PRIMA: o poder do diagnóstico in vitro na palma da mão 6785

Os testes de diagnóstico in vitro são, atualmente, considerados ferramentas fundamentais no auxílio ao diagnóstico clínico, sendo que a presente situação de pandemia só veio atestar essa importância. A capacidade de, a partir de uma amostra biológica, determinar a presença de uma doença, condição clínica ou estado geral de saúde, de forma eficaz e exata, representa um enorme avanço na gestão dos cuidados médicos. Estes testes de diagnóstico, outrora apenas disponíveis em laboratórios bem equipados, com instrumentação de alta-tecnologia, operada por profissionais especializados, estão, agora, ao alcance de qualquer pessoa, para autoteste. De forma simples e acessível torna-se possível obter informação preciosa na gestão da nossa saúde e percebemos o poder que nos é concedido.

Os chamados autotestes ou testes de autodiagnóstico, maioritariamente testes rápidos de diagnóstico in vitro, bem representados pelo teste de glicémia (na diabetes) e teste da hormona gonadotrofina coriónica humana -hGC (na gravidez), são cada vez mais uma realidade expandida a inúmeras outras aplicações.

Os testes rápidos mais comuns são os de fluxo lateral (ou de tira de papel) do tipo imunocromatográfico, ou seja, que recorrem a reações de anticorpo/antigénio e a uma alteração de cor (zona corada) que permite a leitura visual do resultado do teste. A sua fácil utilização, leitura e interpretação de resultados, sem recurso a equipamentos sofisticados, assim como a rapidez de realização (5 – 30 min) e o relativo baixo custo, fazem destes dispositivos soluções muito atrativas.

Os testes rápidos comercialmente disponíveis envolvem análises a diferentes fluídos biológicos (sangue, urina, exsudado vaginal, exsudado nasofaríngeo, saliva), sendo as amostras mais comuns de sangue periférico ou de urina.

Alguns exemplos de testes ao sangue, entre muitos outros, incluem: teste da proteína C-reativa (PCR) para avaliar a presença de infeções virais ou bacterianas e distúrbios inflamatórios; teste da ferritina para determinar os níveis desta proteína no sangue, níveis esses relacionados com o possível desenvolvimento de anemia; teste de antigénio específico da próstata (PSA) a fim de verificar uma possível alteração no estado clínico desta glândula; teste da Helicobacter Pylori que deteta a presença de anticorpos IgG contra esta infeção bacteriana associada a gastrite, úlcera péptica e cancro gástrico; teste da borreliose para diagnosticar a doença de Lyme em caso de mordida da carraça; teste da hormona estimulante da tiroide (TSH) para verificar a presença de alteração fisiológica da tiroide, crónica ou temporária; teste de reações alérgicas a agentes externos, como ácaros, pólen, gramíneas ou pelos de animais pela deteção de imunoglobulinas E (IgE); teste da doença celíaca para deteção de anticorpos específicos contra péptidos de gliadina deaminada (PGD), IgA e IgG, a fim de verificar uma possível intolerância ao glúten.

No caso da urina podemos nomear: teste da albumina para a determinação da concentração desta proteína, a fim de ajudar no diagnóstico de uma insuficiência renal; teste de infeções do trato urinário, que deteta a presença de níveis não fisiológicos de leucócitos, sangue, nitritos e proteínas na urina; teste da hormona folículo estimulante (FSH), para determinar a concentração desta hormona e ajudar a prever o início do processo de menopausa; teste de ovulação, que deteta a hormona luteinizante (LH), permitindo identificar melhor os dias de ovulação e aumentar as hipóteses de conceção.

Em particular para a Covid-19, existem já disponíveis os testes rápidos de anticorpo ou serológicos, para profissionais e autoteste, que permitem determinar se o indivíduo já esteve em contacto com o vírus SARS-CoV-2, tendo desenvolvido uma resposta imunitária sob a forma de anticorpos específicos da classe IgM e classe IgG. Os testes serológicos não detetam o vírus diretamente, mas sim, anticorpos específicos de resposta à presença do vírus. Os anticorpos, ou imunoglobulinas, são proteínas produzidas por células específicas do sistema imunitário em resposta a bactérias, vírus, microrganismos e outras substâncias reconhecidas pelo corpo como entidades estranhas (antigénios). Existem cinco classes de imunoglobulinas, das quais as IgM são geralmente produzidas como a primeira resposta do corpo a uma nova infeção, conferindo proteção de curto prazo. A concentração de IgM aumenta por algumas semanas e depois diminui no final da infeção, sendo considerado um marcador de fase aguda que desaparece ao fim de algum tempo. As IgG por outro lado, que representam cerca de 70-80% das imunoglobulinas no sangue são geralmente produzidas mais tarde do que as IgM. Os níveis de IgG tendem geralmente a aumentar por algumas semanas e depois estabilizam. As IgG são também chamadas de anticorpos de memória pois costumam permanecer em circulação no sangue por períodos mais longos, protegendo o organismo contra possíveis infeções futuras pelo mesmo microrganismo. O período de imunidade conferido por IgG de SARS-CoV-2 encontra-se ainda em estudo, não sendo claro o tempo de permanência no organismo após infeção ou vacinação.

Os testes serológicos, foram desenvolvidos para analisar uma pequena quantidade de sangue periférico extraído por uma picada no dedo. A sua utilidade passa pelo rastreio rápido de confirmação de contacto com o vírus e a verificação de existência de resposta imunitária com presumível imunidade contra uma reinfeção.

Os testes rápidos de antigénio para a Covid-19 não se encontram, para já, disponíveis sob a forma de autoteste, podendo ser, no entanto, realizados por profissionais de saúde. Os testes de antigénio, à semelhança dos testes laboratoriais de referência por RT-PCR, permitem o diagnóstico da doença pela deteção direta do vírus em amostras de exsudado da nasofaringe por zaragatoa.

Apresentando-se como uma alternativa rápida e mais económica, estes testes detetam proteínas da superfície do vírus com recurso a anticorpos específicos. É verificada uma maior sensibilidade quando o teste é realizado numa fase inicial da infeção (até 5 dias após o início dos sintomas), período em que a carga viral no trato respiratório superior é mais elevada.

Indubitavelmente, os períodos de crise estimulam avanços tecnológicos significativos, onde a necessidade aguça o engenho. Na atual situação de pandemia, as tecnologias de diagnóstico in vitro e em particular os testes rápidos, sofreram grandes avanços decorrentes da intensa investigação científica e conhecimento gerado. Esses avanços beneficiam no curto prazo a gestão e controlo da Covid-19, no entanto, com efeitos esperados a médio/longo prazo nas demais áreas de diagnóstico.

Referências

WHO – In vitro diagnostics and laboratory technology

WHO – Advice on the use of point-of-care immunodiagnostic tests for COVID-19

SNS – Testes rápidos de rastreio na farmácia

Norma 019/2020 – DGS

Circular Informativa Conjunta

COVID-19 in-vitro Diagnostics: State-of-the-Art and Challenges for Rapid, Scalable, and High-Accuracy Screening, Habli, Z. et al., Front. Bioeng. Biotechnol., 28 January 2021
https://doi.org/10.3389/fbioe.2020.605702

Six decades of lateral flow immunoassay: from determining metabolic markers to diagnosing COVID-19 – Boris G. Andryukov. [J]. AIMS Microbiology, 2020, 6(3): 280-304
https://doi.org/10.3934/microbiol.2020018

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