Dia do Farmacêutico: “Portugal terá de acelerar a integração multiprofissional”

Nos últimos 14 anos, a Farmácia atravessou um dos períodos mais transformadores da sua história recente. Entre alterações legislativas, mudanças demográficas, uma pandemia sem precedentes e a crescente valorização do papel clínico dos farmacêuticos, o setor foi obrigado a reinventar-se, adaptando-se a novas exigências e assumindo responsabilidades cada vez mais relevantes junto dos cidadãos.

Se este percurso ficou marcado pela capacidade de resposta e resiliência da profissão, os próximos anos trazem novos desafios, desde a escassez de recursos humanos à atração das gerações mais jovens para a Farmácia Comunitária, passando pela inovação tecnológica, pela sustentabilidade económica e pela expansão dos serviços farmacêuticos.

No âmbito do Dia Nacional do Farmacêutico, que se comemorou no passado sábado (26), Henrique Reguengo, presidente do Conselho do Colégio de Especialidade de Análises Clínicas e Genética Humana da Ordem dos Farmacêuticos faz o balanço das principais mudanças registadas desde 2012 e aponta os caminhos que poderão moldar a Farmácia até 2040.

Henrique Reguengo

“Nas Análises Clínicas e na Genética Humana, o farmacêutico sempre foi um profissional altamente diferenciado. Nos últimos anos, porém, ocorreram mudanças estruturais muito relevantes: a implementação da carreira farmacêutica, com o reconhecimento destas especialidades, e a criação da Residência Farmacêutica, que voltou a assegurar, de forma regular e anual, a formação de novos especialistas, algo que há cerca de 30 anos não acontecia desta forma.

Dia do Farmacêutico: “A escassez de recursos humanos provocou um aumento substancial da carga horária e laboral”

Em paralelo, a evolução científica e tecnológica tem exigido uma atualização permanente das competências. O grande desafio agora é transformar o reconhecimento legal e profissional em consequências reais dentro do SNS. É necessário que a organização dos serviços acompanhe esse reconhecimento, atribuindo aos farmacêuticos especialistas responsabilidades e condições de intervenção compatíveis com as suas competências.”

O Farmacêutico em 20240

“Até 2040, as Análises Clínicas serão cada vez menos uma atividade centrada na produção de resultados e cada vez mais uma disciplina de integração e interpretação de informação complexa.

A genómica, a farmacogenómica, a proteómica, a metabolómica, a espectrometria de massa, a biópsia líquida e a inteligência artificial terão um peso crescente. O farmacêutico especialista terá de saber integrar dados laboratoriais, genéticos, clínicos e farmacológicos e transformá-los em informação útil para a decisão clínica.

O futuro exige mais diferenciação científica, mas também maior intervenção clínica e maior responsabilidade. Portugal terá de acelerar a integração multiprofissional e organizar os cuidados cada vez mais em função das competências efetivamente demonstradas, e menos em função de fronteiras históricas entre profissões.”