
Imagine o leitor uma estação ferroviária em Yangshuo onde a ordem dos homens se confunde com o império do aço. Entrar ali é submeter a carne e o espírito a uma devassa minuciosa: aparelhos de raios X devoram a bagagem, enquanto a lente mecânica da leitura facial perscruta cada traço do rosto com essa curiosidade fria que é própria do nosso século. Pois bem; no meio dessa apoteose de sensores e circuitos, eis que um funcionário exibe um papel escrito à mão, em inglês hesitante, advertindo que os passos até à plataforma só se autorizam doze minutos antes do apito de partida.
O espetáculo move a um riso amargo. Vê-se ali a grande máquina do Oriente a tropeçar na sua própria linguagem, pois o império fala para si mesmo e pouco se importa com o linguajar em Inglês que ninguém fala. Embarquei, finalmente, na serpente metálica rumo a Chengdu. O comboio de alta velocidade deslizava sobre os carris com a suavidade de quem não conhece o atrito do mundo, cruzando a geografia a mais de cinco quilómetros por minuto. Pedia-se a refeição pelo ecrã do telefone e de um QR code, o chá vinha sem sobressaltos e a paisagem desfilava com a solenidade de um painel desenhado pela mão dos imperadores.
Chegar a Chengdu é ser engolido por um oceano de vinte milhões de seres humanos que se movem numa dança perfeitamente coordenada. Esta fluidez sem esforço, este triunfo do movimento ordenado sobre a desordem do quotidiano, obriga qualquer homem de boa fé a olhar para a sua própria terra com um travo de melancolia.
A discrepância entre a rapidez asiática e a nossa lentidão lusitana tem o seu capítulo mais trágico e doloroso nas listas de espera que asfixiam os hospitais em Portugal. O cidadão comum, que cumpre com o fisco e entrega ao Estado o fruto do seu trabalho, vê-se condenado a aguardar meses ou anos por uma consulta ou uma cirurgia banal. Os Tempos Máximos de Resposta Garantidos por lei convertem-se em mera literatura, papel pintado que não cura a dor nem estanca o sofrimento. O doente vegeta no purgatório da burocracia, enquanto a doença avança sem pedir licença às comissões de gestão.
Ao mesmo tempo, centenas de centros de saúde pelo país fora funcionam em edifícios envelhecidos e degradados, onde falta a climatização elementar no inverno e o equipamento informático emperra a cada passo. É a imagem da paralisia. Para romper este desencanto e devolver a dignidade a quem espera, é urgente implementar uma nova plataforma SIGIC 2.0, um mecanismo que emita automaticamente um cheque-cirurgia para utilização em qualquer unidade pública, privada ou social a partir do preciso momento em que o prazo legal de espera seja ultrapassado.
Não se trata de uma preferência ideológica, mas de um imperativo moral e de uma exigência de justiça básica. No plano tático e imediato, deve descentralizar-se sem demoras a manutenção e conservação física dos edifícios da saúde (preferencialmente para os municípios que devido á sua proximidade do cidadão, sabem avaliar melhor as necessidades), transferindo as devidas verbas e libertando os médicos da tutela de paredes que caem aos pedaços.
Nelson Ferreira Pires
Diretor-geral da Recordati
Ao longo dos próximos dias serão publicados novos capítulos deste Diário de Viagem à China.




