Que ano é hoje? 383

Um dos efeitos da pandemia parece ter sido baralhar a nossa noção de tempo. De repente, parece especialmente difícil identificar se determinado evento decorreu há 3 meses ou há um ano. É como se aquele período mais assustador tivesse confundido relógios e calendários. Os psicólogos terão, de certeza, uma explicação para isto. Talvez porque, ao movermo-nos num cenário diferente e com rotinas completamente alteradas, isso tenha tido efeitos nos nossos mecanismos de perceção.

Mas o que me preocupa realmente é que, agora, em que as coisas, pelo menos aparentemente, parecem estabilizar e se dão passos num regresso à “normalidade”, alguns pareçam ter perdido de tal modo a noção do tempo que querem voltar exatamente ao que era.

Falo de instituições, pessoas e empresas. E se já é absurdo querer voltar simplesmente a dois anos atrás, ainda o é mais quando vivemos tempos realmente diferentes e desafiantes, de onde deveríamos ter tirado lições importantes.

Alguns, felizmente, parecem ter aprendido muito (veja-se, por exemplo, o que a Roche Diagnostics fez ao acabar com os horários rígidos de trabalho), mas outros insistem num regresso a um normal que já não existe. Estão em busca de um tempo perdido e isso não é nada desejável.

João Barros
Professor na Escola Superior de Comunicação Social e Investigador no Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

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