
Num momento em que o envelhecimento da população coloca novos desafios aos sistemas de saúde, a compreensão dos mecanismos biológicos que estão na sua origem assume uma importância crescente para a investigação, a prática clínica e a formação dos profissionais de saúde. Professora da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra e investigadora na área do envelhecimento, Cláudia Cavadas defende que a Farmácia tem um papel determinante na avaliação crítica da evidência científica, no desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas e na promoção de uma informação rigorosa junto da população.
Em entrevista, ao NETFARMA, a especialista, a propósito do recente lançamento do seu livro Os Segredos do Corpo, reflete sobre os desafios e oportunidades que a ciência do envelhecimento reserva para as próximas décadas.
– O que a motivou a escrever Os Segredos do Envelhecimento e qual a principal mensagem que pretende transmitir aos leitores?
– O livro nasceu de um desafio lançado pela editora Contraponto, que aceitei por reconhecer nele uma oportunidade de fazer chegar a ciência do envelhecimento a mais pessoas, para além dos dos artigos científicos. Tendo desenvolvido investigação nesta área há quase vinte anos, senti também que poderia contribuir para tornar acessível um conhecimento que evoluiu muito rapidamente e que tem implicações diretas na forma como pensamos a saúde, a doença e a longevidade.
No livro procuro explicar, de forma simples, o que acontece no nosso corpo quando envelhecemos, mostrando que este processo resulta da interação entre múltiplos fatores, desde a genética e a epigenética, à alimentação, ao sono, à atividade física, ao ambiente e ao contexto social
No livro procuro explicar, de forma acessivel, o que a ciência já demonstrou, o que é biologicamente plausível e o que permanece apenas promissor ou especulativo, sem apresentar receitas, recomendar suplementos ou alimentar promessas de rejuvenescimento.

– No livro defende que não é o tempo em si que nos envelhece, mas a forma como o organismo responde ao passar dos anos. Pode explicar este conceito?
– Duas pessoas que nasceram no mesmo dia têm a mesma idade cronológica, mas podem apresentar idades biológicas muito diferentes: enquanto uma mantém autonomia, capacidade física e menor vulnerabilidade à doença, outra pode desenvolver mais cedo fragilidade e perda de função.
Esta diferença explica-se, em parte, pelo equilíbrio entre os danos que se acumulam ao longo da vida e a capacidade do organismo para os reparar, recorrendo a sistemas celulares de manutenção, renovação e reciclagem. Com o passar dos anos, esses mecanismos podem tornar-se menos eficientes e menos coordenados, fazendo com que o dano se acumule de forma distinta em cada pessoa e até em diferentes órgãos do mesmo indivíduo.
O tempo é, por isso, o contexto em que o envelhecimento ocorre, mas não é, por si só, a única causa, uma vez que o resultado depende também da forma como cada organismo responde às exposições, aos danos acumulados e às condições em que vive. Mais do que contar os anos, interessa compreender a história que esses anos deixaram nas células, nos tecidos e nos órgãos.
– De que forma os mais recentes avanços científicos têm alterado a nossa compreensão sobre os mecanismos biológicos do envelhecimento?
– Hoje conhecemos várias marcas biológicas do envelhecimento: danos no ADN, alterações epigenéticas, disfunção mitocondrial, perda da capacidade de reciclagem celular, inflamação crónica e acumulação de células senescentes, entre outras. Mas talvez a descoberta mais interessante seja que estes mecanismos não atuam isoladamente. Os órgãos comunicam entre si e uma alteração localizada pode produzir efeitos em todo o organismo. No livro exploro, por exemplo, uma questão que acompanha quase vinte anos da minha investigação: poderá uma pequena região do cérebro, o hipotálamo, participar na coordenação do envelhecimento?
– A obra aborda a influência da genética, da epigenética e do estilo de vida. Qual destes fatores tem atualmente maior impacto na forma como envelhecemos?
– Não podemos separar estes fatores, porque a forma como envelhecemos resulta precisamente da interação entre eles ao longo da vida. Os genes influenciam o ponto de partida, condicionando determinadas vulnerabilidades e capacidades de resposta, mas não determinam, por si só, todo o percurso biológico de uma pessoa.
A epigenética acrescenta uma dimensão particularmente importante, porque regula quais os genes que são utilizados por cada célula, em que momento e com que intensidade, funcionando como uma das principais interfaces entre o genoma e o ambiente. É através destes mecanismos que experiências e exposições acumuladas ao longo da vida podem deixar marcas duradouras na nossa biologia.
A alimentação, a atividade física, o sono, o stresse e as exposições ambientais podem influenciar estes processos, mas também as condições económicas, a qualidade da habitação, a poluição, o trabalho, as relações sociais e o acesso aos cuidados de saúde condicionam a forma como envelhecemos. Por isso, a biologia não está separada da vida que tivemos: o envelhecimento resulta do diálogo contínuo entre predisposição genética, regulação epigenética, comportamentos, ambiente e contexto social.
– Que hábitos do dia a dia considera mais determinantes para promover um envelhecimento saudável e prevenir doenças crónicas?
– Há muito que sabemos quais são os hábitos mais importantes para um envelhecimento saudável: manter atividade física regular, ter uma alimentação equilibrada, dormir adequadamente, não fumar, moderar o consumo de álcool e preservar relações sociais. O que a ciência começa agora a explicar com maior detalhe é por que razão esses hábitos têm efeitos tão profundos e como atuam nos mecanismos celulares e moleculares do envelhecimento.
Sabemos, por exemplo, que o exercício não beneficia apenas os músculos, porque estes libertam moléculas que comunicam com o cérebro, o fígado, o tecido adiposo e o sistema imunitário, enquanto o sono contribui para a regulação hormonal, a consolidação da memória, os ritmos circadianos e os processos de manutenção do organismo. A alimentação, por sua vez, influencia o metabolismo, a inflamação e as vias celulares que regulam a resposta aos nutrientes, a reparação e a reciclagem celular.
No livro procuro mostrar precisamente essa passagem entre aquilo que a experiência e a saúde pública há muito recomendam e aquilo que a ciência consegue hoje explicar e compreender: a forma como os comportamentos quotidianos se inscrevem na biologia das células e podem contribuir para trajetórias de envelhecimento diferentes.
– Enquanto professora da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, de que forma considera que o conhecimento sobre os mecanismos do envelhecimento está a influenciar a formação dos futuros farmacêuticos e a prática farmacêutica?
– O conhecimento sobre os mecanismos do envelhecimento deve tornar a formação farmacêutica mais integrada, porque os estudantes precisam de compreender como as alterações celulares e fisiológicas associadas à idade modificam a resposta aos medicamentos, sobretudo em situações de fragilidade, multimorbilidade e polimedicação. Mas, mais do que transmitir conteúdos, importa inspirar os estudantes pela ciência, estimular a curiosidade e desenvolver o método e o espírito crítico necessários para avaliarem a qualidade da evidência, reconhecerem os limites dos estudos e distinguirem resultados promissores de alegações sem fundamento científico. Na prática, este conhecimento reforça o papel do farmacêutico na utilização segura e racional dos medicamentos e na promoção da literacia em saúde e em ciência, ajudando a população a interpretar criticamente testes, suplementos e promessas de longevidade sem evidência científica suficiente.
– A utilização crescente de medicamentos e outras intervenções para promover um envelhecimento saudável tem gerado grande interesse. Quais considera serem os principais desafios e oportunidades para a Farmácia nesta área nas próximas décadas?
– Estão a ser estudadas abordagens dirigidas às células senescentes, à autofagia, à função mitocondrial e à reprogramação celular parcial, entre outras, com o objetivo de atuar sobre alguns mecanismos associados ao envelhecimento. No entanto, grande parte desta investigação permanece em fase experimental ou pré-clínica, e não existe atualmente qualquer medicamento capaz de rejuvenescer o organismo humano de forma segura, consistente e comprovada.
Para a Farmácia, a principal oportunidade está na investigação, no desenvolvimento e na avaliação rigorosa destas novas abordagens. Um dos grandes desafios será acompanhar uma área em rápida evolução, aceder a informação científica atualizada e de qualidade e traduzi-la de forma clara para os profissionais de saúde e para a população. Será igualmente essencial distinguir resultados experimentais promissores de benefícios clínicos efetivamente demonstrados, evitando que o entusiasmo científico seja ultrapassado por ofertas comerciais, suplementos ou promessas sem evidência científica suficiente.
A Farmácia já contribuiu de forma decisiva para o aumento da longevidade da população, através do desenvolvimento, do acesso e da utilização segura dos medicamentos, da vacinação, da prevenção da doença e do acompanhamento das terapêuticas. Nas próximas décadas, o desafio será continuar esse contributo, integrando criticamente os avanços da ciência do envelhecimento. O objetivo não deve ser prolongar a vida a qualquer custo, mas atrasar o aparecimento da doença e preservar, durante mais tempo, a autonomia, a funcionalidade e a qualidade de vida.




