
Manhã clara em Chengdu, a cidade dos pandas; o leitor, perdoe-me a insistência nos animais, mas há na figura do panda gigante uma gravidade que enternece e faz pensar. Fui vê-los ao seu santuário de preservação, onde vivem rodeados de vegetação fresca e sob o cuidado minucioso de uma ciência que não poupa meios para prolongar o encanto de uma espécie. Ali, entre o bambu e a brisa suave, parece que a própria natureza faz uma pausa para contemplar o espetáculo da sua própria sobrevivência.
Mas a cidade não concede repouso ao espírito por muito tempo. Da paz dos ursos fui lançado nos bairros de Kuan e Zhai Alley, onde a tradição se disfarça de comércio e o passado se vende aos pedaços em cada esquina. Assistia-se aí ao Bian Lian, a ancestral arte do teatro de máscaras de Sichuan. O ator, com um movimento impercetível do braço ou um sopro de vento, troca de rosto diante do público atónito; passa do rubro da ira ao branco do espanto sem que o olho humano descubra o segredo do artifício. Tudo ali é ilusão sobre ilusão, camadas de seda pintada que ocultam a verdadeira face do homem.
À noite, a modernidade encarregou-se de substituir o pano pintado pela luz elétrica: as Twin Towers ergueram-se sobre os céus com um festival de luzes de quase mil milhões de dólares, desenhado para projetar sobre o mundo a força financeira de um gigante que não dorme. Esta facilidade em mudar de máscara e exibir ao mundo uma fachada de opulência sem alterar a disciplina de ferro do seu interior é a essência mesma da política oriental. Adapta-se a linguagem, mas a estrutura permanece intocável.
Ora, se olharmos com olhos de ver para o nosso pequeno retângulo atlântico, que vemos nós na administração da saúde senão um constante e cansativo jogo de máscaras? Mudam-se os nomes dos organismos, alteram-se os organogramas, prometem-se reformas tecnológicas milagrosas e, no entanto, a trágica inoperabilidade digital do sistema continua a ser o rosto oculto que ninguém quer mostrar. A desfragmentação dos programas informáticos nos nossos hospitais e centros de saúde é uma comédia triste.
Um médico no Porto não consegue ler a análise feita por um doente em Lisboa; o relatório de uma radiografia perde-se pelos corredores virtuais de um sistema que não comunica consigo mesmo. O resultado desta cegueira digital é o esbanjamento de recursos e de tempo: repetem-se exames desnecessários, duplicam-se análises, gasta-se o dinheiro dos contribuintes e expõe-se o cidadão a radiação e incómodos inúteis apenas porque os computadores do Estado recusam conversar entre si. Estima-se que mais de quinze por cento dos atos de diagnóstico sejam refeitos por falta de uma rede que unifique a informação.
A verdadeira reforma não passa por mudar a cor da máscara ou lançar slogans de propaganda, mas por construir sem demoras o Processo Clínico Único Nacional, assente em tecnologia moderna e protegida, acessível em qualquer ponto do país por qualquer profissional devidamente autorizado. Taticamente, é urgente massificar a telemedicina e a monitorização à distância dos doentes crónicos, libertando as salas de espera dos hospitais do peso das consultas de rotina que só servem para carimbar papéis.
Nelson Ferreira Pires
Diretor-geral da Recordati
Ao longo dos próximos dias serão publicados novos capítulos deste Diário de Viagem à China.




