Na Madeira, a falta de técnicos de farmácia nos Serviços Farmacêuticos do Hospital Dr. Nélio Mendonça “está a ter consequências que vão muito além da sobrecarga dos profissionais: condiciona a gestão eficiente dos medicamentos, aumenta o risco de desperdício, pressiona os custos da farmácia hospitalar e obriga ao recurso a trabalho extraordinário para assegurar a resposta necessária aos serviços e aos utentes”, declara o Sindicato Nacional dos Técnicos Superiores de Saúde das Áreas de Diagnóstico e Terapêutica (STSS), em comunicado.
Perante esta situação, os técnicos de farmácia entregaram, no passado dia 28 de agosto, uma nova declaração de escusa de responsabilidade ao Conselho de Administração do Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira (SESARAM), alertando para a impossibilidade de continuarem a assumir individualmente as consequências de insuficiências de recursos humanos que têm sido reiteradamente identificadas.
“A carência de profissionais arrasta-se há cerca de 12 meses e agravou-se com a saída definitiva de trabalhadores, baixas médicas prolongadas e a necessidade de afetar Técnicos de Farmácia a novas valências, designadamente à Unidade de Preparação de Citotóxicos. O resultado é uma equipa insuficiente para responder, em condições adequadas, ao volume e à complexidade da atividade dos Serviços Farmacêuticos” alerta ainda o STSS, reforçando que “esta insuficiência tem também um impacto económico. Com menos profissionais disponíveis, ficam condicionadas tarefas essenciais à boa gestão do medicamento, nomeadamente o controlo rigoroso dos prazos de validade, a gestão de stocks de segurança, a preparação atempada das requisições dos diferentes serviços e a distribuição dos medicamentos através do sistema de Distribuição Individual Diária em Dose Unitária”.
Quando estes procedimentos não podem ser assegurados com a regularidade e o rigor necessários, “aumenta o risco de perdas e desperdício de medicamentos e torna-se mais difícil garantir uma gestão eficiente dos stocks e dos recursos financeiros associados à farmácia hospitalar”, alerta o sindicato.
Recurso a horas extraordinárias
De acordo com o comunicado, a resposta dos Serviços Farmacêuticos tem sido assegurada à custa de uma crescente sobrecarga das equipas e do recurso a horas extraordinárias, solução que permite colmatar necessidades imediatas, mas que não resolve a falta estrutural de técnicos de farmácia.
Para o STSS, “esta opção representa igualmente um custo acrescido para o SESARAM que poderia ser reduzido através do reforço adequado e permanente das equipas. Ao custo financeiro do trabalho extraordinário junta-se o desgaste acumulado dos profissionais, sujeitos há meses a uma pressão laboral elevada para assegurar funções indispensáveis ao funcionamento hospitalar”.
Circuito do medicamento condicionado
A escassez de técnicos de farmácia está também a condicionar procedimentos essenciais à segurança do circuito do medicamento. “Uma parte significativa dos medicamentos não consegue ser distribuída através do sistema de dose unitária, concebido precisamente para reforçar a segurança e a eficácia do processo de distribuição. Estão igualmente identificados constrangimentos na preparação atempada das requisições diárias e semanais destinadas aos serviços de internamento e de urgência”, garante o STSS.
A pressão é particularmente significativa na resposta aos doentes oncológicos e crónicos. O aumento do número de utentes integrados em protocolos terapêuticos com anticorpos monoclonais aumentou substancialmente a exigência sobre a área de manipulação complexa, sem que tenha existido um reforço proporcional dos recursos humanos.
Neste contexto, os profissionais alertam para um risco acrescido de lapsos, omissões ou erros na dispensa de medicamentos, decorrente da conjugação entre falta de pessoal, sobrecarga laboral e necessidade de responder com rapidez às solicitações de todo o hospital.
Nova escusa de responsabilidade
A escusa de responsabilidade entregue a 28 de agosto surge, assim, como mais um alerta formal dos profissionais perante uma situação que consideram insustentável. “Os Técnicos de Farmácia reafirmam a sua disponibilidade para assegurar os cuidados necessários aos utentes, mas recusam que lhes seja atribuída responsabilidade individual por eventuais incidentes ou falhas que resultem diretamente da insuficiência de recursos humanos e das condições de funcionamento dos serviços”, lê-se no comunicado.
O STSS exige ao Conselho de Administração do SESARAM uma resposta efetiva ao problema, através do reforço dos quadros de técnicos de farmácia e de uma organização dos serviços que permita assegurar simultaneamente a segurança dos utentes, a qualidade do circuito do medicamento e uma gestão eficiente dos recursos públicos. “Manter uma farmácia hospitalar a funcionar através de horas extraordinárias, com dificuldades no controlo de stocks e validades e com profissionais sujeitos a uma sobrecarga permanente não constitui uma solução. A falta de Técnicos de Farmácia já não representa apenas um problema de recursos humanos: representa também desperdício, custos acrescidos e risco para a capacidade de resposta do SESARAM” conclui.




