
Nos últimos 14 anos, a Farmácia atravessou um dos períodos mais transformadores da sua história recente. Entre alterações legislativas, mudanças demográficas, uma pandemia sem precedentes e a crescente valorização do papel clínico dos farmacêuticos, o setor foi obrigado a reinventar-se, adaptando-se a novas exigências e assumindo responsabilidades cada vez mais relevantes junto dos cidadãos.
Se este percurso ficou marcado pela capacidade de resposta e resiliência da profissão, os próximos anos trazem novos desafios, desde a escassez de recursos humanos à atração das gerações mais jovens para a Farmácia Comunitária, passando pela inovação tecnológica, pela sustentabilidade económica e pela expansão dos serviços farmacêuticos.
No âmbito do Dia Nacional do Farmacêutico, que se comemorou no passado sábado (26), Patrícia Cavaco, presidente da Associação Portuguesa de Farmacêuticos Hospitalares (APFH), faz o balanço das principais mudanças registadas desde 2012 e aponta os caminhos que poderão moldar a Farmácia até 2040.
Patrícia Cavaco, presidente da APFH
“Nos últimos 14 anos, a profissão farmacêutica em Portugal tem passado por significativas transformações, reflexo das mudanças na saúde pública, na tecnologia e nas expectativas dos doentes. A Farmácia Hospitalar consolidou a sua transição de um modelo centrado no medicamento para um modelo orientado para o doente e para os resultados em saúde, com avanços formativos e de intervenção clínica, maior valorização do farmacêutico como profissional com intervenção no Sistema de Saúde e a ampliação do seu papel na prestação de cuidados hospitalares e de proximidade. A criação das ULS são, porventura, a maior transformação dos cuidados de saúde em Portugal, requerendo uma articulação e colaboração com todos os intervenientes do Sistema de Saúde (entidades públicas, privadas e de solidariedade social). Persistem, ainda, alguns constrangimentos de recursos humanos, infraestruturas e acesso a tecnologias inovadoras, cujo investimento melhoraria os processos assistenciais actuais e futuros.
Outra grande conquista foi a consolidação da residência em Farmácia Hospitalar, que se tem afirmado como um modelo formativo estruturante, permitindo preparação mais homogénea e alinhada com necessidades reais dos serviços, reforçando competências clínicas e integração nas equipas multidisciplinares. No ano de saída dos primeiros residente, o balanço só pode ser positivo! A melhoria é contínua, pelo que devemos olhar para estes 4 anos com um olhar crítico e de oportunidade.
Não podemos deixar de referir os muitos debates sobre carreira, competências avançadas e enquadramento profissional, que reforçaram a perceção do farmacêutico como elemento essencial para qualidade, segurança e sustentabilidade dos cuidados de saúde. Tem sido um caminho de reconhecimento profissional por parte da tutela e das entidades reguladoras da profissão.”
O Farmacêutico (hospitalar) em 20240
“Até 2040, antevê-se uma continuação da evolução da profissão farmacêutica hospitalar em Portugal rumo a um modelo ainda mais clínico, digital e integrado, com o farmacêutico a assumir funções de gestor de terapêutica, analista de dados clínicos e coordenador de percursos terapêuticos complexos. A capacidade de interpretar dados clínicos, utilizar sistemas de apoio à decisão e contribuir para modelos preditivos de segurança e eficácia terapêutica será um enorme desafio, sobretudo com a necessidade cada vez mais premente da utilização de dados de vida real para suportar a evidência de tratamentos inovadores, muitas vezes com dados preliminares de segurança e efetividade. Com a evolução do conhecimento das várias patologias e, consequentemente, dos tratamentos inovadores, que ocorrem a uma velocidade de cruzeiro, teremos uma intervenção cada vez mais activa na gestão de inovação terapêutica. A avaliação farmacoeconómica, a negociação para acesso a terapias avançadas e a coordenação de programas de uso compassivo ou monitorização de segurança pós-comercialização serão cada vez mais frequentemente o dia-a-dia do farmacêutico hospitalar.
Teremos também uma intervenção mais premente na gestão de doentes idosos, polimedicados e com doenças crónicas complexas. A expansão das consultas farmacêuticas hospitalares e também as consultas farmacêuticas descentralizadas (cuidados de saúde primários) permite e permitirá, em colaboração com todos os intervenientes da equipa de saúde, uma melhor gestão de polimedicação e otimização de regimes terapêuticos, o que contribuirá para a sustentabilidade e racionalização do sistema de saúde. A colaboração com todos os intervenientes na jornada do doente será essencial para atingir os objectivos de melhoria dos resultados em saúde.
A telemedicina deverá ser uma ferramenta comum, permitindo aos farmacêuticos hospitalares acompanhar o doente de forma remota, garantindo adesão à terapêutica e personalização do tratamento.
Importa referir que nada se pode alcançar sem que pensemos nos cuidados de saúde na perspectiva do doente. Nenhuma das intervenções ou áreas de atuação são possíveis sem que haja humanização dos cuidados prestados.”




