Diário de Viagem: Das grandes dinâmicas globais aos desafios da Saúde e da Indústria Farmacêutica

INTRODUÇÃO

Caros leitores do portal NETFARMA,

Ao longo da minha carreira executiva na Indústria Farmacêutica, no acompanhamento ativo das políticas públicas de saúde e associativismo farmacêutico em Portugal, habituei-me a analisar pessoas,  números, corporativismo associativo, legislação, relatórios de sustentabilidade e regulatórios. Contudo, há momentos em que o rigor dos dados precisa de ser confrontado com o choque térmico da realidade empírica. Esta série de 18 crónicas diárias nasce duma viagem que fiz de 3 semanas à China e permite exatamente esse confronto: o contraste propositado entre a observação microscópica do quotidiano — o pitoresco, o trivial, a maquilhagem kitsch de Hong Kong ou a burocracia dos bilhetes de comboio validados sempre com o passaporte, a análise macroeconómica da geopolítica global e a minha visão da saúde no nosso país. Fiz vinte e oito mil quilómetros numa viagem de dezoito dias pelo Oriente visitando a china e os seus territórios. Percorri Macau, Hong Kong, Yangshuo, Chengdu, Chongqing, Wulong, Zhangjiajie e Pequim. O que testemunhei não foi apenas um percurso turístico, mas uma verdadeira transição de era. Enquanto a Europa se consome em regulação e proibições, a China constrói uma hegemonia pragmática fundada na velocidade industrial, na automação extrema e na reconfiguração acelerada do seu capital humano. Estas crónicas contrapõem a velocidade avassaladora do Oriente com a paralisia burocrática e reguladora do Ocidente. Em cada dia, entrelaço a experiência da viagem, as grandes dinâmicas macroeconómicas e geopolíticas, assim como com os desafios prementes do setor da saúde em Portugal e da indústria farmacêutica. Pretendo demonstrar que a saúde em Portugal não pode continuar refém de um Serviço Nacional de Saúde (SNS) sobrecarregado devido a questões ideológicas, sufocado pela escassez de profissionais, listas de espera crónicas e por um modelo obsoleto de pagamento por volume de atos médicas, em vez do verdadeiro Financiamento Baseado no Valor (Value-Based Healthcare).

A viagem pela China representa muito mais do que a simples travessia geográfica de um gigante continental; é uma imersão vertiginosa na complexidade de uma civilização milenar que se ergue como o motor determinante do século XXI. Percorrer o território chinês é testemunhar o choque e a harmonia entre o peso da história e o pulsar do futuro. Do ponto de vista geopolítico e macroeconómico, o que se observa no terreno é a manifestação física de uma nova ordem mundial. A China deixou há muito de ser a mera ‘fábrica do mundo’ para se afirmar como o epicentro da disputa pela hegemonia tecnológica, industrial e comercial frente aos restantes blocos mundiais. Na corrida com os Estados Unidos e a União Europeia, Pequim tem demonstrado uma capacidade incomparável de execução estratégica a longo prazo. Enquanto o Ocidente lida com ciclos políticos curtos e polarização fragmentada, o modelo chinês combina o capitalismo de Estado com investimentos massivos em setores do futuro: inteligência artificial, robótica, veículos elétricos e transição energética. A iniciativa da ‘Nova Rota da Seda’ (Belt and Road) é a prova viva dessa ambição, tecendo uma teia global de infraestruturas que liga o Oriente à Europa, África e América Latina, redefinindo as rotas do comércio internacional e desafiando o domínio do dólar.

Convido-vos a embarcar comigo nesta jornada reflexiva. Até porque há algo de prodigiosamente desgastante e, ao mesmo tempo, infinitamente reconfortante em dar meia volta ao mundo para descobrir que o futuro já aconteceu — e que nós, europeus, corremos o risco de nem sequer sermos convidados para a festa de inauguração, a menos que tenhamos a coragem de mudar de rumo.

 

Dia 0 (Lisboa) – E Portugal?

A sustentabilidade do nosso Estado Social depende muito da forma como gerimos o setor da saúde e a indústria farmacêutica. Portugal tem um dos sistemas de saúde mais eficientes da Europa em vários indicadores, mas enfrenta desafios estruturais sérios. A combinação de envelhecimento populacional, doenças crónicas, escassez de recursos humanos e pressão financeira afeta tanto o SNS como o setor farmacêutico. A realidade tem o mau hábito de ignorar discursos políticos. O envelhecimento da população é o maior desafio de longo prazo. Estando entre os países mais envelhecidos da Europa, com uma esperança de vida de 82,5 anos (acima da média da OCDE), Portugal regista uma procura crescente por cuidados continuados e tratamento de doenças crónicas. Isto traduz-se em mais casos de demência, insuficiência cardíaca, diabetes e cancro, aumentando a despesa pública. Contudo, a OCDE destaca que Portugal tem apenas 0,8 trabalhadores de cuidados continuados por cada 100 idosos, muito abaixo da média OCDE de 5,0. A par do envelhecimento, os estilos de vida alimentam uma elevada carga de doença crónica: 56% dos adultos não praticam atividade física suficiente, o consumo de álcool atinge 11,9 litros por pessoa/ano (face à média OCDE de 8,5 litros) e a obesidade afeta 16% dos adultos. Doenças cardiovasculares, cancro, diabetes e patologias respiratórias absorvem uma fatia crescente dos custos do SNS. Existem 1,56m de cidadãos sem médico de família. Estes fatores refletem-se nos tempos de espera no SNS, um dos problemas mais visíveis para os cidadãos. No primeiro semestre de 2025, existiam quase 1 milhão de utentes à espera da primeira consulta hospitalar, com 56,6% a aguardar acima do tempo máximo recomendado. No final de 2025, a lista de espera ultrapassava 1,05 milhões de pessoas, das quais 43,7% estavam acima dos tempos garantidos. O problema ultrapassa a questão financeira, incidindo na organização e na gestão dos recursos humanos.

Apesar de Portugal contar com 5,8 médicos por 1.000 habitantes (acima da média OCDE), enfrenta uma distribuição geográfica desigual, escassez de enfermeiros (7,6 por 1.000 habitantes, abaixo da média OCDE de 9,2), dificuldade de retenção no SNS e emigração qualificada. No plano financeiro, o país afeta cerca de 10,4% do PIB à saúde e gasta 5.212 dólares PPC por habitante (abaixo dos 5.967 dólares da OCDE). Mas apenas 65% da despesa em saúde é pública (média UE de 80%) fazendo com que 35% do custo seja privado e recaia diretamente sobre as famílias. Portanto 8% das famílias têm dificuldades financeiras devido a despesas com saúde. Numa altura em que a inovação médica encarece e a procura cresce, apenas 2,3% da despesa em saúde é aplicada em prevenção (abaixo dos 3,4% da OCDE). Nos cuidados continuados, em 2024, verificavam-se medianas de espera entre 47 e 56 dias, ultrapassando os 100 dias em certas regiões.

Paralelamente, a indústria farmacêutica enfrenta o desafio do acesso a medicamentos inovadores, marcado por processos de avaliação longos e negociações demoradas de comparticipação. O Estado procura conter custos através de revisões de preços e promoção de genéricos (cuja quota em volume é de 52%, próxima dos 56% da OCDE; embora no mercado genericizado seja acima de 90%), enquanto o consumo de oncológicos, antidiabéticos, biológicos e terapias raras pressiona a despesa. Na investigação clínica, embora Portugal atraia ensaios, enfrenta forte concorrência de países como Espanha, Bélgica, Países Baixos e Polónia, devido a entraves burocráticos e à velocidade de aprovação. O denominador comum é simples: Portugal vive mais anos, o que é excelente. Por cada euro investido em saúde existe um efeito multiplicador relevante, com um retorno superior a 4 euros. O detalhe inconveniente é que viver mais anos significa consumir mais cuidados de saúde, medicamentos e recursos humanos. A biologia continua sem ler os limites orçamentais do Estado.

Nelson Ferreira Pires
Diretor-geral da Recordati

Esta é a primeira de várias crónicas deste Diário de Viagem à China. Ao longo dos próximos dias, serão publicados novos capítulos.