional cada vez mais associado à gestão da terapêutica e aos resultados em saúde. O farmacêutico deixará de ser procurado apenas pelos produtos que disponibiliza, e passará a ser procurado cada vez mais pelos serviços que presta.

O conhecimento do medicamento continuará naturalmente a ser o centro da profissão, mas será cada vez mais importante saber utilizar esse conhecimento para acompanhar pessoas, promover a adesão, otimizar e individualizar terapêuticas, prevenir problemas relacionados com a terapêutica e com a saúde e contribuir para decisões clínicas.

Vamos ter farmacêuticos com competências clínicas muito mais avançadas, capazes de acompanhar terapêuticas complexas, fazer revisão e reconciliação da medicação entre diferentes níveis de cuidados, monitorizar a efetividade e a segurança dos tratamentos e trabalhar de forma cada vez mais integrada com médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde. A diferenciação e a especialização terão, por isso, um papel muito importante, e será necessário preparar e estruturar, desde já, os caminhos que permitam essa evolução da profissão.

Ao mesmo tempo, acredito que o farmacêutico terá uma intervenção muito maior na utilização de dados em saúde. A saúde digital, a inteligência artificial, a monitorização remota e os dispositivos digitais vão permitir acompanhar as pessoas de formas que hoje ainda são pouco comuns. O farmacêutico terá de saber interpretar essa informação, utilizá-la e integrá-la na sua prática e, sobretudo, perceber onde termina a tecnologia e começa a sua responsabilidade clínica.

Também a medicina personalizada deverá ganhar importância e, como tal, os cuidados farmacêuticos personalizados também. A farmacogenética, a individualização das terapêuticas e outras tecnologias poderão permitir adaptar cada vez mais os tratamentos às características,  necessidades e contexto de cada pessoa. E até áreas como a impressão 3D de medicamentos poderão, no futuro, voltar a aproximar o farmacêutico da preparação individualizada da terapêutica.

Mas não penso que o futuro da profissão seja apenas tecnológico. Pelo contrário. Quanto mais tecnologia tivermos, mais importante será a capacidade do farmacêutico para interpretar a informação, tomar decisões profissionais, comunicar com a pessoa e estabelecer uma relação de confiança. A relação humana, a proximidade e a acessibilidade continuarão a ser características fundamentais da profissão, embora os meios através dos quais são concretizadas sejam cada vez mais diversificados.

Acredito que o exercício profissional será menos limitado ao local onde tradicionalmente conhecemos o farmacêutico, seja nas farmácias ou nos hospitais. Haverá maior diversidade de contextos de exercício, maior autonomia e  uma maior responsabilidade individual. O farmacêutico poderá prestar cuidados na farmácia, mas também no domicílio, em estruturas residenciais para idosos, em consultório, através de meios digitais ou integrado em diferentes estruturas de saúde.

Por isso, quando penso no farmacêutico de 2040, não penso apenas num farmacêutico que sabe mais sobre medicamentos. Penso num profissional de saúde com competências clínicas, digitais e científicas mais avançadas, capaz de trabalhar com dados, tecnologia e inteligência artificial, mas também de acompanhar pessoas e tomar decisões com autonomia e responsabilidade.

A profissão terá de evoluir de acordo com a ciência e com a tecnologia, mas sem perder aquilo que continua a ser essencial: o conhecimento especializado do medicamento, a responsabilidade profissional, a proximidade e a relação de confiança com as pessoas.”