Perante dificuldades crescentes em atrair e reter recursos humanos, a Farmácia Graciosa, em Ferreira do Zêzere, decidiu implementar a semana de quatro dias de trabalho há pouco mais de um ano. A medida, descrita como uma solução “arrojada”, surgiu num contexto de escassez de candidatos e revelou impactos positivos no bem-estar da equipa e na qualidade do serviço prestado.
Ao NETFARMA, Rui Mamede, gestor organizacional, explica que a implementação deste modelo de trabalho “foi um pouco fruto de desespero: encontrando-nos numa geografia afastada dos grandes centros urbanos nacionais, nunca fomos imunes aos efeitos de interioridade; estes tendem a sentir-se, particularmente, no que diz respeito à capacidade de atrair quadros humanos”.
Assim sendo, de acordo com o responsável, “em pleno período pós-COVID, cerca de um ano após o respetivo pico, e concomitantemente a terem-se verificado uma série saídas recentes, constatámos que, subitamente, havíamos passado a receber muito menos candidaturas a vagas em aberto divulgadas. Na realidade, quase que se poderia afirmar que estávamos a passar por uma ‘travessia no deserto’, em termos de capacidade de manter preenchidos postos de trabalho”. Sendo que “estratégias alternativas – por exemplo, recorrer a agências externas de recrutamento – também não estavam a granjear resultados satisfatórios“.
Ou seja, “estávamos a atingir uma circunstância insustentável – de forma a não afetar a cobertura de serviço, não restaram alternativas senão sobrecarregar os colegas com mais dias e horas de trabalho – isto, enquanto até eles não chegassem à lúcida conclusão de que o melhor que tinham a fazer era procurar o seu futuro profissional noutro lugar”. Posto isto, para o responsável, “afigurava-se fundamental encontrar uma solução drástica, por mais arrojada que pudesse perfilar-se”.
Em paralelo, à altura, vivenciava-se um momento em que, “no espaço público, assistia-se a uma certa discussão quanto a esta forma de organização de trabalho, uma série de especialistas haviam vindo recentemente a terreiro explicar a exequibilidade e pertinência da medida na atualidade”.
Desafios e obstáculos
Na Farmácia Graciosa decidiu-se então avançar com a implementação da semana de quatro dias de trabalho. Uma jornada que não tem sido isenta de desafios.
Rui Mamede indica que os principais têm-se prendido com “o caráter inédito da implementação da medida, particularmente, nos que diz respeito aos planos jurídicos e operacionais”. Neste sentido, refere que, juridicamente, “fomos surpreendidos pela inexistência de uma quadro legal que regulasse concreta e rigorosamente esta forma de organização do trabalho (quanto muito, o nosso ordenamento jurídico prevê a figura de concentração de 40h de trabalho semanais em quatro dias; nada é dito quanto a uma jornada de trabalho de 32h semanais sob a forma de contrato de trabalho a tempo inteiro). Operacionalmente, questões como a “forma de distribuição da folga suplementar entre colaboradores tiveram de ser alvo de ajustes, mas felizmente o bom entendimento e cordialidade entre todos os envolvidos imperou sempre”, acrescenta.
As questões legais e regulamentares
“Não se pode dizer que dificultem; quanto muito, não facilitam”, revela o gestor organizacional, acrescentando que a “lei podia nortear de forma mais ágil a implementação deste modelo de organização de trabalho; em vez disso, opta por simplesmente ignorá-lo”.
Na prática, como continua Rui Mamede, “os nossos trabalhadores têm uma carga horária inserida num modelo de contrato de trabalho a tempo parcial, com todas as regalias implicadas num contrato de trabalho a tempo inteiro. Fazer esta ‘mistura’ foi algo que ficou, em grande medida, à nossa discrição. Há ainda a destacar a grande disponibilidade dos serviços de apoio jurídico da associação setorial que integramos (ANF), particularmente na pessoa da Dr.ª Marta do Carmo, que em todos os momentos mostrou um grande pragmatismo e habilidade técnica para nos orientar nos contornos mais confusos – ou, em muito casos, integralmente omissos – com que fomos sendo confrontados, do ponto de vista legal, à medida que a implementação deste modelo de organização de trabalho ia avançando”.
Impacto na equipa
A implementação deste modelo “foi transversal a todas as categorias profissionais, poder-se-iam ter colocado dificuldades adicionais caso o número de farmacêuticos ao serviço da farmácia não fosse suficiente para garantir a cobertura técnico-científica requerida legalmente; felizmente, tal não foi o caso. Imaginamos que algumas funções implicadas em contextos mais urbanos – como, por exemplo, as relacionadas com a cobertura das escalas de serviço permanente – representem desafios acrescidos à implementação deste modelo”.
Contudo, no caso em particular da Farmácia Graciosa, “é algo com que não nos confrontámos, por não nos inserirmos nesse tipo de realidade. Este parece-nos, de resto, um aspeto adicional que, em nosso entender, favorece uma implementação mais imediata deste modelo de organização de trabalho em contextos de interioridade: além da necessidade de encontrar novas ‘avenidas’ de atratividade a quadros humanos, verificando-se requisitos regulamentares aplicáveis menos exigentes, a sua implementação afigura-se um pouco mais simplificada”.
Questionado se foi necessário aumentar a equipa, Rui Mamede responde que “no nosso caso em particular, não – e admitindo que a dimensão da nossa equipa se posiciona num eventual ponto ótimo à implementação deste modelo – não fomos confrontados com a necessidade de recrutar quadros adicionais. Todavia, assumidamente as camadas de redundância de pessoal disponível diminuíram, mas mantiveram-se as bastantes para assegurar o nível de serviço num patamar satisfatório, sem penalizar de forma assinalável os tempos de espera ao balcão”.
Não obstante, o responsável admite que “em equipas cuja dimensão se situe mais distante deste ‘ponto de inflexão’, é expectável que haja necessidades suplementares de recrutamento. Contudo, se estivermos disponíveis para fazer as contas, tal não se afigura assim tão diferente de propor valores salariais mais avantajados – prática que já se verifica amplamente no nosso setor como estratégia de atração e retenção de pessoas”.
Os benefícios
Para falar de benefícios, para o gestor organizacional, “antes de mais, é preciso notar que a nossa experiência tem-nos levado a concluir que os colaboradores tendem a privilegiar mais a libertação de tempo para a sua vida fora do trabalho e disponibilidade para uma boa conjugação entre os dois principais palcos das suas vidas – o laboral e o pessoal – face a potenciais incrementos salariais. Claro que todas as pessoas são diferentes, e diferentes colaboradores registam prioridades distintas – mas esta é uma tendência crescente de que nos fomos apercebendo, ao longo do tempo”.
Depois, há claramente “a melhoria do ambiente que se verifica nos corredores da farmácia: mais bem-disposto, mais leve, mais capacitado para enfrentar os novos desafios que diariamente são colocados ao setor. E mais disponível para corresponder ao conforto que tantos dos nossos clientes procuram ao balcão”.
A este respeito, Rui Mamede reforça que “a empatia precisa de condições psicológicas favoráveis para poder ser desenvolvida, e fatores como uma menor sobrecarga horária tem um impacto determinante para se conseguir esse resultado. Um dos ativos mais valiosos das farmácias é a confiança que conquista junto dos seus clientes, e funcionários exaustos e desfrontalizados veem muito mais difícil atingir esse plano de partilha, compreensão e disponibilidade com quem procura essa empatia do outro lado do balcão”.
Uma maior disponibilidade mental para confrontar os desafios colocados ao balcão “resulta inevitavelmente num serviço ao cliente mais aprimorado e mais disponível, particularmente do ponto de visto emocional, em que se torna mais viável adotar e manter uma postura mais compatível com o estabelecimento da confiança e empatia de que falávamos antes. E, claro, isso reflete-se nos resultados da farmácia”, acrescenta o responsável.
Além da orientação financeira
Questionado em relação à sustentabilidade do modelo e ao seu impacto na retenção de profissionais na farmácia comunitária, o responsável expõe que, “em matéria de sustentabilidade, acaba por se perfilar como mais uma contingência com que temos de lidar na gestão corrente do negócio – como o são pagar impostos, assegurar compliance regulamentar, primar pelo melhor cuidado ao cliente possível, etc”. Deste modo, segundo o gestor organizacional, “adotar esta medida tem muito mais a ver com desmistificação de preconceitos do que com uma verificação exaustiva quanto à sua exequibilidade. Relativamente ao efeito na retenção de profissionais, podemos dizer que, desde que este sistema foi implementado, não se verificou nenhuma saída dos nossos quadros de pessoal“.
Às farmácias que queiram adotar a semana de trabalho de quatro dias, Rui Mamede aconselha que “é fundamental tentar não perspetivar a gestão do negócio com uma orientação puramente financeira. Convido os colegas a trazer à memória aquilo que aconteceu no final dos anos 90 do século passado, em relação ao problema de toxicodependência – e como, à altura, este se encontrava absolutamente fora de controlo no nosso país. As entidades responsáveis tiveram a clareza de compreender que algo de radical tinha de ser feito. Como consequência, o conjunto de medidas tomadas não só normalizaram essa questão no nosso país, como fizeram escola para mostrar a outros países como lidar com situações comparáveis. Por vezes, faz sentido tomar medidas mais arrojadas”.
Por outro lado, ainda segundo o o gestor organizacional, “não nos podemos esquecer que tem sido sob um vértice das nossas farmácias em particular que a crescente liberalização com que o setor se tem confrontado nos últimos anos tem colocado mais pressão, o das suas pessoas. É nelas em quem recai o principal esforço implicado em garantir horários de funcionamento mais alargados, incluindo disponibilidade a fins-de-semana e feriados. Se em grande parte fomos ‘forçados’ a acompanhar essas tendências de mercado fruto da desregulação do setor, não podemos ignorar que em grande medida esse custo foi transferido para os nossos colaboradores. Cabe-nos a nós, agora, encontrar formas de reequilibrar essa balança, de forma a não sermos irremediavelmente encarados como o ‘elo mais fraco’ das saídas profissionais da carreira farmacêutica. É fundamental fazer com que as farmácias sejam novamente locais sedutores para trabalhar. Porque é nas farmácias que os farmacêuticos encontram o seu lugar de excelência, e em que têm maior potencial de se sentirem realizados humana e profissionalmente, cabe-nos a nós garantir as condições necessárias para que decidir-se por esta via não implique ter de tomar uma decisão difícil”.




