Nos últimos 14 anos, a Farmácia atravessou um dos períodos mais transformadores da sua história recente. Entre alterações legislativas, mudanças demográficas, uma pandemia sem precedentes e a crescente valorização do papel clínico dos farmacêuticos, o setor foi obrigado a reinventar-se, adaptando-se a novas exigências e assumindo responsabilidades cada vez mais relevantes junto dos cidadãos.
Se este percurso ficou marcado pela capacidade de resposta e resiliência da profissão, os próximos anos trazem novos desafios, desde a escassez de recursos humanos à atração das gerações mais jovens para a Farmácia Comunitária, passando pela inovação tecnológica, pela sustentabilidade económica e pela expansão dos serviços farmacêuticos.
No âmbito do Dia Nacional do Farmacêutico, que se comemora a 26 de setembro, várias entidades do setor fazem o balanço (a publicar durante os próximos dias) das principais mudanças registadas desde 2012 e apontam os caminhos que poderão moldar a Farmácia até 2040.
Hoje ‘ouvimos’ a AFP.
Associação de Farmácias de Portugal (AFP)
“Os últimos 14 anos foram marcados por uma profunda transformação da profissão farmacêutica. Em 2012, quando foi revisto o regime jurídico das farmácias comunitárias, o próprio enquadramento legal já refletia uma mudança no papel das farmácias enquanto espaços de saúde próximos da população.
Desde então, os farmacêuticos assumiram novas competências e responsabilidades e reforçaram claramente a sua intervenção clínica. Hoje falamos de vacinação, administração de injetáveis, acompanhamento da terapêutica, promoção da adesão, prevenção da doença, literacia em saúde, testes Point-of-Care e, mais recentemente, dispensa de proximidade de medicamentos hospitalares.
Também a transformação digital alterou profundamente a profissão. A prescrição eletrónica, a desmaterialização de processos e a crescente integração com os sistemas do SNS mudaram a forma de trabalhar e aumentaram a complexidade da intervenção farmacêutica.
Uma das principais conquistas destes 14 anos foi precisamente a afirmação do farmacêutico enquanto profissional de saúde de proximidade. Hoje, quem entra numa farmácia não procura apenas um medicamento. Procura aconselhamento, orientação e, muitas vezes, uma primeira resposta para o seu problema de saúde.
Mas existe também uma contradição que continua por resolver. A profissão evoluiu mais depressa do que o enquadramento que lhe é dado no sistema de saúde. Ao longo destes anos, ficou demonstrado que os farmacêuticos podem fazer mais, mas continua muitas vezes a discutir-se aquilo que podem fazer, quando deveria já estar definido, de forma estruturada, aquilo que devem fazer, como se articulam com os restantes níveis de cuidados e como é valorizado o contributo que efetivamente dão para os resultados em saúde.”
O Farmacêutico em 20240
“A tecnologia não será, por si só, a grande transformação da profissão farmacêutica. A tecnologia, os dados de saúde e a Inteligência Artificial serão fundamentais, mas deverão funcionar sobretudo como facilitadores.
A verdadeira transformação estará na definição do papel que se pretende que o farmacêutico desempenhe no sistema de saúde.
Muitas tarefas operacionais, administrativas e até alguns processos associados à dispensa poderão ser cada vez mais automatizados. Isso deverá permitir libertar tempo para áreas onde o farmacêutico acrescenta maior valor: a prevenção, o acompanhamento da terapêutica, a gestão da doença crónica, a vacinação, a identificação precoce de situações de risco, a referenciação e uma intervenção cada vez mais personalizada.
Perante uma população mais envelhecida, com maior prevalência de doenças crónicas e uma pressão crescente sobre os cuidados de saúde, não faz sentido continuar a subaproveitar uma rede de profissionais qualificados, próxima da população e já instalada em todo o território.
Mas esta evolução exige mais do que novas competências. Exige integração no percurso do utente, acesso à informação relevante, articulação com os restantes profissionais de saúde e um enquadramento claro das responsabilidades assumidas.
O risco é chegar a 2040 com mais tecnologia, mais dados e mais ferramentas, mas sem ter sido resolvida a questão essencial: como utilizar plenamente as competências dos farmacêuticos em benefício dos cidadãos e do próprio sistema de saúde.
Quanto mais tecnológica se tornar a profissão, maior será também o valor daquilo que a tecnologia não consegue substituir: a proximidade, a confiança, o aconselhamento e a relação humana entre o farmacêutico e o utente.”




