Sociedade de Pneumologia alerta para consequências do fumo passivo

A Sociedade Portuguesa de Pneumologia alertou hoje para as consequências do fumo passivo e destacou os dados recentes que apontam para 1,66 milhões de mortes no mundo em 2023 associadas à exposição involuntária ao fumo do tabaco.

Em declarações à Lusa na véspera do Dia do Ex-Fumador, que se assinala no sábado, Daniel Coutinho, do grupo de trabalho do tabagismo da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP), sublinhou o “custo brutal” da exposição involuntária.

“Fumar é um hábito pessoal, mas muitas vezes ignora-se os impactos que este vício tem no resto da sociedade”, afirmou o especialista, apontando para os dados do recente estudo divulgado na revista Lancet, com base em 204 países, que apontou para 2,71 milhões de pessoas expostas ao fumo ambiental do tabaco só em 2023, incluindo 767 milhões de menores de 15 anos.

Os dados, divulgados no início deste mês, apontam para uma redução da prevalência global do tabagismo ao longo dos últimos 30 anos, mas os investigadores avisam que o número absoluto de pessoas continua muito elevado devido ao crescimento populacional e às desigualdades na concretização das políticas de controlo do tabaco.

Segundo os números publicados pela Lancet, as estimativas indicam que a exposição involuntária ao fumo do tabaco esteve associada em 2023 a cerca de 1,66 milhões de mortes prematuras, das oito milhões de mortes atribuíveis ao tabaco nesse ano.

Daniel Coutinho disse que os dados validam a política de restrição ao consumo de tabaco, “mesmo ao ar livre”, e insiste que esta matéria deveria voltar ao cetro da discussão.

“A restrição inicial de fumo em espaços fechados foi à volta de 2008 e só recentemente é que é proibido fumar em bares, discotecas e cafés”, exemplificou o pneumologista, para sublinhar o tempo que demoram os processos legislativos.

Para o especialista da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, o Dia Europeu do Não-Fumador “é uma boa forma de voltar a lançar a discussão para este perigo, que está sempre à espreita”.

“Não é só o fumo do tabaco convencional, é o fumo das novas formas de tabaco, que mantêm esta exposição e permitiram até uma renormalização do consumo”, afirmou.

O especialista lembrou igualmente que o Governo precisa de prestar contas sobre a aplicação dos 2% dos impostos do tabaco que deveriam ir para programas de prevenção e controlo do tabagismo.

“Por exemplo, nunca houve uma campanha de alerta contra as novas formas de tabaco. Há quanto tempo é que estão no mercado?”, questionou.

Dados de 2021 do Programa Nacional para a Prevenção e Controlo do Tabagismo da Direção-Geral da Saúde indicaram que mais de 13 mil pessoas morreram, em 2019, em Portugal por doenças atribuíveis ao tabaco, das quais 1.771 por exposição ao fumo passivo.

Já quanto às consultas para deixar de fumar, os últimos dados oficiais referem-se a 2022 e indicam uma subida de 35%, ultrapassando as 32.800, depois de terem caído na pandemia. Mesmo assim, os valores estavam longe do período pré-pandemia: em 2019 foram 41.946.

Os últimos dados oficiais conhecidos indicavam que o número de locais disponíveis para as consultas de cessação tabágica no Serviço Nacional de Saúde também continuavam longe dos 235 existentes antes da pandemia de covid-19, ficando-se pelos 152 (2022).

Nas primeiras consultas a tendência foi idêntica: de 12.702 em 2019 passaram a 6.159 (2020) e 5.902 (2021), acontecendo uma inversão de tendência no ano de 2022, com 8.843 (+49,8%).

Contactada pela Lusa, a DGS diz que apenas no final do mês deverá ter dados mais atualizados.