Covid-19: fortuna ou azar? Apostas online em tempos de pandemia 362

Em 2020, vários países implementaram medidas para limitar a progressão da pandemia por covid-19, como limitações de saídas à rua, dever de recolhimento, restrições à circulação, fecho de muitas atividades de comércio e serviços, obrigatoriedade do teletrabalho e recomendações de distanciamento social. A implementação destas medidas, com o objetivo de proteger a população da infeção, poderia, por outro lado, gerar um ambiente mais propício para o aumento das apostas online. Nomeadamente pela ausência de estrutura do dia a dia, maior stress associado à incerteza do futuro, com possível agudização de outros problemas de saúde mental concomitantes com o jogo, a falta de controlo social pelos pares, mais tempo disponível devido à diminuição do leque possível de atividades de lazer alternativas, maior exposição à publicidade ao jogo através da televisão e das redes sociais e fecho de casinos e salas de jogos, que poderia ter desviado o jogo para o online.

Os jogos de apostas podem ter efeitos sérios. De acordo com a Associação Psiquiátrica Americana existe uma perturbação relacionada com jogo quando este comportamento é repetitivo, problemático e com consequências para a pessoa, família e sociedade [1]. Adultos e adolescentes com esta perturbação, têm dificuldade de controlo e em parar de jogar, mesmo quando este causa problemas significativos, como a perda de dinheiro, de trabalho ou de relacionamentos. Esta perturbação é também reconhecida, através da codificação internacional de doenças (ICD-10 F63.0), com um código para dependência ou adição ao jogo [2].

As revisões da literatura existentes relacionam os jogos de aposta online e/ou presencial com a pandemia [3–5]. Os estudos incluídos descrevem resultados para a primeira onda da covid-19, com evidência limitada no tempo e algumas vezes até contraditória para os países considerados. Os resultados mostram que, em média, existiu um decréscimo na frequência e nos valores apostados no início da pandemia. Contudo, apesar de uma diminuição na atividade do jogo de forma agregada, existe uma evidência de que o jogo online tenha aumentado. Sugere ainda que, devido à volatilidade dos mercados financeiros, tenha havido alguma substituição das apostas pelo investimento em produtos de maior risco ou por transações de criptomoeda. Finalmente, neste período, as pessoas mais vulneráveis ao jogo, aumentaram a intensidade de jogo e a sua atividade. Fica por perceber, o que aconteceu após o levantamento das restrições.

Em Portugal, a evidência é escassa. De acordo com o Serviço de Regulamentação e Inspeção de Jogos [6], no primeiro semestre de 2020 o volume de apostas era de 2.533 milhões de euros, um aumento de 63%, comparativamente ao período homólogo. Neste período, registaram-se 288 mil novos jogadores, um crescimento de 27% face ao período homólogo. O relatório refere-se à substituição das apostas desportivas por outro tipo de apostas, como resposta à suspensão de várias competições desportivas.

Torna-se assim essencial continuar a acompanhar a evolução em Portugal, à semelhança dos outros países, para que se perceba qual o real impacto da pandemia e, ainda, como as novas formas de organização do trabalho e da vida social, pós-pandemia, podem ser ou não facilitadores de dependência ou adição às apostas online. A investigação futura deve ter particular atenção: (i) à iniciação ao jogo online, com a inscrição de novos jogadores nas plataformas online; (ii) à facilidade com que os menores possam aceder ao jogo online, por exemplo, através de contas proxy de adultos; (iii) ao aumento da vulnerabilidade das pessoas dependentes do jogo, pelo aumento da intensidade e atividade das apostas.

Joana Alves
Escola Nacional de Saúde Pública

Referências:
[1]        Colon-Rivera H. What is Gambling Disorder? Washington, DC: American Psychiatric Association.https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder/what-is-gambling-disorder#:~:text=Gambling disorder involves repeated%2C problem,when it causes significant problems. (2021).
[2]        IDC10Data.com. 2022 ICD-10-CM Diagnosis Code F63.0.https://www.icd10data.com/ICD10CM/Codes/F01-F99/F60-F69/F63-/F63.0 (2022).
[3]        Brodeur M, Audette-Chapdelaine S, Savard AC, et al. Gambling and the COVID-19 pandemic: A scoping review. Prog Neuro-Psychopharmacology Biol Psychiatry 2021; 111: 110389.
[4]        Barbato L, Bruch AS, Giglio L, et al. Covid-19 and Gambling Behaviour in Industrialized Countries: a Systematic Review. Unpublished manuscript. Downloaded from Dondena.https://dondena.unibocconi.eu/sites/default/files/media/attach/Barbato-et-al-2021—Covid19-and-Gambling-Behaviour.pdf (accessed 12 April 2022).
[5]        Sachdeva V, Sharma S, Sarangi A. Gambling behaviors during COVID-19: a narrative review. J Addict Dis. Epub ahead of print 2021. DOI: 10.1080/10550887.2021.1971942.
[6]        SRIJ. Impacto do COVID-19 nos jogos e apostas online: 1.o semestre 2020. Lisboa: Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos. Turismo de Portugal, I.P.https://www.srij.turismodeportugal.pt/fotos/editor2/estatisticas/Impacto_covid_JAO_vs4.1.pdf (2020).

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