Interoperabilidade em Saúde: Mais do que ligar sistemas, unir profissionais e utentes

Num sistema de saúde fragmentado, a informação clínica comporta-se, muitas vezes, como um “utente sem referenciação”: circula mal, chega tarde e perde contexto – é precisamente aqui que a interoperabilidade revela o seu valor.

A interoperabilidade em saúde é a capacidade de diferentes sistemas acederem, trocarem e utilizarem informação de forma coordenada e segura [1-4], garantindo que os dados mantêm o mesmo significado entre sistemas e contextos de cuidados [3]. Não se trata apenas de trocar dados, mas de permitir que sistemas, organizações e profissionais partilhem e utilizem informação de forma coerente [1-4]. Por outras palavras, trata-se da capacidade de diferentes partes do sistema de saúde “falarem a mesma língua”, comunicação esta que se constrói em níveis [4,5].

Numa abordagem ascendente, representada por um modelo em pirâmide, a interoperabilidade organiza-se, da base para o topo, em quatro níveis:

  1. Fundacional, que permite que os sistemas se liguem e troquem dados de forma segura [4];
  2. Sintático, que define formatos e estruturas comuns, para que a informação enviada por um sistema possa ser lida por outro [4,5];
  3. Semântico, que garante que mantém o mesmo significado clínico [4,5] – ou seja, um diagnóstico, uma prescrição ou um resultado de exame devem ser entendidos da mesma forma, independentemente do sistema;
  4. Organizacional, que exige coordenação entre organizações e profissionais e o alinhamento entre regras, políticas, responsabilidades, práticas e fluxos de trabalho [4], e que visa integrar as capacidades desenvolvidas nos níveis anteriores, de forma a que a informação seja comunicada e utilizada de forma segura, contínua e atempada, dentro e  entre organizações [4,5].

No passado mês de julho, um relatório da OCDE reforçou a relevância da interoperabilidade em saúde, indicando que:

  • 17,5% dos custos de saúde estão associados a erros de diagnóstico, sendo uma parte destes atribuível à fraca interoperabilidade;
  • 81,5% dos médicos consideram que uma interoperabilidade inadequada representa um risco para a segurança dos utentes;
  • O valor potencial associado à interoperabilidade dos dados de saúde situa-se entre 2,7% e 6,6% da despesa dos sistemas de saúde – este valor resulta da otimização da prestação de serviços, da redução de erros, de tratamentos mais atempados, de maior rapidez na investigação e desenvolvimento e da prevenção, mas a sua concretização exige uma mudança: a transição de sistemas orientados para as necessidades de cada instituição para um ecossistema digital integrado e centrado no utente, no qual os dados possam acompanhar o utente ao longo do percurso de cuidados e ser reutilizados de forma atempada e protegida [6].

Numa era marcada pela necessidade de comunicação e usabilidade de dados com crescente interesse do SNS na implementação de novas soluções digitais e impacto direto no eventual financiamento das instituições, importa recordar o seguinte: a terapêutica de 1ª linha para o sucesso da implementação de um sistema informático passará sempre por assegurar condições adequadas de interoperabilidade.

Na era da transição digital, a eficiência dos sistemas de saúde depende de uma premissa fundamental: o dado clínico deixou de ser um mero registo administrativo para se tornar o ativo mais estratégico da gestão hospitalar. Transformar o imenso volume de registos diários em informação dotada de verdadeira usabilidade é o primeiro passo para sustentar decisões operacionais e políticas públicas fundamentadas, maximizando a qualidade dos cuidados prestados.

A sustentabilidade financeira das instituições de saúde encontra-se intrinsecamente ligada à precisão desses registos. Métricas como o Índice de Case-Mix (ICM) e a codificação por Grupos de Diagnósticos Homogéneos (GDH) definem a alocação de recursos com base na complexidade real dos utentes. Quando o registo clínico é incompleto ou descontextualizado, a complexidade da doença é subestimada, gerando subfinanciamento e comprometendo a equidade na distribuição do orçamento.

Para que esta equação funcione, a produção de dados rigorosos deve ser acompanhada por uma interoperabilidade fluida entre plataformas. Sem a comunicação técnica e conceptual entre os diferentes sistemas informáticos, a informação permanece isolada em silos, anulando o seu valor preditivo e aumentando a ineficiência do ecossistema.

Torna-se, por isso, urgente estruturar um Plano Nacional de Sensibilização. É imperativo capacitar os clínicos (enquanto produtores primários da informação) e consciencializar as instituições gestoras de que a codificação rigorosa não é burocracia, mas sim o gararante do financiamento e da segurança do utente. Só com dados exatos, contextualizados e integrados será possível desenhar um futuro onde a excelência clínica e a responsabilidade financeira caminhem lado a lado.

Para que este Plano Nacional de Sensibilização não se reduza a um mero exercício teórico, a sua execução deve assentar num paradigma de verdadeira interdisciplinaridade. A produção de dados em saúde deixou de ser uma tarefa isolada do médico no ato da consulta; envolve hoje farmacêuticos, enfermeiros, administradores hospitalares, codificadores clínicos e especialistas em tecnologias de informação. Cada uma destas áreas aporta uma visão complementar sobre o percurso do utente e o ciclo de vida do medicamento.

Um plano verdadeiramente transformador exige programas de capacitação conjunta, nos quais a literacia de dados seja trabalhada de forma integrada entre equipas clínicas e equipas de gestão. Quando o farmacêutico compreende o impacto da dispensa no GDH e o médico reconhece como a precisão do seu registo valida o financiamento da terapêutica inovadora, quebra-se a visão em silos. Sensibilizar para o rigor informacional é demonstrar que a qualidade do dado é uma responsabilidade partilhada e um pilar direto da excelência assistencial.

Ricardo Clara das Dores
Gestor de Projeto na área dos Sistemas de Informação em Saúde, membro do Nova SBE Health Economics & Management Knowledge Center (NHEM) e aluno do Doutoramento em Ciências da Educação da Universidad de Huelva

Teresa Soares
Consultora do Setor Público e Saúde, membro do Nova SBE Health Economics & Management Knowledge Center (NHEM) e membro do grupo IA@SNS do NHEM

 

Referências:

  1. Li E, Clarke J, Ashrafian H, Darzi A, Neves AL. The impact of electronic health record interoperability on safety and quality of care in high-income countries: systematic review. J Med Internet Res. 2022;24(9):e38144. doi: 10.2196/38144.
  2. Sheikh A, Anderson M, Albala S, Casadei B, Franklin B, Richards M, et al. Health information technology and digital innovation for national learning health and care systems. Lancet Digit Health. 2021;3(6):e383-96. doi: 10.1016/S2589-7500(21)00005-4.
  3. Palojoki S, Lehtonen L, Vuokko R. Semantic interoperability of electronic health records: systematic review of alternative approaches for enhancing patient information availability. JMIR Med Inform. 2024;12:e53535. doi: 10.2196/53535.
  4. Healthcare Information and Management Systems Society. Interoperability in healthcare [Internet]. 2020. Available from: https://nationalcapitalarea.himss.org/resources/interoperability-healthcare.
  5. Tengku Alang TAI, Lee YY, Tan TS, Mokhtar AM. Medical digital twin technology for interoperability: challenges and opportunities. Biomed Eng Comput Biol. 2026;17. doi: 10.1177/11795972261431928.
  6. Fellner R, L’Heureux Y, Köhr J, Sutherland E, Velazquez Pelaez A. Interoperability in healthcare: towards an interconnected future. OECD Health Working Papers. Paris: OECD Publishing; 2026. No. 197. doi: 10.1787/eb71b7be-en