
A travessia da fronteira para a China continental a bordo do comboio de alta velocidade rumo a Guilin e Yangshuo marca a entrada no futuro pragmático. A transição é absoluta. Em Yangshuo, assistimos ao espetáculo “Impressions” de Liu Sanjie, encenado há mais de duas décadas sobre as águas de um lago natural rodeado por picos calcários. A coordenação de centenas de atores, a iluminação monumental e a harmonia do cenário produzem uma das experiências cénicas mais impressionantes do planeta.
Todavia, é no quotidiano que a rutura com o Ocidente se torna verdadeiramente avassaladora. Na China continental, o dinheiro físico desapareceu. Não há moedas a tilintar nos bolsos nem notas trocadas no comércio; tudo, absolutamente tudo, do chá de rua ao bilhete de transporte, é pago através do telemóvel com aplicações como o Alipay ou o WeChat. As comunicações e os serviços concentram-se nestas super-aplicações digitais. A frota automóvel exibe a sua natureza no código de cores das matrículas: verde para os veículos elétricos e híbridos — que já representam mais de metade das vendas no país —, azul para o passado a combustível fóssil. No trânsito caótico, as motorizadas são invariavelmente elétricas e de produção nacional. Esta capacidade de impor transições tecnológicas em larga escala sem passar por anos de debate parlamentar demonstra a eficácia do modelo chinês, ainda que desprovido de garantias democráticas.
Diário de Viagem: Dia 4 (Lantau) – A Pedra de Lantau e a Fuga dos Homens
Enquanto a Europa se perde em regulamentos sobre privacidade que asfixiam a inovação, a China constrói uma sociedade digital omnipresente. Em Portugal, o reverso desta desarticulação manifesta-se nas profundas assimetrias geográficas no acesso à saúde e no desaproveitamento do investimento na formação médica. As regiões do interior do país continuam desprovidas de especialistas vitais, com mais de trinta por cento das populações locais sem médico de família atribuído. Simultaneamente, o Estado investe cerca de cem mil euros na formação completa de cada médico especialista para depois o ver sair sem qualquer salvaguarda do retorno social desse investimento público.
A correção desta injustiça territorial exige um planeamento demográfico prospetivo a dez anos para a abertura de vagas de especialidade ajustadas às necessidades das Unidades Locais de Saúde. No plano tático, deve criar-se um Pacote Integrado de Fixação Regional — combinando incentivos fiscais, habitação e progressão rápida na carreira — associado a uma cláusula de permanência mínima de cinco anos no SNS para os médicos bolseiros formados no sistema público.
Nelson Ferreira Pires
Diretor-geral da Recordati
Ao longo dos próximos dias serão publicados novos capítulos deste Diário de Viagem à China.




