Doentes querem novos medicamentos para Alzheimer comparticipados para derrubar barreira no acesso

A associação Alzheimer Portugal alertou hoje para a necessidade da comparticipação dos medicamentos inovadores já aprovados na Europa, uma “questão crítica” face ao seu elevado custo, que representa uma barreira para a generalidade dos doentes.

“Estamos a falar de soluções farmacológicas muito dispendiosas e que não estão ao acesso de todos, enquanto não forem devidamente comparticipadas e acessíveis” no Serviço Nacional de Saúde, salientou a presidente da associação doentes, que hoje promove uma conferência no parlamento para assinalar o Dia Mundial do Cérebro.

Em declarações à Lusa, Rosário Zincke adiantou que em causa estão medicamentos inovadores capazes de modificar o curso da doença, ou seja, de a retardar e com ganhos ao nível da capacidade cognitiva e da funcionalidade no dia a dia, e que podem ser administrados a determinados doentes em ambiente hospitalar e que exigem um acompanhamento posterior.

Uma vez que estes medicamentos já tiveram ”luz verde” da Comissão Europeia, estão também aprovados em Portugal, sendo mesmo utilizados em alguns hospitais privados, com o custo total assumido pelo utente, referiu.

“Só uma minoria de pessoas é que pode aceder a estes medicamentos inovadores”, alertou Rosário Zincke, adiantando que a Alzheimer Portugal (AP) faz questão de estar envolvida nas negociações com vista à sua eventual comparticipação, tendo também em conta que recentemente foi alterada a legislação referente ao Infarmed, que pressupõe um maior envolvimento dos doentes e das suas associações nestes processos.

Segundo dados da AP, os doentes em Portugal enfrentam uma “espera média de 840 dias” para aceder às novas terapias para várias patologias que já estão autorizadas pela Comissão Europeia, mas cuja comparticipação ainda não foi aprovada a nível nacional.

A presidente da associação realçou ainda que, a par dos novos medicamentos para a Alzheimer, estão também disponíveis formas mais ágeis e menos invasivas de diagnóstico numa fase precoce, através de uma simples de análise ao sangue, mas que também não são comparticipadas pelo Estado.

“Há laboratórios que as fazem, mas, mais uma vez, não há qualquer tipo de comparticipação”, lamentou Rosário Zincke, ao salientar que, através dessas análises, “há possibilidade de uma pessoa, conhecendo o seu diagnóstico, tomar decisões sobre o seu presente e o seu futuro”.

A presidente da associação considerou ainda essencial que estes meios diagnósticos sejam generalizados ao nível dos cuidados de saúde primários, para que os médicos de família, estando atentos aos primeiros sinais, possam recorrer a estas análises, encaminhando, quando necessário, os utentes para consultas de especialidade para uma avaliação mais rigorosa.

Em paralelo a esta luta pelos medicamentos inovadores e pelos meios diagnóstico, é “necessário também atuar ao nível da prevenção”, realçou Rosário Zincke, adiantando que as estimativas apontam para que, atualmente, cerca de 238 mil pessoas tenham demência em Portugal, das quais 60% a 70% sofram de Alzheimer, números que devem aumentar significativamente nos próximos anos.

“As previsões para 2050 são muito assustadoras, porque vão corresponder a quase 4% da população. Aponta-se quase 370 mil pessoas com alguma forma de demência”, realçou a presidente da associação, para quem, se nada for feito, essa prevalência “vai ter um impacto devastador”.

Defendeu que o Plano Nacional de Saúde para as Demências que está em vigor deve integrar a inovação que tem surgido nos últimos anos nesta área.

Em 2018, quando foi definida a estratégia, “não tínhamos grande coisa para oferecer ao nível dos medicamentos. Pelo menos há duas décadas que não havia nada de verdadeiramente inovador na área das demências”, recordou Rosário Zincke, ao salientar que, atualmente, existe “muito mais informação e investigação” disponível.

“É uma questão de casar a inovação que já existe à prática clínica e o plano é que é responsável por conseguir isso”, alegou.

Com a conferência “Momento de Agir”, que decorre hoje na Assembleia da República, a associação pretende debater e criar um “consenso nacional para reconhecer a doença de Alzheimer e outras formas de demência como uma prioridade nacional de saúde pública”, valorizando a promoção do diagnóstico precoce e a garantia do acesso atempado à inovação terapêutica.