O acesso à inovação em saúde continua a representar um desafio significativo para os doentes em Portugal. O estudo realizado junto de 60 associações de doentes concluiu que 8 em cada 10 avalia o acesso à inovação como razoável ou mau, enquanto apenas 14% consideram que a maioria das inovações relevantes está disponível com poucas limitações. As maiores dificuldades concentram-se no acesso a inovações farmacêuticas recentes (35%), fármacos biológicos e imunoterapia (33%) e terapêuticas alvo ou dirigidas (31,7%).
As consequências destas dificuldades são particularmente relevantes para os doentes. Segundo as associações auscultadas, os principais impactos incluem a perda de qualidade de vida (86,7%), o agravamento do estado clínico (76,7%) e o atraso no início dos tratamentos (75%).
Os resultados foram apresentados, esta sexta-feira, na Ordem dos Farmacêuticos, em Lisboa, durante a 4.ª edição das Innovation Talks: Ligados pela Inovação em Saúde, uma iniciativa promovida pela Plataforma Saúde em Diálogo, com o apoio da AstraZeneca e da Ordem dos Farmacêuticos.
O estudo ‘Perceções das Associações de Pessoas que Vivem com Doença relativamente ao Acesso à Inovação em Saúde em Portugal’, uma iniciativa da Plataforma Saúde em Diálogo, desenvolvido em parceria com a 2Logical, evidencia que persistem obstáculos significativos à disponibilização de tratamentos inovadores e potencialmente transformadores para os doentes, identificando como principais barreiras a desigualdade territorial no acesso aos cuidados, os processos demorados de avaliação e financiamento, os critérios de elegibilidade restritivos, a insuficiente articulação entre os setores público e privado, a falta de recursos e de formação e informação sobre novas opções terapêuticas a profissionais de saúde e doentes.
“A inovação em saúde só cumpre o seu propósito quando chega aos doentes de forma rápida, equitativa e eficaz — e este estudo mostra que Portugal ainda está longe desse objetivo. As associações de doentes identificam barreiras persistentes no acesso a terapêuticas e diagnósticos inovadores, com impactos concretos na qualidade de vida e na evolução clínica das pessoas que vivem com doença. É fundamental acelerar os processos de avaliação e financiamento, reforçar a transparência e a informação, e garantir uma participação mais efetiva dos doentes nos processos de avaliação que influenciam o seu acesso à inovação”, sublinha, citado em comunicado, Jaime Melancia, presidente da Plataforma Saúde em Diálogo.
O estudo evidencia ainda a necessidade de reforçar a participação dos doentes nos processos de Avaliação de Tecnologias de Saúde. Embora 83,3% das associações afirmem conhecer o projeto INCLUIR do INFARMED, apenas 25% já participaram num processo de avaliação de tecnologias de saúde. Entre as associações que já participaram, a facilidade de preenchimento do questionário de avaliação foi classificada com uma média de 3,8 numa escala de 1 a 7, o que revela margem para simplificação, capacitação e maior apoio técnico.
Nas prioridades de melhoria, 63,3% dos doentes defendem processos mais rápidos de avaliação e financiamento e 60% pedem maior envolvimento dos doentes nesses processos. Consideram, ainda, importante ter profissionais mais informados sobre as inovações terapêuticas (58,3%), mais literacia e mais informação disponibilizada aos doentes pelos clínicos (51,7%). Uma maior harmonização de critérios de acesso à inovação em todas as unidades de saúde e uma melhor articulação entre os setores público e privado para facilitar o acesso aos medicamentos, são também outras das prioridades identificadas pelos doentes.
A 4.ª edição das Innovation Talks contou com a presença da Secretária de Estado da Saúde, Ana Povo, na sessão de abertura, reforçando a importância do diálogo entre decisores, profissionais de saúde e sociedade civil.
Na sua intervenção, a Secretária de Estado destacou a apresentação do novo SINATS – Sistema Nacional de Avaliação de Tecnologias de Saúde, sublinhando que o modelo visa acelerar o acesso à inovação, ao mesmo tempo que promove processos de avaliação mais transparentes e participados, reforçando o envolvimento das associações de doentes na avaliação das tecnologias de saúde. “Queremos um acesso mais rápido à inovação, com processos mais claros, mais transparentes e com maior participação das associações de doentes”, afirmou.
Para Ana Povo, “a inovação só faz sentido quando traz valor real para as pessoas e para os doentes”, defendendo um sistema de avaliação cada vez mais centrado nas necessidades dos cidadãos.
O programa incluiu ainda a participação de Eduardo Costa, vogal do Conselho Diretivo do INFARMED, como key note speaker, bem como um painel de debate moderado pela jornalista Ana Peneda Moreira, com a participação de Lara Cunha, diretora executiva da Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL), Ricardo Fernandes, diretor-geral adjunto do Grupo de Ativistas em Tratamentos (GAT), Eduardo Castela, administrador hospitalar da ULS São José, António Melo Gouveia, vice-presidente da Comissão de Avaliação de Tecnologias de Saúde (CATS), e Sofia Pinheiro, da Comissão Nacional de Farmácia e Terapêutica (CNFT).
A 4.ª edição das Innovation Talks voltou a reunir representantes das associações de doentes, especialistas e entidades do setor da saúde, criando um espaço de reflexão e debate público em torno da promoção de um sistema de saúde mais acessível, equitativo e verdadeiramente centrado nas pessoas.




