O que é a transição digital na saúde – e porque é que importa 334

Pela primeira vez desde que escrevo nesta crónica irei abordar um assunto que, até agora e apesar de me ser muito querido, nunca toquei: a transição digital na saúde. Esta opção deveu-se à minha crença profunda – que mantenho – que a saúde mental precisa de um espaço mais amplo de divulgação, e que posso, na medida das minhas possibilidades, contribuir para a consecução desse objetivo com a publicação das crónicas que até agora vos foi possível ler. Porém, com bazucas carregadas e com objetivos ambiciosos para atingir enquanto país e União, concluí que tinha chegado o tempo de falar sobre este tema.

Os montantes estão definidos, as prioridades elencadas, a sociedade civil ouvida em consulta pública (participei ativamente com alguns colegas na mesma[1]) – e, agora, chegou a altura de investir um total de 1.383 milhões de Euro no Serviço Nacional de Saúde (SNS), dos quais 345 milhões de Euro estão explicitamente devotados a iniciativas digitais[2].

O que nos leva a perguntar: o que é a transição digital na saúde? Estamos a falar de automação de processos, ou de adquirir tablets para utilização dos profissionais de saúde? Estaremos a apostar no desenvolvimento de algoritmos em parceria entre academia e setor público, ou estaremos a adquirir serviços para a produção de mecanismos de otimização ao setor privado? A definição, vaga, presta-se a dúvidas e interrogações várias.

Na saúde como em tantos outros âmbitos da nossa vida comum parece ter-se forjado a ideia de que a transição digital é essencialmente uma inundação tecnológica que visa automatizar tudo quanto é automatizável e substituir os seres humanos por processos robotizados mais ou menos amorais de decisão. Permitam-me rejeitar liminarmente esta noção com base no facto de esta ser extremamente perniciosa: não só desonera profundamente os decisores da responsabilidade das escolhas que fazem (o que é a nossa liberdade sem responsabilidade?), mas também – e sobretudo – ignora a oportunidade histórica que a transição digital tem o potencial de desencadear.

Não pretendo apresentar a definição final do que é a transição digital na saúde; mas posso oferecer o meu ponto de vista. E, nele, esta definição é francamente simples: a transição digital na saúde é a oportunidade permitida pelas tecnologias ao nosso dispor e pela sociedade e contexto em que habitamos para repensarmos a forma como organizamos a saúde em Portugal. A ocasião histórica de decidirmos em quê, como, e onde investir para o presente e para o futuro. De eliminar, criar, e reconfigurar processos e procedimentos de modo a conseguirmos gerar no SNS a capacidade de este não apenas recuperar do choque brutal que foi (ainda é) a COVID-19, mas também de criarmos o SNS como queremos que ele seja e que este acomode as nossas necessidades futuras.

E, talvez mais importante que tudo o anterior: porque é que importa uma boa transição digital na saúde? Porque só assim conseguiremos finalmente relegar para a tecnologia o que os humanos fazem rotineiramente e libertá-los para a mais subvalorizada das tarefas da saúde: o cuidar, e a empatia que pressupõe. Porque francamente, seja qual for o cuidado de saúde a que uma pessoa recorre, se pensarmos bem não há nada mais único no contacto humano do que a empatia e a compaixão. Não teremos cuidados de saúde humanos (ou, na gíria, focados no paciente) se não admitirmos que a compaixão é urgente.

Por isso, deixo-vos agora a questão: sentiram-se ouvidos? As vossas escolhas estão representadas fielmente neste documento? Acham que chegámos a um bom compromisso para o futuro do SNS? Espero que sim, e que exerçam escrupulosamente o vosso dever democrático de escrutínio, bem como todas as instituições mandatadas para esse efeito.

Só temos uma munição, o tempo é pouco, e a pressão e a expetativa são elevadas. Se queremos estar à altura deste desafio dos nossos tempos, se queremos verdadeiramente recuperar desta crise, se queremos verdadeiramente construir uma sociedade mais resiliente, só o poderemos fazer se estivermos unidos neste propósito.

Diogo Nogueira Leite
Economista e doutorando em Ciência de Dados de Saúde

Nota: Este artigo reflete somente a perspetiva do autor e só a ele o vincula, não refletindo necessariamente as visões de quaisquer instituições com as quais colabore.

[1] https://momentoseconomicos.com/2021/02/28/comentarios-ao-plano-de-recuperacao-e-resiliencia/
[2] Plano de Recuperação e Resiliência entregue a 22 de abril de 2021: https://www.portugal.gov.pt/pt/gc22/comunicacao/documento?i=recuperar-portugal-construindo-o-futuro-plano-de-recuperacao-e-resiliencia

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