Coordenador do Pacto Estratégico para a Saúde pede avanços aos partidos a partir de janeiro

O coordenador do Pacto Estratégico para a Saúde promovido pelo Presidente da República pediu aos partidos avanços a partir de janeiro para um consenso no setor e rejeitou reformas ‘fast food’, preferindo mudanças graduais.

Adalberto Campos Fernandes, designado pelo Presidente da República, António José Seguro, para coordenar o Pacto Estratégico para a Saúde, falava ontem na primeira edição dos Fóruns do Futuro, dedicada à saúde, uma iniciativa organizada pelo gabinete de estudos da IL.

Questionado pelo auditório sobre o que espera para os próximos anos na política nacional, desejou que “haja estabilidade política e que a legislatura dure até outubro de 2029, custe o que custar”, pedindo que “a partir de janeiro haja matéria e estímulo em que a aproximação entre os partidos possa gerar o maior avanço e o maior consenso, ajudando os governos”.

“As oposições existem não apenas para criticar os governos, mas naturalmente para ajudar os governos a governar melhor”, acrescentou.

A uma pergunta colocada pelo líder parlamentar da IL, Mário Amorim Lopes, sobre a aversão dos portugueses ao risco, Campos Fernandes respondeu que o país tem um povo pobre que fica “quase [com] pânico quando lhe falam de mudanças” perante o risco de perder o pouco que têm.

O coordenador do Pacto para a Saúde explicou que há duas formas de fazer as mudanças necessárias: “Uma é haver uma maioria que dê conforto às pessoas no Parlamento, outra é as coisas serem explicadas de uma forma pedagógica e não terem de ser verdadeiramente aquilo que eu chamo de reformas de ‘fast food’”.

Durante a sua intervenção, o antigo ministro da Saúde defendeu que, em relação ao sistema de saúde, o país precisa “mais do que fragmentar”, de unir-se “em torno de um propósito comum e um projeto coletivo”, acrescentando que essa união “não significativamente atenuar as diferenças ideológicas”, mas sim pôr os partidos a assumir como prioridade o “interesse da pessoa comum”.

“A pessoa comum, que percebe pouco de política, (…) quer que amanhã os seus problemas sejam resolvidos. Não quer saber se o prestador é privado, público, social, se o financiamento é A, B, C ou D. […] Querem respostas”, acrescentou, pedindo que os políticos superem os seus “preconceitos e teimosia” para atingir esse fim.

Segundo a Lusa, o ex-ministro pediu que se centre as políticas nas pessoas e que os utentes se possam “libertar do inferno que é a burocracia, que invade o Estado em todas as dimensões”, inclusive a saúde, e considerou que há atualmente uma “ineficiência atroz” no sistema.

Defendeu ainda a necessidade de uma “uma conversa serena” entre os políticos, prevendo que, juntando-se todos os deputados numa sala, “desprovidos do casaco partidário”, estes estariam de acordo em “80% das coisas”.

“Ninguém está em desacordo em ter um programa de vacinação alargado, amplo, diferenciado, avançado. Ninguém está em desacordo em responder às necessidades das pessoas”, exemplificou.

O antigo ministro da Saúde frisou que “não existe nenhuma reforma da saúde no mundo que tenha funcionado a 100%”, mas que “é possível mobilizar a sociedade civil e os partidos para projetos comuns”.

Sobre os profissionais de saúde, apelou a um entendimento parlamentar de longo prazo sobre as necessidades de recursos humanos, considerando que “as legislaturas em Portugal são muito curtas”, a “estabilidade das políticas públicas é débil” e, sem acordos, Portugal continuará “a navegar à vista”.

Campos Fernandes pediu ainda que se tente travar a emigração destes profissionais e se afaste a ideia de que “o problema dos médicos em Portugal se resolve com uma dedicação exclusiva, baseada em ferros e grilhetas”.

Alertou ainda que, embora Portugal aposte em algumas medidas de saúde pública, “não vale a pena” qualquer ilusão nesta matéria, porque o “petroleiro está a aproximar-se do ‘iceberg” e “todos aqueles que têm mais de 55 anos estão a caminhar inexoravelmente para a acumulação de carga de doença”.

Para o antigo governante, “o sistema de saúde tem que estar preparado” para reabilitar “uma população que, estando apesar de tudo ativa, está doente” e deve também introduzir, para os que têm hoje 15 ou 20 anos, políticas públicas promotoras de uma vida mais saudável.