Farmacêutica de profissão e pintora por paixão, Aura Vaz sempre viveu entre dois universos aparentemente distintos: a ciência e a arte. Se a vocação para a Saúde surgiu do desejo de ajudar os outros, o fascínio pela pintura nasceu na infância, alimentado por visitas a museus, livros de arte e uma profunda ligação à natureza. Durante anos, a carreira e a família ocuparam o centro da sua vida. Mas, em 2019, um encontro inesperado com a obra de um artista da sua terra natal reacendeu uma antiga paixão. Desde então, a aguarela tornou-se mais do que um hobby: transformou-se numa linguagem através da qual interpreta o mundo, combinando o rigor do olhar científico com a sensibilidade artística.
– Como nasceu o seu interesse pela pintura e pela Farmácia? Surgiram ao mesmo tempo ou em momentos diferentes da sua vida?
– Os meus pais eram grandes apreciadores de arte em geral e de pintura em particular. Com eles visitei inúmeros museus e exposições, ou um palácio ou monumento. Lembro-me também de frequentes idas à praia, dos fins-de-semana passados no campo em casa dos meus avós, que desenvolveram em mim um grande gosto pela natureza. Em casa, havia muitos livros. Uma parte era composta por álbuns de Banda Desenhada e obras dedicadas a grandes pintores, sobretudo ligados aos movimentos impressionista e surrealista. Lembro-me de passar horas a folheá-los com grande admiração e interesse, contemplando quer os desenhos aos quadradinhos das BD de Tintin, Astérix, Iznogood, Lucky Luke ou Gaston Lagaffe, quer as reproduções de obras de Monet, Renoir, Gauguin, Van Gogh, Cézanne, Dali, Picasso ou Matisse. Desde muito cedo manifestei um grande gosto em desenhar e pintar tendo, como é costume dizer-se, ‘jeito para o desenho’. A minha paixão pelas artes plásticas foi reforçada na escola pelos meus professores de artes, pelos meus colegas de turma, e pelos meus amigos. Considerava todavia esta atividade mais como um hobby. Os meus pais manifestavam sérias dúvidas quanto à capacidade de a atividade artística poder assegurar-me um futuro de sucesso. Mas também é verdade que eu tinha uma vasta panóplia de interesses, revelando nomeadamente uma grande apetência pela área científica. Durante a adolescência, ao participar em tarefas solidárias de auxílio ao próximo, fui notando que me sentia muito realizada e compreendi que gostaria de exercer um dia uma profissão ligada à área da saúde. Era, e continua a ser, para mim uma forma de ajudar os outros.
Após a conclusão do curso de Ciências Farmacêuticas, dediquei-me à minha carreira profissional, constitui família, fui mãe. Entre o trabalho e a vida familiar não havia grande espaço para outras atividades. O momento decisivo ocorreu no Verão de 2019, ao visitar na minha cidade natal, em Tomar, uma belíssima exposição de aguarelas de Costa Rosa, de um renomeado arquiteto tomarense. Fiquei admirativa. Senti-me impulsionada a pegar novamente em lápis e pinceis e tentar pintar aguarelas. Deve dizer que é uma técnica que não dominava e que fui progressivamente descobrindo, experimentando e aperfeiçoando. Passados poucos meses, comecei a pintar as minhas primeiras obras. Desde então nunca mais parei. Vou tentando comunicar através das minhas aguarelas uma visão e interpretação pessoal do mundo baseado no rigor do traço, na clareza da forma, no sortilégio da cor e nos jogos de sombra e de luz.
– De que forma a sua formação e prática como farmacêutica influenciam o seu trabalho artístico?
– Em todas as tarefas em que costumo empenhar-me tento ser inteiramente eu própria, atuando com integridade, seriedade e dedicação. A minha formação profissional, teórica e científica, levaram-me a desenvolver e aprofundar características tais como a atenção, a precisão, o rigor, a concentração, a observação, a empatia na comunicação com os outros. Essas capacidades são igualmente necessárias quando estou face a uma tela. O meu trabalho artístico está alicerçado numa meticulosa observação da realidade, na importância que dou aos detalhes. Gosto do rigor e da precisão que ponho no traço, na definição clara das formas. A pintura de aguarelas é uma técnica difícil e exigente. Requer concentração e atenção. Exige respeitar determinadas fases processuais na elaboração da obra, sem pressa nem precipitação. É um trabalho meticuloso e preciso. E, obviamente, embora desenhar e pintar sejam atos solitários, faço-o não só para mim, mas também para os outros. A arte é uma forma de comunicar, de partilhar a minha visão do mundo. Assim, mais do que influências entre a minha formação e prática como farmacêutica e o meu desempenho artístico, creio que existe sobretudo uma aplicação de determinadas características e qualidades, efetuadas em contextos e situações diferenciadas. É como se existisse uma correspondência e complementaridade entre as duas atividades, contribuindo ambas para a minha realização pessoal.
– Há elementos científicos, como precisão, método ou observação, que transporta para a pintura?
– A maioria dos meus trabalhos de aguarela nascem de uma longa observação da realidade, de paisagens campestres ou urbanas, de cenários do quotidiano, de monumentos, da harmonia entre o vegetal e os edifícios, os monumentos. Quase sempre começo primeiro por desenhar, só depois acrescento cor. Nos desenhos gosto justamente da precisão, do rigor, da justeza. Aliás, quando tal é possível, recorro à fotografia como base de trabalho para realizar os meus desenhos. Só assim foi possível concretizar, por exemplo, a aguarela da Janela do Capítulo do Convento de Cristo de Tomar. A elaboração do desenho foi muito desafiante e exigente, dada a profusão de detalhes. Foi necessária uma grande capacidade de observação, concentração e rigor na execução. Na aplicação das cores, a aguarela é também uma técnica particularmente exigente. Exige método, rigor, ponderação, obrigando a seguir determinados passos, a respeitar determinadas fases. É um processo que requer calma, determinação, e uma grande dose de paciência.
– Como gere o equilíbrio entre uma profissão mais técnica e exigente, como a Farmácia, e a expressão criativa da pintura?
– É certo que existe um grande stress inerente à profissão de farmacêutica. Os exigentes horários laborais, o contacto com as pessoas e as situações humanas por vezes dolorosas com as quais lidamos, e a grande diversidade de tarefas a levar a cabo, provocam um grande desgaste mental e emocional. Felizmente, o ambiente harmonioso e a coesão da equipa que encontro no local de trabalho são uma enorme mais-valia para ultrapassar as dificuldades quotidianas. Em contraponto à atividade profissional, a atividade artística representa um espaço de liberdade, onde imaginação e sonho ganham asas. Revejo-me numa frase de Picasso: ‘O propósito da arte é tirar a poeira da vida diária de nossas almas’. Para mim tal é verdade quer para quem cria, como para quem pode usufruir de uma produção artística. A arte liberta-nos das amarras do quotidiano. Gosto habitualmente de desenhar e pintar num ambiente tranquilo e solitário, ouvindo música. Isso permite-me baixar os níveis de tensão. Esqueço por momentos as dificuldades da profissão e da vida em geral. Mesmo que exista uma certa pressão no ato criativo, uma exigência interior para obter um trabalho de qualidade, há uma plenitude inerente a esse processo que é difícil de igualar. Desenhar e pintar representam para mim um modo eficaz e prazeroso de fazer uma pausa, mesmo que breve e provisória, na turbulenta azáfama da existência. Raramente saio desiludida dessa viagem onírica, já que a arte contribui para revelar a harmonia do mundo, que tantas vezes nos escapa. Se o desempenho profissional é mais do domínio do concreto, da norma, da regra, da racionalidade, a atividade artística é mais do domínio da emoção, da sensação, da emoção, do sonho. Assim, ambas as atividades se completam e contribuem para o meu equilíbrio enquanto pessoa.
– Sente que a pintura funciona como um escape da rotina da Farmácia ou como uma extensão da mesma?
– Vivemos livres num contexto balizado por rotinas, exigências, compromissos profissionais e sociais. Quer a atividade profissional, quer a artística, têm dificuldades e compensações. Exerço a minha profissão com a mesma dedicação e paixão com que desenho e pinto. Não pinto por isso para escapar à vida da Farmácia, porque é um trabalho de que gosto e que não trocaria por outro, mas apenas para me sentir realizada de outra forma, explorando outras áreas da sensibilidade e do espírito humanos. Pintar não um escape nem uma fuga, é uma pausa. Pintar é como respirar profundamente após uma corrida. Como o ser humano é tão diverso, múltiplo e complexo não posso deixar de acrescentar que contribuem também decisivamente para o meu equilíbrio pessoal desempenhar o meu papel de mãe, praticar regularmente trail, viajar, ir a concertos ou exposições, ir à praia, ler, dar espaço e tempo para expressar a minha espiritualidade, dedicar-me à família, participar em ações solidárias. A minha vida não se resume só a trabalhar ou pintar. Sinto-me justamente grata por poder preencher a existência de uma forma tão multifacetada e tão gratificante. São precisamente as diversas atividades em que me envolvo que tornam a vida mais aliciante e completa.
– Os temas ou estilos das suas obras refletem, de alguma forma, o universo da saúde, do corpo ou da ciência?
– Uma grande parte das minhas obras é dedicada a paisagens e monumentos de Tomar. Talvez por ter passado a minha infância numa cidade com tão rico e peculiar património monumental e cultural, senti uma grande motivação para desenhar e pintar os monumentos mais emblemático da cidade, ou cenários evocando a sua festa mundialmente conhecida, a Festa dos Tabuleiros. Mais pontualmente, em resposta a solicitações diversas, tenho pintado cenários de cidades tais como Lisboa, Coimbra, ou Leiria. Gosto de representar ruas desertas, esplanadas despovoadas, edifícios e monumentos que convidam ao relaxamento e à meditação interior. Sou igualmente sensível à harmonia e plenitude das paisagens campestres, à tranquilidade e à força de certos cenários naturais. Não há, por enquanto, nas minhas obras, uma ligação expressa e direta ao universo da saúde.
– Que tipo de desafios enfrenta ao conciliar estas duas identidades profissionais tão distintas?
– A pintura não é de facto a minha atividade principal, considero-me apenas uma pintora amadora que tenta comunicar uma visão e interpretação pessoal do mundo através das aguarelas. Coloco a profissão de farmacêutica em primeiro lugar. Por vezes, o exercício da pintura dificulta a gestão dos horários, uma vez que o tempo do processo criativo é um tempo longo, que requer uma atenção plena. Talvez o mais difícil seja, de facto, a gestão do tempo, para poder conciliar as diversas atividades em que gosto de me envolver. Tal exige uma grande disciplina de vida, uma grande capacidade de organização e saber estabelecer limites e prioridades. É verdade que gostaria por vezes de ter mais tempo para alcançar maior domínio da aguarela, para aperfeiçoar cada vez mais os meus trabalhos.
– Como reagiram colegas e utentes ao descobrirem o seu lado artístico?
– A descoberta da minha faceta artística tem sido motivo de grande interesse e curiosidade. Tenho tido a sorte de as reações perante as minhas obras terem sido bastante positivas. As colegas têm-me inclusivamente incentivado a continuar a pintar, bem como alguns utentes da Farmácia. Familiares e amigos também me têm dado força para continuar a pintar. Esse reconhecimento é motivo de uma grande satisfação interior, e representa um grande estímulo para continuar a aperfeiçoar a técnica e o domínio da aguarela. Pintar é um grande desafio, uma grande aventura. Enquanto sentir a felicidade da produção artística, e receber a aprovação das pessoas que disfrutam dos meus trabalhos continuarei, sem dúvida, a desenhar e pintar.
– Que mensagem gostaria de deixar a quem acredita que precisa de escolher entre uma carreira ‘segura’ e uma vocação artística?
– Cada caso é um caso, e é-me muito difícil dar conselhos ou sugestões. Quando uma voz interior nos vai dizendo imperativa e firmemente para seguir uma vocação artística, talvez se deva seguir esse impulso, essa via, essa voz, porque corresponde ao que de mais autêntico somos. Até porque gosto de acreditar que ‘o sonho comanda a vida’, como diz o poeta. Contudo também pode acontecer, perante vários caminhos que, a determinada fase da vida, se nos abrem, possamos querer conciliar vários interesses, várias áreas, várias aptidões. Cada ser é único e plural. A realização pessoal varia muito de acordo com a personalidade individual. Cada um deve procurar gerir as suas motivações e ambições da maneira que considere mais adequada. É uma decisão pessoal e intransmissível, fruto de uma gestão de expectativas e anseios, num determinado contexto e circunstâncias. Eu sinto-me realizada e satisfeita em poder conciliar o meu trabalho de farmacêutica com o de pintora. Quero continuar a trabalhar na farmácia e a pintar. Gostaria de realizar obras com cada vez mais qualidade e com um estilo cada vez mais pessoal e reconhecível. Não sei muito bem até onde posso chegar, já que a aguarela é um mundo incrivelmente complexo e diverso, mas só o descobrirei continuando a pintar. É um desafio apaixonante!




