
A Farmácia Marques, em Viseu, transformou-se por algumas horas num palco improvável para a música lírica, ao acolher um recital integrado na segunda edição do CantoFest. Para Augusto Meneses, diretor técnico, a iniciativa reflete uma visão mais ampla da missão da farmácia: promover não apenas a saúde física, mas também o bem-estar emocional, social e cultural, reforçando o papel destes espaços como lugares de proximidade, encontro e cuidado com a comunidade.
“A Saúde e Cultura não são realidades tão afastadas quanto possa à primeira vista parecer. Sabemos hoje que o bem-estar resulta de múltiplos fatores: físicos, psicológicos, emocionais e sociais. A música tem uma extraordinária capacidade de despertar emoções, criar memórias, aproximar pessoas e interromper, ainda que momentaneamente, as preocupações do quotidiano”, sublinha Augusto Meneses.
Além disso, ainda segundo o responsável, “a música lírica acrescenta uma dimensão muito especial. A voz humana, praticamente sem mediação, consegue estabelecer uma relação emocional muito direta com quem escuta. E quando falamos de vozes especialmente educadas, o resultado é notável”.
Ao NETFARMA, o diretor técnico explica que a ideia de abrir as portas da Farmácia Marques a um recital, nasceu, então, “de uma reflexão muito simples: uma farmácia não tem de ser apenas um lugar onde se dispensam medicamentos. É, historicamente, e antes de mais, um espaço de proximidade, de confiança e de relação com as pessoas. Pareceu-nos, por isso, interessante surpreender a comunidade e transformar, por algumas horas, um espaço quotidiano e familiar num lugar de encontro com a arte. A ópera, pela sua força emocional e pela proximidade da voz humana, tem a capacidade de criar um contraste particularmente interessante com o ambiente habitual de uma farmácia”.
Além disso, “foi também uma forma de, devolvendo tanto que a comunidade nos dá, mostrar que a promoção da saúde pode ultrapassar os limites tradicionais da intervenção farmacêutica e incluir outras dimensões fundamentais da vida humana, como a cultura, a relação social, a emoção e o prazer“.
“Cuidar das pessoas não significa apenas intervir quando existe doença”
O primeiro objetivo do evento foi assim “proporcionar à comunidade um momento inesperado de beleza, partilha e bem-estar. Mas havia igualmente uma intenção mais ampla: reforçar uma conceção da farmácia enquanto espaço de saúde no sentido mais completo do termo. Cuidar das pessoas não significa apenas intervir quando existe doença. Significa também contribuir, dentro das nossas possibilidades, para a prevenção, para o bem-estar e para uma melhor qualidade de vida”, reforça o responsável.
Augusto Meneses argumenta ainda que “a Farmácia Comunitária sempre teve uma dimensão humana muito forte. Conhecemos muitas das pessoas que nos procuram, acompanhamos diferentes gerações das mesmas famílias e estamos presentes em momentos muito diversos das suas vidas. Integrar uma iniciativa cultural neste contexto é, no fundo, continuar essa tradição de proximidade, apenas recorrendo a uma linguagem diferente. Neste caso a linguagem da música”.
Surpresa e naturalidade
A reação dos utentes “foi extremamente positiva e, sobretudo, marcada pela surpresa”, continua o diretor técnico, acrescentando que “há algo particularmente interessante em observar alguém que entra numa farmácia para realizar uma tarefa perfeitamente habitual e, inesperadamente, encontra música ao vivo e intérpretes de grande qualidade, que cantam nos grandes palcos mundiais, a poucos metros de distância”.
Não obstante, Augusto Meneses confidencia que “talvez o que mais nos tenha surpreendido tenha sido precisamente a naturalidade com que a música ocupou a farmácia. Ao fim de poucos minutos, aquilo que inicialmente parecia uma combinação improvável deixou de parecer estranho. A farmácia tornou-se, simplesmente, um lugar onde naquele momento também acontecia cultura”.
“Partilhar uma experiência”
O impacto deste tipo de iniciativas culturais no bem-estar emocional e social das pessoas pode ser “muito importante”. Isto porque, na opinião do diretor técnico, “vivemos num tempo marcado pela velocidade, pela tecnologia e, paradoxalmente, por uma certa perda de contacto humano. Uma experiência cultural presencial obriga-nos durante algum tempo a parar, a escutar e a partilhar uma experiência com outras pessoas.
A saúde é muito mais do que ausência de doença. O convívio, o sentimento de pertença, a estimulação intelectual, a emoção e o contacto com a beleza também fazem parte de uma vida saudável”.
“Vamos continuar”
“O valor destas iniciativas reside também no seu carácter excecional, inesperado e genuíno”, refere Augusto Meneses. Assim sendo, “queremos continuar a encontrar oportunidades em que a cultura possa contribuir para aproximar pessoas e para promover uma visão mais ampla do bem-estar. Podem surgir novas iniciativas ligadas à música, mas também a outras expressões artísticas”.
Por isso, o diretor técnico promete que “vamos continuar a promover momentos de reflexão e divulgação sobre saúde, longevidade e qualidade de vida”.




