Cancro do pulmão: o diagnóstico começa quando vencemos os mitos e o estigma e valorizamos os sintomas

O Cancro do Pulmão é o cancro mais frequente e com maior mortalidade a nível mundial. Em Portugal, em 2022, 6155 pessoas receberam este diagnóstico e ocorreram, por cancro do pulmão, 5077 óbitos.

Divide-se em dois grandes “grupos”, o cancro do pulmão de não pequenas células que inclui o adenocarcinoma, o carcinoma epidermoide, entre outros; e o cancro do pulmão de pequenas células.

Quais são os sinais de alarme? Como prevenir e como tratar?

Numa fase inicial pode não causar sintomas ou gerar manifestações facilmente confundidas com outras doenças. Os principais sinais de alarme são o aparecimento ou agravamento de tosse, infeções respiratórias repetidas, sangue na expetoração, dor ao respirar ou tossir, rouquidão, respiração ruidosa,  falta de ar, aumento da sensação de cansaço após esforços, perda de peso inexplicada, e dor no peito ou no ombro.

Porque é que é tão importante vencer os mitos e o estigma?

Ideias falsas como:

“só aparece em fumadores”,

“tenho tosse desde há 3 meses, mas não vou fazer exames, porque não é nada, nunca fumei…”,

“se houver doença os efeitos do tratamento são piores que os da doença”,

“as mulheres não têm cancro do pulmão”,

“não tenho cancro porque na minha família não há casos de cancro”,

“e se tiver cancro, pode ser de não ter cuidado da minha saúde? É melhor não saber…”

“há um rastreio de cancro do pulmão, mas não vale a pena ir… não há tratamento”,

atrasam o diagnóstico.

Ultrapassar os mitos – o caso de Maria

Maria, de 68 anos, não fumadora, notou tosse persistente. Não tinha história familiar de cancro do pulmão. Recorreu ao médico. O estudo revelou: adenocarcinoma do pulmão em fase precoce e foi operada. A cirurgia realizada removeu apenas um lobo do pulmão, pelo que continua a respirar bem. Realizou tratamentos complementares incluindo um tratamento dirigido a uma mutação presente no tumor, a mutação de EGFR. Tem boa qualidade de vida.

A sobrevivência expectável é superior a 7 em 10 anos aos 5 anos.

Não tinha fatores de risco.

Quais são os principais fatores de risco?

O tabagismo assume-se como o principal fator de risco para cancro do pulmão, e cerca de 80% dos diagnósticos de cancro do pulmão poderiam ser evitáveis se controlássemos o tabagismo. Assim, a evicção tabágica e a cessação tabágica são indispensáveis.

Contudo, é importante realçar que mesmo os não fumadores podem ter cancro do pulmão.

A exposição a substâncias como o radão e os asbestos e doenças pulmonares como a fibrose pulmonar também aumentam o risco de cancro do pulmão.

Porque é tão importante detetar a doença numa fase precoce?

O diagnóstico numa fase precoce está associado a melhores resultados de sobrevivência. Numa fase precoce (o chamado estadio IA) a sobrevivência aos 5 anos é mais de 5 vezes superior à verificada na doença metastizada.

O tratamento da doença será influenciado pela localização do tumor, o tipo específico do tumor, as características do doente, numa decisão multidisciplinar e partilhada entre o médico e o doente.

Existe um exame de rastreio de cancro do pulmão?

Vários estudos, entre os quais se destacam o NSLT (National Lung Screening Trial) e o estudo NELSON, que avaliaram 53.454 e 15.789 pessoas, respetivamente, demonstraram que o rastreio com TAC (tomografia computorizada) pulmonar de baixa dose diminuía em mais de 20% a mortalidade por cancro do pulmão.

Há inovação no tratamento de cancro do pulmão?

A investigação continua com o maior conhecimento da biologia molecular e os ensaios clínicos têm alterado de forma muito significativa a abordagem dos doentes com cancro do pulmão.

As terapêuticas alvo, a imunoterapia e os conjugados anticorpo fármaco trouxeram uma melhoria da sobrevivência, com qualidade de vida.

Neste Dia Mundial do Cancro do Pulmão: escute o seu corpo sem medo e sem culpa. Recorra ao Médico. Não normalize sintomas e não deixe que o estigma atrase um diagnóstico que pode mudar o rumo da doença.

Fernanda Estevinho
Assistente Hospitalar Graduada de Oncologia Médica. Unidade Local de Saúde de Matosinhos, Hospital Pedro Hispano