A acidez de alguns tumores pode dificultar a ação dos medicamentos contra o cancro e pode ajudar a explicar por que razão alguns tratamentos perdem eficácia. Uma equipa de investigadores do BioISI – Instituto de Biossistemas e Ciências Integrativas da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (CIÊNCIAS ULisboa), liderada pelo professor e investigador Miguel Machuqueiro, está a estudar este mecanismo e o seu possível papel na resistência ao tratamento.
À medida que alguns tumores sólidos progridem, o ambiente que rodeia as células cancerígenas pode tornar-se mais ácido – uma mudança de ambiente que é crucial já que pode alterar a forma como determinados fármacos se comportam e dificultar a sua entrada nas células cancerígenas, ou seja, reduzir a eficácia dos medicamentos. Esta alteração de ambiente não se proporciona em todos os tipos de cancro nem todos os medicamentos têm o mesmo comportamento – mas a descoberta é um primeiro passo decisivo para dar a volta à resistência à quimioterapia.
Por isso os investigadores da CIÊNCIAS ULisboa estão a debruçar-se sobre o tema da acidez. O pH do sangue ronda os 7,4, enquanto no ambiente de alguns tumores sólidos mais agressivos pode aproximar-se dos 6,0. Nos modelos computacionais, esta diferença foi suficiente para tornar quase dez vezes mais difícil a entrada de alguns dos medicamentos estudados nas células.
Na prática, isto pode significar que o medicamento entra mais facilmente nas células saudáveis do que nas células do tumor que deveria combater. Se este mecanismo se confirmar, poderá ajudar a explicar alguns dos principais desafios da quimioterapia, desde a necessidade de doses elevadas, os efeitos secundários dos tratamentos e a perda de eficácia de determinados medicamentos à medida que o tumor progride. O próximo passo será confirmar estes resultados experimentalmente.
“O mais surpreendente é perceber que uma alteração aparentemente pequena nas condições químicas que rodeiam as células pode dificultar tanto a entrada de um medicamento. As células tumorais poderão, assim, reduzir a eficácia de determinados tratamentos sem precisarem de desenvolver novos mecanismos genéticos de resistência, tirando partido da acidez do ambiente em que se encontram”, explica, em comunicado, Miguel Machuqueiro, professor do Departamento de Química e Bioquímica e investigador do BioISI.
A investigação atual surgiu na sequência de trabalhos iniciados em 2020 com um grupo de investigadores do Technion, em Haifa, Israel. A colaboração começou por estudar o comportamento de determinados medicamentos nos lisossomas, estruturas particularmente ácidas no interior das células, onde alguns fármacos podem ficar retidos e ser eliminados em vez de chegarem ao local onde deveriam atuar.
Usar a acidez do tumor a favor do tratamento
Além de estudar de que forma a acidez pode contribuir para a resistência a determinados medicamentos, a equipa está a explorar a possibilidade de usar essa mesma característica dos tumores em benefício do tratamento. A investigação passa por alterar o comportamento dos fármacos para que consigam atuar em ambientes mais ácidos, embora a estratégia esteja ainda numa fase inicial.
“Estamos a explorar a possibilidade de usar este mecanismo das células tumorais contra elas próprias. O objetivo é perceber se conseguimos aproveitar a acidez do microambiente tumoral em benefício do tratamento. Para já, temos provas de conceito que estamos a desenvolver e testar através de modelos computacionais”, explica Miguel Machuqueiro.
A investigação avança agora para a validação experimental. A equipa já conta com parceiros científicos e procura garantir o financiamento necessário para realizar os testes.




