
A chegada a Hong Kong e a travessia para Macau não são apenas uma mudança de fuso horário; são um portal para outra escala da ambição humana. A bordo de um veículo que desliza pela maior ponte marítima do mundo — 55 quilómetros de engenharia contínua com um túnel submarino rasgando o mar da China — é impossível não sentir uma pontada de vertigem geopolítica.
Após quase vinte e quatro horas de viagem desde Lisboa, com paragem no fervilhar estratégico de Istambul, a escala monumental da infraestrutura chinesa recebe-nos com uma mensagem silenciosa, mas inequívoca: o centro de gravidade do planeta mudou de latitude. Cruzando o Delta do Rio das Pérolas, observo o tráfego ordenado e a frieza técnica com que os territórios foram fisicamente unificados.
A China não constrói pontes para ligar cidades; constrói artérias para mover impérios. Ao cruzar a baía rumo a Macau, essa caricatura febril do Casino Lisboa com as ruínas de São Paulo ao fundo, somos assaltados por uma escala que desmancha a nossa modesta geometria europeia. O Oriente opera sob a urgência do movimento absoluto. O planeamento infraestrutural chinês não pede licença à história nem se perde em comissões; executa. Enquanto isto, na Velha Europa e em particular no nosso canto atlântico, assistimos a uma perda de tração na geopolítica global. A Ásia converteu-se no centro da produção e da inovação aplicada às massas. Esta discrepância entre o pragmatismo orientador das infraestruturas chinesas e o nosso modelo europeu espelha-se com trágica fidelidade na saúde pública em Portugal.
Vivemos aprisionados numa ilusão conceitual que confunde o Serviço Nacional de Saúde com um verdadeiro Sistema Nacional de Saúde. O debate político arrasta-se há décadas numa disputa ideológica estéril, recusando-se a construir um ecossistema plural e integrado onde os sectores público, social e privado cooperem sob uma regulação exigente e transparente. O cidadão comum paga esta intransigência duas vezes: financia o Estado através da carga fiscal e, perante a incapacidade de resposta, recorre do próprio bolso a seguros privados que já cobrem mais de três milhões e meio de portugueses. Alimenta-se o mito do aumento do investimento público na Saúde. O orçamento bruto do Ministério da Saúde escalou de forma impressionante nos últimos anos, ultrapassando a fasquia dos dezassete mil milhões de euros.
Diário de Viagem: Das grandes dinâmicas globais aos desafios da Saúde e da Indústria Farmacêutica
Contudo, esta injeção massiva de capital traduz-se numa gritante ineficiência: as verbas extraordinárias servem maioritariamente para cobrir o buraco de dívidas acumuladas e custear ineficiências estruturais dos hospitais, sem gerarem quaisquer ganhos proporcionais de saúde ou redução das listas de espera. Como demonstrado em análises de economia da saúde, o financiamento por injeção extraordinária destrói a disciplina orçamental e gera risco moral. Portugal ostenta uma esperança de vida média elevada, mas o país falha no essencial: após os sessenta e cinco anos, os nossos idosos vivem apenas metade dos anos restantes sem incapacidade severa.
A solução exige uma rutura com a contabilidade histórica. Urge rever a Lei de Bases para instituir um verdadeiro Sistema Plural, contratualizando capacidade assistencial em pé de igualdade com o sector social e privado com base no custo e qualidade por doente tratado. No plano tático, é imperativo substituir os orçamentos anuais deficitários por Contratos-Programa Plurianuais sujeitos a auditorias externas às Unidades Locais de Saúde, vinculando o financiamento ao efetivo cumprimento de metas de saúde.
Nelson Ferreira Pires
Diretor-geral da Recordati
Ao longo dos próximos dias serão publicados novos capítulos deste Diário de Viagem à China.




