
No Dia Mundial do Farmacêutico, Lisboa presta homenagem a uma das figuras mais marcantes da ciência farmacêutica portuguesa. A farmacêutica, investigadora e professora Maria Odette Santos-Ferreira dá agora nome a uma rua da capital, numa distinção que reconhece o seu contributo para a investigação, o ensino e a saúde pública, com destaque para o combate ao VIH/SIDA. A cerimónia ficou ainda marcada pelo anúncio da criação de um Grupo Estratégico da Ordem dos Farmacêuticos dedicado ao VIH e a outras Infeções Sexualmente Transmissíveis.
Nome de rua
No dia em que se celebra o Dia Mundial do Farmacêutico, o Município de Lisboa homenageia a farmacêutica e professora Maria Odette Santos-Ferreira através da atribuição do seu nome a uma rua da cidade, num gesto solene de reconhecimento pelo seu percurso científico, académico e de intervenção em saúde pública.

A homenagem foi assinalada esta sexta-feira, numa cerimónia que contou com a presença do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, do presidente da Junta de Freguesia do
Lumiar, Ricardo Mexia, do bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, Helder Mota Filipe, e de familiares e amigos da Professora Odette Ferreira.
Em comunicado, Ordem dos Farmacêuticos, salienta que “esta homenagem representa o reconhecimento público de uma personalidade maior da profissão farmacêutica e de uma mulher que marcou de forma profunda a ciência portuguesa e a resposta de saúde pública ao VIH/SIDA”.
“Hoje acontece algo diferente. O nome de Odette Ferreira passa a fazer parte da própria cidade”, afirmou o bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, Helder Mota Filipe, destacando a importância de uma homenagem que ultrapassa o universo académico e profissional e inscreve o seu legado na memória coletiva de Lisboa.
Professora catedrática de Microbiologia, investigadora e antiga presidente do Conselho Diretivo da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, Odette Ferreira formou sucessivas gerações de farmacêuticos e investigadores. O seu nome está também associado ao principal auditório da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, que desde 2017 presta homenagem ao seu percurso.
A sua dimensão científica ganhou particular projeção a partir da década de 1980, quando integrou a equipa que identificou, pela primeira vez, o VIH-2, num trabalho desenvolvido em colaboração com o Instituto Pasteur de Paris. A descoberta teve impacto internacional e contribuiu para aprofundar o conhecimento sobre a epidemiologia e o diagnóstico da infeção pelo VIH.
Mas foi na ligação entre ciência e ação em saúde pública que Odette Ferreira deixou uma das suas marcas mais profundas. Entre 1992 e 2000, enquanto coordenadora do Programa Nacional de Luta Contra a Sida, esteve na origem de uma mudança de paradigma na resposta à infeção pelo VIH associada ao consumo de drogas injetáveis. Em 1993, lançou o Programa de Troca de Seringas ‘Diz Não a uma Seringa em Segunda Mão’, uma iniciativa pioneira de redução de riscos que colocou a proximidade, a prevenção e a proteção da saúde no centro da resposta.
Um dos aspetos particularmente marcantes deste programa foi o envolvimento das farmácias comunitárias, reconhecendo a intervenção dos farmacêuticos enquanto profissionais de saúde próximos das populações e com capacidade para chegar a pessoas que, muitas vezes, permaneciam afastadas das estruturas convencionais de saúde.
Mais de três décadas depois, esta visão mantém uma enorme atualidade. Prevenção, diagnóstico precoce, rastreio, acesso ao tratamento, adesão à terapêutica, redução de riscos, literacia em saúde e combate ao estigma continuam a ser dimensões essenciais da resposta ao VIH.
Grupo Estratégico dedicado à área do VIH
É precisamente para dar continuidade a este legado que a Ordem dos Farmacêuticos anunciou, durante a cerimónia, a criação de um Grupo Estratégico dedicado à área do VIH e outras Doenças Sexualmente Transmissíveis.

Os dados mais recentes apontam para um aumento de várias destas infeções na Europa e em Portugal, colocando novos desafios à prevenção, ao diagnóstico precoce e ao acesso aos cuidados. Este contexto deve levar-nos a questionar se as estratégias atuais estão a chegar a todas as pessoas e se estamos a aproveitar plenamente os recursos disponíveis na comunidade para prevenir, identificar e acompanhar estas infeções.
“É tempo de discutir uma nova agenda para a intervenção dos farmacêuticos nas infeções sexualmente transmissíveis, em articulação com as autoridades de saúde, o Serviço Nacional de Saúde e os restantes parceiros”, conclui o bastonário da Ordem dos Farmacêuticos.




