
Deixámos a serenidade de Chengdu no comboio das sete da manhã rumo a Chongqing, o monstro urbano de trinta milhões de almas onde as montanhas e os rios moldaram uma metrópole vertical, a maior cidade da China. Chegar ali é entrar numa ficção científica feita de betão e névoa.
A cidade desdobra-se em viadutos sobrepostos em vários níveis, comboios que atravessam o interior de edifícios residenciais e ruas que terminam subitamente em abismos de pontes e néons. Ao fim da tarde, a caminhada pelo mercado noturno de Shibati — a antiga cidade baixa de escadarias de pedra, hoje inteiramente reconstruída como uma cenografia cintilante — ofereceu a visão de um passado apagado pela picareta da modernidade para dar lugar ao consumo de massas. Mais tarde, no miradouro da plataforma de vidro flutuante de Raffles City, suspensa sobre a confluência dos rios Yangtze e Jialing, a sensação de vertigem revelou a ambição sem limites do planeamento asiático.
Não há espaço para a hesitação: onde havia vales, constroem-se pontes; onde havia escassos terrenos, erguem-se torres de seiscentos metros. Esta determinação em dobrar a geografia e a matéria contrasta vivamente com o modo como a Europa se relaciona com o tempo e com os seus próprios recursos.
A Ásia planeia a cinquenta anos com a frieza de quem não teme a contestação; a política europeia vive acorrentada ao ciclo eleitoral das próximas sondagens, incapaz de tomar decisões estruturais que sacrifiquem o ganho imediato em nome do futuro coletivo. Esta miopia política atinge o seu ponto mais crítico no modo como a governação da Saúde em Portugal tem sido conduzida.
Diário de Viagem: Dia 8 (Chengdu) – As Máscaras de Chengdu, o Abraço dos Pandas e os Ecrãs da Saúde
O setor tem sido vitimado por uma rotatividade constante de equipas diretivas, por mudanças bruscas de orientação estratégica a cada alteração partidária e pela nomeação de quadros de gestão com base na fidelidade partidária em detrimento do mérito e da competência técnica. Cada novo ministro que toma posse sente a necessidade quase tribal de desfazer o trabalho do seu antecessor, refundar organismos, alterar siglas e reiniciar a contagem dos prazos, condenando o país a uma perpétua e dolorosa paralisia. Não há visão de longo prazo, não há estabilidade nas regras do jogo e não há responsabilização efetiva pelos resultados alcançados.
Os diretores de serviço dos hospitais públicos, em vez de gestores autónomos com poderes operacionais reais e orçamentos próprios, veem-se por vezes reduzidos a meros operacionais de expediente burocrático, dependentes da aprovação das tutelas para as decisões mais triviais do quotidiano. A solução para esta doença institucional exige a profissionalização e despartidarização da gestão hospitalar, com recrutamento independente, contratos de gestão de cinco anos e objetivos transparentes. No plano tático, é indispensável conceder autonomia financeira e administrativa real aos diretores de departamento e de serviço das Unidades Locais de Saúde, permitindo-lhes gerir os seus recursos humanos e materiais em função das necessidades efetivas dos doentes que têm a seu cargo.
Nelson Ferreira Pires
Diretor-geral da Recordati
Ao longo dos próximos dias serão publicados novos capítulos deste Diário de Viagem à China.




