A Inteligência Artificial (IA) está a ganhar terreno na Farmácia Comunitária, com potencial para ganhos de eficiência e melhor apoio à decisão clínica. Ainda assim, os especialistas são claros: a adoção destas tecnologias só será sustentável se respeitar princípios éticos rigorosos e mantiver o farmacêutico no centro da decisão.
A Inteligência Artificial «representa uma oportunidade real para aumentar a eficiência, apoiar a decisão clínica e libertar tempo para aquilo que verdadeiramente diferencia a prática: a relação com a pessoa», afirma Cidália Almeida da Silva, presidente do Conselho do Colégio de Farmácia Comunitária da Ordem dos Farmacêuticos, ao enquadrar o papel crescente destas tecnologias no setor.

Referindo a evolução em curso, destaca que já existem aplicações concretas em Farmácia Comunitária, nomeadamente «sistemas de apoio à decisão clínica, com capacidade para sinalizar interações medicamentosas e riscos terapêuticos», soluções de automação de processos como «validação de prescrições, gestão de stocks e dispensa», bem como «ferramentas de análise de dados que permitem otimizar a organização dos serviços farmacêuticos».
Ainda assim, sublinha que esta adoção é «relativamente fragmentada e carece de uma abordagem mais estruturada e estratégica».
Num contexto de pressão crescente sobre os sistemas de saúde, associado ao envelhecimento da população, ao aumento das doenças crónicas e à escassez de profissionais, defende que «a integração da IA deve ser encarada como uma oportunidade para reorganizar o tempo do farmacêutico comunitário, reduzir a carga administrativa e reforçar a sua intervenção clínica».
Toolkit da FIP é referência internacional
Cidália Almeida da Silva sublinha a importância do “Artificial Intelligence Toolkit for Pharmacy”, lançado em 2025 pela Federação Internacional Farmacêutica (FIP), considerando-o uma referência internacional na integração da IA na prática farmacêutica.
A sua relevância «é particularmente significativa» porque, em primeiro lugar, «estabelece uma ponte entre o desenvolvimento tecnológico e a prática profissional, traduzindo conceitos complexos de Inteligência Artificial em aplicações concretas e úteis para o quotidiano do farmacêutico».
Em segundo lugar, «fornece uma estrutura prática de implementação, incluindo critérios de avaliação de ferramentas, requisitos de validação, considerações sobre desempenho e orientação para integração nos processos de trabalho».
Por último, «e talvez mais importante», reforça de forma clara o enquadramento ético e profissional da utilização da IA, «alertando para riscos como o enviesamento algorítmico, a opacidade dos sistemas, as questões de privacidade e a necessidade de supervisão humana».
Recomendações do Colégio
Também a posição do Colégio assenta num princípio fundamental: «a Inteligência Artificial deve ser uma ferramenta de apoio à decisão, nunca um substituto do farmacêutico».
Nesse sentido, destacam-se várias recomendações: supervisão obrigatória, isto é, «toda a informação gerada pelos sistemas de IA deve ser validada pelo farmacêutico, particularmente em matérias críticas como interações medicamentosas ou avaliação de risco terapêutico»; utilização de sistemas validados; reforço da farmacovigilância; proteção de dados e ética e, por último, formação e literacia digital dos farmacêuticos.

Num contexto de crescente pressão sobre os sistemas de Saúde, «importa evitar uma delegação excessiva na tecnologia. A responsabilidade clínica permanece, em última instância, no farmacêutico».
Cidália Almeida da Silva alerta, por outro lado, que «os princípios éticos não são negociáveis», destacando valores como autonomia, beneficência, não maleficência e justiça como fundamentais na integração destas tecnologias. Acrescenta que a literacia em IA é hoje uma competência essencial para os profissionais de saúde.
A concluir, a presidente do Colégio defende que «a tecnologia só fará sentido se reforçar, e não diluir, a dimensão humana do cuidado», sublinhando o papel central da Farmácia Comunitária neste equilíbrio entre proximidade, confiança e conhecimento técnico-científico.
FarmaIA nas farmácias em breve
Sobre as soluções que estão a ser aplicadas ou testadas pelas farmácias associadas da ANF, Ema Paulino, presidente da associação, refere que estão atualmente em discussão propostas baseadas em Inteligência Artificial «com o objetivo de otimizar a gestão operacional das farmácias, nomeadamente ao nível da gestão de stocks, logística e eficiência dos processos».
A título de exemplo, «pretende-se, a curto prazo, integrar no Sifarma sistemas que através da algoritmia/IA permitam apoiar as farmácias na gestão das suas encomendas e de níveis de stock, com base no histórico e na procura».
Paralelamente, têm vindo a ser exploradas soluções de apoio à interação e à eficiência no atendimento, «através de ferramentas digitais integradas no ambiente Sifarma, com o objetivo de simplificar processos e reforçar a capacidade de resposta das equipas em contexto operacional».
A ANF tem vindo a explorar o potencial da Inteligência Artificial no suporte técnico e operacional à farmácia, «nomeadamente através da plataforma FarmaIA, que incorpora uma abordagem estruturada de apoio à identificação e avaliação de riscos associados à terapêutica medicamentosa, com foco no uso correto e seguro dos medicamentos e tendo por base a informação oficial disponível».
Ema Paulino explica que «esta solução, que em breve será disponibilizada de forma alargada a todas as farmácias, permite analisar de forma integrada e contextualizada, com base na informação oficial disponível, dados relevantes sobre medicamentos». Incluindo, designadamente, interações, efeitos adversos, contraindicações, alertas de segurança e demais informação fornecida para o(s) medicamento(s) em análise, contribui «para uma tomada de decisão mais informada e segura em contexto de aconselhamento e dispensa».
Adicionalmente, «suporta uma avaliação farmacêutica personalizada, ao considerar características específicas do utente, como gravidez, aleitamento ou condições clínicas particulares, reforçando a adequação da intervenção e a qualidade do aconselhamento prestado».
Assente numa lógica determinística e rastreável, «o FarmaIA permite ao farmacêutico validar a informação diretamente nas fontes, garantindo transparência e robustez na fundamentação da decisão clínica». Por outro lado, «segue um princípio de utilização responsável da Inteligência Artificial, assegurando que apenas são disponibilizadas respostas suportadas por evidência documental, evitando a geração de conteúdo especulativo e reforçando a confiança na sua aplicação em contexto clínico».
Cientis investe no uso crítico da IA e boas práticas
Através do FarmaIA, que permite a integração de Inteligência Artificial no workflow das farmácias, a Cientis «está a impulsionar a inovação em diversas áreas, como o suporte à decisão clínica, a melhoria da eficiência operacional e a integração tecnológica no ato farmacêutico».

Neste contexto, Ema Paulino sublinha que «a IA permite transformar conteúdos técnicos complexos em respostas claras e contextualizadas, potenciando a intervenção do farmacêutico. Esta abordagem facilita a tradução do conhecimento científico para uma linguagem acessível, promovendo uma comunicação mais eficaz entre farmacêutico e utente, e garantindo a compreensão e implementação prática de cuidados determinantes para garantir a segurança e efetividade das terapêuticas medicamentosas».
A par da disponibilização desta ferramenta, «a Cientis investe na capacitação contínua dos farmacêuticos, com ênfase no uso crítico da IA e boas práticas, como a estruturação de perguntas, a contextualização clínica e a validação de resultados. Este foco na formação contribui para o aumento da literacia digital e científica, assim como para o uso crítico da IA como ferramenta de apoio, ao invés de como substituição, no processo de cuidados farmacêuticos».
A responsável destaca ainda o índice Hicorr, que tem como objetivo complementar a monitorização da atividade epidémica da afeção respiratória durante a época outono-inverno com base em informação recolhida diariamente nas farmácias. «Através de modelos de vigilância epidemiológica, o algoritmo desenvolvido agrega e analisa a informação necessária para estimar o início, duração e intensidade das épocas de gripe no país, permitindo que o conhecimento mais atual sobre a evolução da afeção respiratória em Portugal esteja disponível no ato farmacêutico». O relatório «é disponibilizado em várias plataformas online, permitindo a sua atualização contínua e eficiente, e promovendo o recurso a novas ferramentas na prática diária da farmácia».
Momento de transição no setor
«A inteligência artificial representa uma oportunidade para a evolução da Farmácia Comunitária, sobretudo ao nível da otimização de processos, da gestão da informação e do apoio à decisão», afirma Isabel Cortez, presidente da Associação de Farmácias de Portugal (AFP) – no momento em que a entrevista foi feita.
A responsável destaca que a IA permite libertar os farmacêuticos de tarefas administrativas, potenciando um maior foco no acompanhamento personalizado do utente. Considera que o setor se encontra num «momento de transição», no qual a adoção destas tecnologias deve ser feita «de forma responsável, segura e alinhada com os princípios éticos da profissão».
Segundo Isabel Cortez, «a IA já é uma realidade em muitas farmácias», através da utilização de «chatbots de apoio à decisão», sistemas de gestão de stocks e «robôs para gestão de armazenamento».
Entre os principais desafios, aponta a literacia digital e científica, «essencial para interpretar corretamente os resultados das ferramentas de IA, identificar eventuais limitações ou erros, evitando fenómenos como a confiança cega na informação dada». Acrescenta ainda preocupações com a proteção de dados, a cibersegurança e a necessidade de garantir transparência nos algoritmos utilizados.
«As farmácias lidam com dados de saúde altamente sensíveis, enquadrados pelo Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados», afirma Isabel Cortez. «Garantir a confidencialidade, integridade e utilização ética destes dados é fundamental para manter a confiança dos utentes».
A presidente da AFP alerta para a importância de assegurar que estas tecnologias são acessíveis e adaptadas à realidade das farmácias, evitando desigualdades na sua adoção. «É fundamental que os dados e os algoritmos utilizados reflitam a realidade, incluindo fatores demográficos, epidemiológicos e socioeconómicos. Caso contrário, existe o risco de introduzir ou amplificar vieses, comprometendo a qualidade do aconselhamento farmacêutico».
Acresce ainda a «necessidade de garantir equidade no acesso e na implementação destas tecnologias. Nem todas as farmácias têm os mesmos recursos técnicos ou financeiros, o que pode criar desigualdades na adoção da IA e, consequentemente, no nível de serviço prestado aos utentes».
Tal como a presidente do Colégio, Isabel Cortez defende que a IA deve complementar, e nunca substituir, «o papel clínico e humano do farmacêutico», que continuará a ser responsável pelas decisões tomadas. Para a responsável, a adoção destas tecnologias constitui uma transformação simultaneamente tecnológica, organizacional e ética e profissional, que «exige capacitação, regulação adequada e foco permanente no doente».
Um aliado estratégico para os jovens farmacêuticos
«A tecnologia assume-se como um aliado estratégico, não substituindo o farmacêutico, mas capacitando-o para um exercício mais clínico, empático e orientado para resultados em Saúde», afirma Joana Esteves, da direção da Associação Portuguesa de Jovens Farmacêuticos (APJF).
Segundo a dirigente, os sistemas atualmente utilizados nas farmácias já permitem o acesso rápido a informação clínica relevante, sendo que a inteligência artificial vem reforçar esta capacidade, ao integrar dados, apoiar a identificação de reações adversas, contraindicações e outras necessidades clínicas e melhorar o aconselhamento personalizado.
A representante da APJF considera que a IA tem potencial para transformar o exercício profissional, ao automatizar tarefas administrativas, facilitar o acesso a informação crítica e integrar dados clínicos do utente, permitindo uma intervenção mais informada e centrada na evidência.
Joana Esteves defende igualmente o desenvolvimento de sistemas integrados de dados em Saúde, que permitam acompanhar a evolução dos utentes e melhorar a articulação entre profissionais e níveis de cuidados. Neste contexto, destaca o potencial do European Health Data Space como um passo relevante para a melhoria dos resultados em Saúde.
Entre os principais benefícios da IA, aponta a análise contínua de dados, a deteção precoce de problemas de saúde, a personalização de intervenções e a melhoria da adesão terapêutica. Sublinha ainda o potencial da tecnologia na produção de materiais educativos personalizados e no desenvolvimento de soluções de apoio à gestão da doença.
No plano social, destaca a democratização do «acesso à informação crítica para os resultados em Saúde e para a gestão da doença», embora alerte para desigualdades existentes ao nível da literacia digital e do acesso a tecnologia, que podem limitar o impacto destas soluções.
A dirigente defende que a IA deve ser encarada como uma ferramenta de apoio à decisão, e não como um sistema autónomo. Do ponto de vista ético e profissional, destaca dois pilares fundamentais: «a regulamentação e o espírito crítico». À medida que a IA ganha relevância na prática farmacêutica, considera igualmente indispensável «a existência de enquadramento legal claro que salvaguarde a proteção dos dados».
Reforço da eficácia e resiliência da cadeia de abastecimento
Na Distribuição Farmacêutica «a Inteligência Artificial tem vindo a afirmar-se como um instrumento com elevado potencial para reforçar a eficiência e a capacidade de resposta», afirma Nuno Flora, presidente executivo da Associação de Distribuidores Farmacêuticos (ADIFA).
Segundo o responsável, a IA já é utilizada na análise de dados, gestão de inventários, interação com clientes e monitorização preditiva das dinâmicas de mercado, permitindo antecipar necessidades, otimizar stocks e reduzir o risco de ruturas no abastecimento às farmácias.
No plano logístico, destaca a utilização de sistemas de otimização de rotas, com impacto na eficiência operacional e na redução do impacto ambiental da atividade.
O presidente executivo da ADIFA lembra que «a Distribuição Farmacêutica é uma atividade altamente regulada, com sistemas muito exigentes ao nível da qualidade, da rastreabilidade e do controlo das condições de armazenamento e transporte, incluindo no que respeita à cadeia de frio».

Neste enquadramento, «a Inteligência Artificial surge como um potencial fator de reforço desses sistemas, nomeadamente ao nível da monitorização em tempo real, da deteção de anomalias e da identificação de padrões de risco ao longo da cadeia de abastecimento».
Pode também contribuir «para uma resposta mais rápida e informada a incidentes operacionais e ineficiências nos processos logísticos e de armazenagem».
Nuno Flora refere, por outro lado, que a inovação no setor assenta cada vez mais na colaboração com parceiros tecnológicos e instituições europeias, nomeadamente no contexto da European Healthcare Distribution Association (GIRP), permitindo alinhar a realidade nacional com as melhores referências internacionais.
A posição da ADIFA é clara: «a Inteligência Artificial deve ser colocada ao serviço da eficiência, da sustentabilidade e da resiliência da cadeia de abastecimento, sempre com foco na segurança, na qualidade do serviço e no acesso contínuo dos cidadãos aos medicamentos».
Assim, «mais do que uma lógica de adoção tecnológica avulsa, a ADIFA tem procurado promover uma cultura de inovação sustentada, que ajude os distribuidores farmacêuticos a preparar as suas operações para os desafios presentes e futuros, reforçando a capacidade do setor para responder com maior inteligência, eficiência e proximidade».
Artigo publicado originalmente na edição número 399 da revista FARMÁCIA DISTRIBUIÇÃO.




