
Nos últimos 14 anos, a Farmácia atravessou um dos períodos mais transformadores da sua história recente. Entre alterações legislativas, mudanças demográficas, uma pandemia sem precedentes e a crescente valorização do papel clínico dos farmacêuticos, o setor foi obrigado a reinventar-se, adaptando-se a novas exigências e assumindo responsabilidades cada vez mais relevantes junto dos cidadãos.
Se este percurso ficou marcado pela capacidade de resposta e resiliência da profissão, os próximos anos trazem novos desafios, desde a escassez de recursos humanos à atração das gerações mais jovens para a Farmácia Comunitária, passando pela inovação tecnológica, pela sustentabilidade económica e pela expansão dos serviços farmacêuticos.
No âmbito do Dia Nacional do Farmacêutico, que se comemora hoje, Helder Mota Filipe, bastonário da Ordem dos Farmacêuticos (OF), faz o balanço das principais mudanças registadas desde 2012 e aponta os caminhos que poderão moldar a Farmácia até 2040.
Helder Mota Filipe, bastonário da OF
“Nos últimos 14 anos assistimos a uma evidente transformação da intervenção do farmacêutico e do seu impacto na sociedade portuguesa. Hoje o farmacêutico é visto como um profissional de saúde próximo das populações, altamente qualificado e diferenciado, tendo a profissão evoluído para um carácter mais clínico, interventivo e integrado na prestação de cuidados de saúde.
Houve ainda um reforço da intervenção do farmacêutico na saúde pública e uma utilização crescente das suas competências para responder às necessidades dos cidadãos e do próprio sistema de saúde. Um exemplo disso, e também, sem dúvida, uma das principais conquistas da profissão, é a administração de vacinas e medicamentos injetáveis por farmacêuticos comunitários, e em particular a vacinação sazonal contra a gripe e contra a COVID-19, que tem demonstrado a capacidade dos farmacêuticos para assumir novas responsabilidades e dar uma resposta de proximidade às populações com a qualidade e a segurança.
Destacaria também a Residência Farmacêutica, um passo muito importante para a especialização e valorização profissional há muito reivindicado pelos farmacêuticos do SNS. A sua concretização veio finalmente estabelecer um percurso estruturado de formação especializada, permitindo aos farmacêuticos adquirir e aprofundar competências específicas para o exercício profissional nas diferentes áreas de especialidade e reforçando o seu reconhecimento no seio das equipas do SNS.
Apesar deste caminho, continuam a existir desafios importantes. É necessário continuar a trabalhar na valorização das carreiras, na remuneração e no reconhecimento profissional, criando condições que tornem a profissão mais atrativa e capaz de reter os profissionais. O acesso à informação clínica é também fundamental para que os farmacêuticos possam exercer plenamente as suas competências, assim como uma maior integração em equipas multidisciplinares e articulação entre os diferentes níveis de cuidados.
Perante isto considero que o grande desafio para os próximos anos será garantir uma utilização plena das competências dos farmacêuticos. Perante as necessidades crescentes da população, os desafios que se colocam à saúde pública, aos sistemas de saúde e a par de avanços científicos e tecnológicos cada vez mais rápidos, temos de ter profissionais altamente diferenciados e próximos dos cidadãos, cujas competências podem e devem ser ainda mais aproveitadas na prestação de cuidados de saúde.”
O Farmacêutico em 20240
“Antevejo em 2040 uma profissão farmacêutica marcada não apenas pela evidente evolução científica e tecnológica, mas também pelas transformações demográficas e sociais. A inteligência artificial e a crescente utilização de dados em saúde terão inevitavelmente impacto na forma como os farmacêuticos trabalham. Os dados são dos recursos mais valiosos do século XXI e terão um papel cada vez mais importante na tomada de decisão, na gestão da terapêutica e na prestação de cuidados.
O desafio será saber integrar estas ferramentas na prática profissional, preservando aquilo que é insubstituível na intervenção do farmacêutico: o conhecimento científico, o pensamento crítico, a responsabilidade e a ética profissionais e a relação de proximidade com o cidadão.
A inovação terapêutica continuará a avançar a um ritmo muito acelerado e realidades como as terapias génicas e celulares, os medicamentos de terapia avançada, as CAR-T cells, a farmacogenómica e uma medicina cada vez mais personalizada serão parte do nosso quotidiano, exigindo novas competências e um elevado grau de diferenciação. Posto isto, temos de ser capazes de adaptar não apenas a prática farmacêutica, mas também o ensino das Ciências Farmacêuticas, preparando os futuros profissionais para uma crescente complexidade do medicamento e das tecnologias de saúde.
Em paralelo, e de forma inevitável, temos uma população progressivamente mais envelhecida, com maior prevalência de doença crónica e polimedicada. A intervenção de proximidade do farmacêutico deverá assim ser reforçada, seja na farmácia comunitária, nos hospitais ou noutras estruturas de prestação de cuidados. Áreas como a adesão, gestão e otimização da terapêutica e a prevenção de problemas relacionados com os medicamentos ganharão ainda maior relevância.
Num contexto em que se discute cada vez mais a simplificação e a modernização de processos regulamentares e de fabrico e em que será necessário garantir um acesso mais rápido à inovação, os farmacêuticos das áreas regulamentares, da indústria farmacêutica, da qualidade e da farmacovigilância terão também um papel determinante. Simplificar e tornar os processos mais eficientes não pode significar diminuir os elevados padrões de qualidade, de segurança e de eficácia que estão na base da confiança dos cidadãos nos medicamentos. Os farmacêuticos deverão contribuir para encontrar um equilíbrio entre inovação, acesso, eficiência e proteção da Saúde Pública.”




