
O amanhecer em Macau revela uma geografia surreal onde a arquitetura neoclássica portuguesa sobrevive à sombra de monumentais colossos de néon. Caminhar entre a fachada de São Paulo e as réplicas exuberantes de monumentos mundiais edifica no observador um sentimento de ironia histórica. O velho mas renovado Casino Lisboa, outrora símbolo do jogo e do fascínio ultramarino, jaz agora acotovelado por impérios hoteleiros gigantescos que reproduzem Veneza e Paris em gesso e fibra de vidro. Tudo aqui é cenográfico, ostensivo e dimensionado para massas asiáticas sedentas de consumo.
Nesta micro-realidade, a geopolítica manifesta-se através do controlo do capital e do fluxo turístico. Macau é o único território em solo chinês onde o jogo é legalizado, funcionando como uma gigantesca bomba de sucção de liquidez financeira vinda do continente. Contudo, sob o brilho dos ecrãs, sente-se a mão firme de Pequim a redirecionar o modelo económico, forçando a diversificação e a integração na Área da Grande Baía.
A China utiliza o capital financeiro acumulado nestes entrepostos para subsidiar a sua transição industrial e afirmar a sua soberania monetária perante o hegemonismo do dólar norte-americano. A observação desta máquina económica em contínuo movimento contrasta dolorosamente com a análise da gestão de recursos humanos na Saúde Pública portuguesa.
Diário de Viagem: Dia 1 (Hong Kong e Macau) – A Travessia e as Ilusões Contabilísticas
Em Portugal, o forte incremento da despesa pública em Saúde nos últimos anos foi quase integralmente absorvido pela rubrica de Pessoal, sem que tal se tenha traduzido num aumento correspondente da produção assistencial. A medida demagógica da redução da jornada de trabalho de quarenta para trinta e cinco horas semanais, implementada sem qualquer reorganização dos processos clínicos ou ganhos de eficiência, traduziu-se numa perda teórica de capacidade produtiva na ordem dos doze por cento (sendo os médicos excepção na redução para 35 horas semanais). Para tapar esta rutura funcional, o Estado contratou dezenas de milhares de novos funcionários e aumentou as grelhas salariais; no entanto, o volume de consultas, cirurgias e atos médicos cresceu a um ritmo desmesuradamente inferior.
As despesas de Pessoal e de Aquisição de Bens e Serviços absorvem atualmente mais de noventa por cento do orçamento operacional do SNS. Para agravar o quadro, a burocracia administrativa e o preenchimento de formulários obsoletos consomem até trinta e cinco por cento do tempo útil dos médicos nas unidades de saúde, afastando-os da sua missão primordial: cuidar do doente. Superar esta paralisia exige uma revisão profunda dos modelos de produtividade no sector público.
A valorização salarial dos profissionais de saúde deve estar contratualmente associada ao volume de produção assistencial realizada e aos resultados clínicos efetivamente alcançados. Taticamente, o país precisa de investir massivamente na automação burocrática dos processos clínicos através de ferramentas de Inteligência Artificial, libertando o tempo equivalente a mil e quinhentos médicos a tempo inteiro para a atividade assistencial direta.
Nelson Ferreira Pires
Diretor-geral da Recordati
Ao longo dos próximos dias serão publicados novos capítulos deste Diário de Viagem à China.




