
A sustentabilidade deixou de ser um mero capítulo reputacional dos relatórios anuais dos distribuidores farmacêuticos para se afirmar como um vetor estratégico das cadeias de abastecimento: condiciona decisões de investimento, molda requisitos regulatórios e integra, de forma crescente, os critérios de avaliação de parceiros em toda a Europa. A distribuição farmacêutica de serviço completo em Portugal compreendeu este paradigma desde cedo: em 2022 assumiu o compromisso de atingir a neutralidade carbónica até 2040 e, entre 2021 e 2024, reduziu em 7% as emissões globais de gases com efeito de estufa – com destaque para a diminuição de cerca de um quarto nas emissões associadas ao combustível da frota e ao transporte a montante. Num setor que distribui mais de 335 milhões de unidades por ano e abastece diariamente todas as farmácias do país, esta trajetória foi alcançada sem comprometer a qualidade e a capilaridade do serviço.
A logística farmacêutica rege-se por um nível de exigência ímpar: disponibilidade permanente, capilaridade territorial total, prazos medidos em horas e requisitos rigorosos de cadeia de frio, rastreabilidade e redundância fazem do nível de serviço não apenas uma variável de gestão, mas um garante da saúde pública. Qualquer trajetória de descarbonização parte, por isso, de um princípio claro: o serviço não pode ser a variável a ajustar. A questão central não é quanto podemos cortar, mas quanto podemos otimizar.
O transporte e os combustíveis continuam a representar a principal fatia das emissões. A eletrificação das frotas é um caminho relevante – sobretudo nos centros urbanos e no last mile –, mas a carga refrigerada, as rotas extensas e as limitações de autonomia, carregamento e custo ainda não a acomodam em todos os perfis de operação. A transição poderá fazer-se, num horizonte temporal ainda incerto, para frotas com combustíveis alternativos. No entanto, a visão tem de passar também por outra dimensão: o quilómetro mais sustentável é o que não chega a ser percorrido.
É precisamente aqui que a inteligência se afirma como o verdadeiro motor da descarbonização. A otimização dinâmica de rotas reduz quilómetros e aumenta a ocupação dos veículos; o planeamento preditivo da procura ajusta a distribuição às necessidades reais dos clientes; a monitorização em tempo real e a manutenção preditiva prolongam a vida útil dos ativos; e a digitalização – da faturação eletrónica à desmaterialização documental – elimina desperdício e erros. O ciclo é virtuoso: as mesmas medidas que reduzem emissões reduzem custos, aumentam a fiabilidade e melhoram o serviço.
As infraestruturas desempenham um papel igualmente crítico, já que a descarbonização começa antes de o veículo sair do armazém: em 2024, a produção fotovoltaica nas instalações do setor atingiu 1,49 milhões de kWh, assegurando já 10% de autonomia energética, a par de iluminação eficiente, climatização modernizada, auditorias energéticas e eletricidade de fontes 100% renováveis. A automação logística permite ainda armazéns mais compactos e racionais do ponto de vista energético – investimentos de longo prazo que constroem resiliência face à volatilidade dos custos da energia e às exigências regulatórias que se adivinham.
O próximo ciclo já se desenha: inteligência artificial aplicada ao planeamento e “digital twins” que permitem simular alterações de rede antes de as implementar, escolhendo os cenários com melhor equilíbrio entre serviço, custo e emissões – temas que marcaram o PharmaConnect 2026 (GIRP, Copenhaga), no qual a distribuição farmacêutica portuguesa, através da ADIFA, participou ativamente. A ADIFA aposta ainda na harmonização do reporte ambiental e na monitorização regular da pegada do setor, numa lógica global de cadeia de abastecimento. E, num contexto internacional marcado pela instabilidade, manter a descarbonização na agenda não é um luxo de tempos tranquilos: é uma condição de preparação para tempos exigentes. Porque é precisamente na incerteza que a eficiência energética e a resiliência das cadeias revelam todo o seu valor.
Num setor que opera com margens sujeitas a forte pressão e escrutínio, seria compreensível encarar a descarbonização sobretudo como mais um custo. Na realidade, mais do que um custo, a descarbonização é uma oportunidade para construir cadeias de abastecimento mais eficientes, resilientes e inteligentes. As mesmas competências que garantem que o medicamento chega, todos os dias, a todas as farmácias do país são as que permitirão fazê-lo chegar com uma pegada cada vez menor – expressão natural de um setor que existe para servir, com eficiência, qualidade e visão de futuro.
Nuno Monteiro
Diretor Executivo – Operações e Desenvolvimento de Negócio da Empifarma




