Evidenciar o valor de uma rede com “impacto em várias dimensões”

A revista FARMÁCIA DISTRIBUIÇÃO teve acesso a dados preliminares do ‘Estudo do Valor Social e Económico das Farmácias’, desenvolvido pela NOVA SBE, e cuja apresentação aconteceu no 15.º Congresso das Farmácias. O avanço motivou uma conversa com a presidente da Associação Nacional das Farmácias (ANF), Ema Paulino, centrada na revelação de indicadores que evidenciam impactos até agora só percecionados, e na forma como a conjugação de diferentes análises permite construir um retrato mais completo do contributo do setor para o país.

– Importa iniciar esta conversa perguntando: porquê este estudo e porquê agora?
Ema Paulino – Essencialmente, porque estamos convictos de que é importante olhar para o valor da rede de farmácias de forma mais ampla do que a tradicional, muito associada à dispensa de medicamentos. Há todo um trabalho diário que é desenvolvido e cujo impacto é menos visível. Queríamos perceber outros aspetos desse contributo, não apenas para cada pessoa, mas também para a sociedade. Há um valor social, económico e ambiental associado à presença de uma farmácia numa comunidade, e o objetivo do estudo é precisamente quantificar, e assim evidenciar, esse valor. Julgamos que o Congresso é o momento certo para apresentar esta análise e debatermos os caminhos que ela nos abre – ao setor e ao país –, juntamente com as farmácias, os nossos parceiros e os decisores.

O estudo revela que, perante sintomas ligeiros, 57,2% dos portugueses recorrem primeiro à farmácia. As opções centro de saúde e Linha SNS24 surgem depois, com 16,5% e 12,1%. Que leitura faz destes dados?
– Confirmam o que as farmácias sentem todos os dias. As pessoas não nos procuram apenas quando têm uma prescrição médica e precisam de aceder ao medicamento. Fazem-no, também, quando têm sintomas e necessitam de uma primeira orientação, porque a rede é próxima, acessível, qualificada, e merecedora da sua confiança.

– Uma confiança traduzida por 75,3% como elevada ou total na farmácia, e que se reverte em lealdade, segundo dados que mostram que 68,4% recorrem sempre à mesma farmácia.
– A proximidade relacional – a humanização do serviço –, é de facto essencial. As pessoas sentem que têm o seu farmacêutico de família. A figura não é formalmente reconhecida, mas é bem real e é, muitas vezes, a referência de saúde mais próxima e acessível. Há farmacêuticos que acompanham os mesmos utentes durante anos: conhecem o seu contexto, a sua terapêutica, o que resultou ou não em situações anteriores. Esse conhecimento acumulado permite-lhes prestar um aconselhamento mais personalizado e mais seguro. De facto, o que vemos neste estudo é que a proximidade, a consistência e a capacidade de resposta são determinantes no reconhecimento das pessoas pelo valor das interações que têm com as equipas das farmácias, porque sabem que encontram ali uma resposta acessível, qualificada e contínua. Quando alguém percebe que a farmácia conhece o seu contexto, a sua medicação e compreende as suas dificuldades, tende naturalmente a voltar. É essa repetição, sustentada numa experiência positiva, que consolida a confiança.

– O estudo mostra que 82% da população vive a menos de 5 km de uma farmácia, até à qual 41% das pessoas se deslocam a pé. 76,4% chegam à farmácia em menos de 10 minutos, podendo o tempo médio de deslocação variar entre 7 e 11 minutos em todas as regiões do país – incluindo os territórios de menor densidade populacional. Além da acessibilidade, que outros impactos pode a proximidade geográfica ter na gestão quotidiana da saúde?
– Desde logo, reduz custos de deslocação para as pessoas, mas tem um outro efeito muito relevante, que é o de evitar que essas mesmas pessoas adiem cuidados. Se houver maior dificuldade em aceder a uma instituição de saúde com profissionais qualificados, podem surgir diagnósticos tardios, pior acompanhamento de doenças crónicas ou menor adesão à terapêutica, com custos acrescidos para o sistema e maior pressão sobre os cuidados primários. A proximidade da farmácia aumenta a probabilidade de a pessoa procurar orientação, fazer um rastreio, esclarecer dúvidas ou manter um acompanhamento regular. Isto é particularmente importante nas doenças crónicas, que exigem não apenas terapêutica, mas também acompanhamento, vigilância e adaptação de comportamentos. A renovação da terapêutica é um bom exemplo. Ao alargar o prazo de validade das prescrições para 12 meses em situações de doença crónica controlada, e ao introduzir o acompanhamento farmacêutico, pelo menos de dois em dois meses, reduziu-se a pressão sobre os médicos prescritores.

– Se aos dados abordados juntarmos os 174 milhões de atendimentos feitos pela rede em 2025, é legítimo pensar que as farmácias funcionam já, de facto, como uma primeira linha de triagem do sistema de saúde?
– As farmácias são muitas vezes a primeira porta a que as pessoas recorrem, e são elas que fazem uma primeira avaliação de sintomas, distinguem situações que podem ou não ser resolvidas no próprio local, referenciam e orientam as pessoas para níveis de cuidados mais adequados sempre que necessário. Não é um papel que esteja totalmente refletido na legislação e na organização formal do sistema, mas a resposta é sim. Mais: a evolução tecnológica tem vindo a abrir novas possibilidades, e hoje, por exemplo, existem testes rápidos que permitem identificar situações como infeções urinárias ou da orofaringe. Noutros países, mediante protocolos definidos, as farmácias já dão resposta a um conjunto mais alargado de situações clínicas ligeiras (SCL), incluindo com medicamentos sujeitos a receita médica (MSRM). Isto tem implicações muito relevantes para os sistemas de saúde, especialmente ao nível da eficiência. Num contexto como o nosso, em que esse sistema está sob enormíssima pressão devido a múltiplos fatores – alterações demográficas, aumento das doenças crónicas, escassez de profissionais, entre outros –, e em que muitos portugueses não têm médico de família, faz sentido redistribuir melhor as respostas, reservando o trabalho médico para as situações que exigem, efetivamente, maior nível de diferenciação.

– Se o papel é desempenhado na prática, o que falta para que seja formalizado?
– Falta, acima de tudo, ultrapassar resistências à mudança. Vimos isso, por exemplo, na integração das farmácias na campanha de vacinação. Hoje é evidente que essa participação é um sucesso, mas para aqui chegarmos foi necessário superar várias barreiras. Com as SCL acontece algo semelhante. A verdade é que, se há farmacêuticos a fazer essa triagem formal na Linha SNS24, os farmacêuticos comunitários, com formação e protocolos adequados, também estarão capacitados para complementar esse papel, com a vantagem de poderem, in loco, medir parâmetros e realizar testes rápidos, algo que uma linha telefónica não consegue fazer. De resto, é fundamental existir um registo de saúde eletrónico partilhado, que permita à farmácia aceder à informação relevante da pessoa e registar e dar visibilidade das suas próprias intervenções, assim como é indispensável um modelo de remuneração que permita desenvolver estas intervenções de forma sustentável e escalável. Não vejo isto como uma barreira inultrapassável. A evolução no terreno foi mais rápida do que o enquadramento legislativo, mas acredito que esse desfasamento acabará por ser corrigido, até pelo consenso crescente sobre a necessidade de aumentar o envolvimento e a complementaridade das farmácias nas respostas em saúde.

– Em que áreas poderia o Serviço Nacional de Saúde (SNS) aproveitar melhor a rede de farmácias no imediato?
– Há três áreas em que esse aproveitamento poderia ser muito claro. A primeira são as SCL. A experiência de outros países demonstra que uma integração formal das farmácias nesta resposta pode reduzir a pressão sobre outros níveis do sistema nacional de saúde e melhorar o acesso das pessoas a soluções adequadas. E não estamos apenas a falar de infeções urinárias ou infeções da orofaringe. As lombalgias e as dores musculares, por exemplo, são causas frequentes de procura de consulta médica, e uma avaliação na farmácia pode ajudar a controlar sintomas e evitar deslocações desnecessárias. A segunda área é a dos rastreios. As farmácias estão em contacto regular com a população e podem contribuir para aumentar a deteção precoce de doenças. Isto é válido para infeções como VIH e hepatites, para doenças crónicas como hipertensão, diabetes ou dislipidemia, e para rastreios oncológicos, como o cancro colorretal. A terceira área é o acompanhamento das doenças crónicas. Se muitas destas pessoas já se deslocam regularmente à farmácia para dispensar a medicação, faz sentido aproveitar esse contacto para monitorizar parâmetros, reforçar a adesão à terapêutica, identificar dificuldades e contribuir para melhorar os resultados em saúde.

– E na descarbonização do SNS? Em 2025, a dispensa em proximidade evitou cerca de 3 toneladas de CO2e, mas a medida tem potencial para ultrapassar as 2 mil toneladas anuais. Outro exemplo é o da vacinação sazonal em farmácias, que já evitou cerca de 900 toneladas de CO2e. Faz sentido o SNS olhar para a rede de farmácias como um instrumento relevante nas suas metas ambientais?
– Sem dúvida. A proximidade das farmácias permite reduzir deslocações e, por isso, também reduzir emissões. Isso ficou evidente, como menciona, no relatório sobre a campanha de vacinação: no primeiro ano de participação das farmácias, um inquérito à população mostrou que as pessoas se deslocaram muito mais vezes a pé para receber a vacina do SNS do que em campanhas anteriores. Por outro lado, aumentámos em 400% os pontos de vacinação sem aumentar de forma significativa os quilómetros percorridos pelas vacinas, porque foi aproveitado o circuito de distribuição já existente. O mesmo acontece com a dispensa em proximidade: aproximam-se os cuidados das pessoas sem criar novos circuitos logísticos. Isso tem benefícios ambientais claros, além dos económicos, que podem e devem ser alargados a outros serviços.

– Numa outra dimensão, o estudo revela que as farmácias sustentam cerca de 53 mil empregos, quase 22 mil diretos, em todo o território nacional. Há nisto um contributo concreto para a coesão territorial e fixação de população?
– Vários, sem dúvida. Temos uma média de quatro farmacêuticos por farmácia, acima da média europeia, distribuídos por todo o território nacional. São profissionais de saúde altamente qualificados que as farmácias ajudam a fixar fora dos grandes centros urbanos e em zonas do interior, onde são particularmente relevantes, já que as farmácias são muitas vezes das poucas estruturas de saúde, ou mesmo a única, permanentemente ao serviço da população. Também por este motivo, a farmácia é muitas vezes um ponto de centralidade nas comunidades, o que contribui para dinamizar outras atividades e serviços à sua volta, além dos decorrentes da sua própria atividade.

– Por cada euro de atividade – diz o estudo da NOVA SBE – são gerados 1,93 euros de valor acrescentado, por um setor que representa cerca de 1,12% do Produto Interno Bruto (PIB). Estamos perante uma relevância económica maior do que a normalmente percecionada?
– Acredito que sim. Normalmente, a farmácia surge no Orçamento do Estado associada à rubrica dos custos com produtos vendidos em farmácias, mas é importante olhar também para aquilo que o setor representa e o valor que gera para a economia do país. Este é um impacto distribuído por todo o território nacional e com particular preponderância em territórios mais desertificados.

– Qual é, no fundo, o indicador mais surpreendente ou relevante nestes resultados?
– Julgo que o que este estudo tem de mais relevante é o facto de apresentar uma visão integrada do papel das farmácias, não apenas como pontos de dispensa de medicamentos, mas como infraestruturas de saúde de proximidade, com impacto na saúde, na economia local, na economia nacional, na sociedade e na sustentabilidade. E o que é mais surpreendente não são os impactos, mas a evidência sobre a sua grandeza.

Entrevista publicada originalmente na edição número 399 da revista FARMÁCIA DISTRIBUIÇÃO.