Uma vida boa 679

Com a vagarosa aproximação do Verão, a esperança de um desconfinamento progressivo – devido, sobretudo, ao processo de vacinação em curso – e a franca saturação relativamente a uma pandemia que teimosamente coacta as nossas vidas, poder-se-ia argumentar que a última coisa de que necessitamos é de mais um tópico para reflexão, mais outra coisa em que pensar. Permitam-me discordar; se as pessoas não quisessem pensar – pelo menos, aquelas que se dão ao trabalho de ler crónicas como esta – não existiriam, entre outras, rubricas como “sugestões de leitura para este Verão”.

Acontece que uma leitura que me acompanhou recentemente resultou, precisamente, de uma dessas sugestões. Na verdade, foi feita por um amigo e mentor numa coluna do género, promovida pela NOVA SBE no Verão de 2018. Este livro foi “Being Mortal”, de Atul Gawande[1], e está entre as melhores peças que já li. Sem querer de forma alguma destruir a curiosidade na sua leitura (até porque a aconselho vivamente), não posso deixar de referir a sua principal lição: as nossas sociedades (e não apenas a americana, sobre a qual a peça de Gawande incide particularmente) focaram-se excessivamente em dois princípios que se autorreforçam num ciclo vicioso. Por um lado, numa quase patológica aversão a conversar abertamente sobre o inevitável fenómeno do nosso envelhecimento, da nossa decadência, e da nossa mortalidade; por outro, na garantia de que apenas morremos quando esgotadas todas as outras opções, mesmo que tal inviabilize qualquer semelhança com aquilo que consideramos que significa viver.

Gawande argumenta – e bem, do meu ponto de vista – que este fenómeno sucede porque as nossas instituições foram criadas para “prolongar a vida”, bem como para serem tão seguras quanto possível. Argumenta igualmente que estas não são as pretensões daqueles que habitam, por exemplo, nos nossos hospitais e nos nossos lares (ou, pelo menos, não com o nível de arregimentação que foi promovido). Quem prefere essa opção são os seus familiares; e preferem-na porque, na vasta maioria dos casos, não se deram ao trabalho (porque não quiseram, porque não puderam), ou, talvez pior, não tiveram a coragem de entender as necessidades, desejos, e princípios de vida daqueles por quem ficaram responsáveis. As pessoas que recebem estes cuidados parecem preferir, de longe, uma vida mais autónoma e menos institucionalizada, mesmo que tal possa significar uma maior probabilidade de morrer. Porque o que querem, no fundo, é uma boa vida que controlem tanto quanto possível até ao fim, e não uma boa morte. Não sei quanto a vós, mas, da minha parte, estou inclinado para esta visão…

Este é o tema mais importante das nossas vidas individuais e coletivas. Permeia todos os aspetos da nossa sociedade: como organizamos o nosso tempo, como trabalhamos, como vivemos, como lidamos com a fragilidade na doença, com os choques inesperados nas nossas vidas, e como lidamos com a nossa própria mortalidade. E, por isso, acho que merece a nossa mais radical reflexão. Porque precisamos de repensar a forma como tratamos (no verdadeiro sentido da palavra!) daqueles entre nós que, por fragilidade ou incapacidade, sejam estas temporárias ou permanentes, ou, simplesmente, por velhice, precisam de cuidados para que tenham, até ao fim – quando quer que este ocorra – uma vida boa. Todos nós estaremos um dia nessa posição, numa qualidade ou noutra. E acho que podemos aproveitar esta altura, este momento tão particular na nossa História, para trocar as voltas ao problema e fazer as coisas bem, por uma vez que seja.

Convido-vos, assim, a refletir neste Verão. Convido-vos a falar abertamente, sobre vós e com os vossos, para que nada fique por dizer ou fazer. E, do fundo do meu coração – convido-vos a viver!

Diogo Nogueira Leite
Economista e doutorando em Ciência de Dados de Saúde
Nota: Este artigo reflete somente a perspetiva do autor e só a ele o vincula, não refletindo necessariamente as visões de quaisquer instituições com as quais colabore.

[1] Gawande, Atul. 2014. “Being Mortal – Illness, Medicine, and What Matters in the End”. Penguin Books, Wellcome collection.

Envie este conteúdo a outra pessoa