
Deixámos a bruma densa e os viadutos vertiginosos de Chongqing ao raiar da alva para adentrar o Parque Nacional de Wulong, esse anfiteatro de rocha e silêncio onde a terra se rasgou em abismos majestosos. O percurso até à ravina revela uma China de contornos bíblicos, onde a natureza aparenta dominar o cenário até que a mão do homem intervenha com a sua habitual e implacável eficácia.
As Três Pontes Naturais de calcário, erguendo-se a centenas de metros sobre vales profundos e verdejantes, transmitem ao espírito mais altivo um salutar sentimento de pequenez perante a paciência milenar da erosão. Caminhar pelo fundo do gargalo, observando os colossos de pedra de Tianlong, Qinglong e Heilong, é experimentar o fascínio da vertigem e a ilusão do isolamento. Todavia, até nestes desfiladeiros remotos onde o cineasta Zhang Yimou rodou as suas tragédias cénicas de espada, seda e honra, o império fincou a sua garra tecnológica sem a menor hesitação: elevadores de vidro cravados no coração da rocha transportam multidões em segundos (os maiores elevadores exteriores do mundo), e estradas de tapete impecável conduzem autocarros de turismo sem um único solavanco ou desvio de rota.
Esta capacidade de rasgar a montanha, domar o relevo e unificar os territórios mais hostis é a grande e persistente obsessão do Estado chinês. Não se tolera a descontinuidade; onde há uma fenda na geografia, projeta-se imediatamente uma obra que a anule. Ao contemplar aquelas pontes colossais de calcário a ligar escarpas separadas pelo vazio, a memória do viajante regressa inevitavelmente às fraturas trágicas que paralisam o sistema de saúde na sua própria pátria.
O nosso modelo assistencial padece de uma fragmentação absurda e anacrónica, onde a prevenção primária nos centros de saúde, a urgência e o internamento nos hospitais, e a recuperação na rede de cuidados continuados funcionam como ilhas distantes e desconfiadas, sem pontes de travessia que assegurem a continuidade da vida humana.
Diário de Viagem: Dia 9 (ChongQing) – O Comboio da Névoa, as Muralhas de Chongqing e a Dor da Gestão
O doente português é sistematicamente lançado no abismo existente entre instituições que não conversam, obrigado a peregrinar por serviços desarticulados que duplicam burocracias, repetem anamneses e diluem a responsabilidade clínica no anonimato das tutelas. Um doente crónico que sai de uma alta hospitalar é frequentemente abandonado a uma sorte incerta, sem que o seu médico de família receba em tempo útil a informação necessária para prosseguir o tratamento, resultando na inevitável e trágica descompensação que o fará reingressar pela porta da urgência poucas semanas depois. Esta ausência de ligação entre os diferentes níveis de cuidados gera uma ineficiência ruinosa, esbanjando recursos escassos e submetendo as famílias a um desgaste emocional intolerável.
A resposta a este isolamento institucional exige a consolidação real e efetiva do modelo das Unidades Locais de Saúde, integrando sob uma mesma orientação estratégica, financeira e clínica os Cuidados de Saúde Primários e a resposta hospitalar da sua área de influência. No plano tático e operacional, é urgente criar equipas multidisciplinares de acompanhamento contínuo e gestão de caso para os doentes crónicos complexos, utilizando ferramentas digitais de partilha de dados em tempo real, evitando que a rutura entre níveis de prestação resulte no entupimento sistemático e degradante das urgências do país.
Nelson Ferreira Pires
Diretor-geral da Recordati
Ao longo dos próximos dias serão publicados novos capítulos deste Diário de Viagem à China.




