Falar em logística é falar de acesso ao medicamento 0

Durante muitos anos, o debate em torno do acesso ao medicamento centrou-se quase exclusivamente na inovação terapêutica, na regulação e no financiamento. No entanto, existe uma dimensão crítica, frequentemente silenciosa, que sustenta todo este ecossistema: a logística.

Num setor onde o tempo, a precisão e a integridade não são apenas requisitos operacionais, mas imperativos éticos, a cadeia de abastecimento assume um papel verdadeiramente estratégico. Não se trata apenas de transportar produtos do ponto A ao ponto B. Trata-se de garantir que cada medicamento chega ao destino certo, no momento certo, nas condições certas.

A complexidade da logística farmacêutica é única e multidimensional. Envolve um conjunto alargado de intervenientes, desde laboratórios e unidades fabris até operadores logísticos, armazenistas, distribuidores, farmácias, hospitais e clínicas. Cada elo desta cadeia tem responsabilidades específicas, mas é na articulação entre todos que se assegura a continuidade do abastecimento e a fiabilidade do sistema.

Esta interdependência exige mais do que eficiência operacional. Exige coordenação, transparência e confiança entre entidades que, muitas vezes, operam com objetivos distintos, mas partilham uma missão comum: garantir o acesso ao medicamento.

A par desta complexidade estrutural, somam-se requisitos técnicos particularmente exigentes. Controlo rigoroso de temperatura, rastreabilidade absoluta, conformidade regulatória e capacidade de resposta a ruturas ou variações súbitas de procura são apenas alguns exemplos. Neste contexto, qualquer falha não representa apenas uma ineficiência. Pode traduzir-se numa rutura terapêutica com impacto direto no doente.

Importa, por isso, questionar o posicionamento da logística dentro das organizações. Apesar da sua relevância, continua, em muitos casos, a ser percecionada como um centro de custo, e não como um verdadeiro ativo estratégico.

Esta visão limita o potencial de transformação do setor. Investir em logística não é apenas otimizar operações ou reduzir desperdício. É reforçar a resiliência da cadeia de abastecimento, aumentar a capacidade de resposta e melhorar níveis de serviço de forma sustentada.

A pandemia veio expor fragilidades, mas também acelerar uma mudança de paradigma. Trouxe para o centro da discussão temas como a diversificação de fornecedores, a relocalização produtiva, a digitalização e a visibilidade end-to-end. Mais do que nunca, tornou-se evidente que cadeias de abastecimento robustas são essenciais para garantir o funcionamento dos sistemas de saúde.

Neste novo contexto, a logística deve ser pensada como um elemento integrador, capaz de ligar estratégia e execução, inovação e acesso, eficiência e equidade.

Para a Indústria Farmacêutica, isto implica uma mudança de mentalidade. Significa integrar a logística nas decisões estratégicas desde a origem, promover modelos colaborativos entre os diferentes intervenientes e investir em talento capaz de gerir a crescente complexidade do setor.

Num ambiente onde cada decisão tem impacto direto na vida humana, a logística não é apenas uma função operacional. É um pilar estruturante do acesso ao medicamento, da equidade no sistema de saúde e da confiança entre todos os seus intervenientes.

No final, a questão já não é se a logística é importante. É se estamos preparados para a assumir, de forma consistente, como um verdadeiro eixo estratégico do setor.

Sandra Durães
Professora Convidada na Licenciatura em Gestão da Distribuição e da Logística (ESCE, Instituto Politécnico de Setúbal)

 

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