“Não tive de escolher”: Beatriz Cardoso vive entre a Farmácia e a música

Aos olhos de muitos, a Farmácia e a música pertencem a universos distintos. Para Beatriz Cardoso, porém, ambas fazem parte da mesma missão: cuidar das pessoas. Farmacêutica por vocação, na Farmácia da Sé, na Guarda, e música por paixão, encontrou nestas duas áreas formas complementares de impactar a vida de quem a rodeia. Entre o balcão da farmácia e os palcos onde atua, a jovem revela como construiu um percurso marcado pela dedicação, pela sensibilidade e pela vontade de fazer a diferença.

– O seu percurso combina duas áreas aparentemente distintas: a Farmácia e a música. Como nasceu essa dualidade e o que a levou a seguir o caminho farmacêutico? Como começou a sua ligação à música e em que momento percebeu que queria levá-la mais a sério?
– À primeira vista, a farmácia e a música podem parecer duas áreas completamente diferentes, mas, para mim, sempre caminharam lado a lado. A área da Saúde faz parte da minha vida desde muito cedo. Cresci a ver a minha mãe, que é farmacêutica, a exercer a profissão com uma enorme dedicação. Muitas vezes acompanhava-a e fui percebendo, ainda em criança, o impacto que um farmacêutico pode ter na vida das pessoas. Essa proximidade despertou naturalmente a minha curiosidade e, à medida que fui crescendo e evoluindo na escola, tornou-se cada vez mais evidente que queria seguir esse caminho.

Créditos: Beatriz Cardoso

No caso da música, esta entrou na minha vida quando tinha apenas sete anos, ao ingressar na Academia de Música de Pinhel. Foi aí que descobri uma paixão que rapidamente passou a fazer parte da minha identidade. Tive a sorte de encontrar professores extraordinários, como o Ângelo Marques e o Gonçalo Pinto, que acreditaram em mim desde cedo, me desafiaram a evoluir e me deram oportunidades para crescer enquanto música. Durante muitos anos, a música foi sobretudo uma paixão e uma forma de expressão pessoal. O momento em que começou a ganhar uma dimensão mais séria surgiu de forma muito natural e, curiosamente, por sugestão do nosso maestro, Gonçalo Pinto.

Eu, o meu irmão e o Toni estávamos a tocar numa festa da Banda Filarmónica de Pinhel, da qual fazíamos parte, quando ele lançou a ideia de criarmos um grupo para atuar em casamentos, batizados e outros eventos. A proposta entusiasmou-nos e decidimos arriscar. Assim nasceu o projeto Amor Vitae. No início houve muitos ensaios, muita aprendizagem e também alguns desafios, mas acima de tudo havia vontade de fazer música e de proporcionar momentos especiais às pessoas. Sem nos apercebermos, aquilo que começou como uma simples sugestão transformou-se num projeto com identidade própria e que continua a fazer parte do meu percurso.

Hoje sinto que não tive de escolher entre a farmácia e a música. A Farmácia permite me cuidar das pessoas através da ciência, enquanto a música me permite chegar até elas através das emoções. São duas formas diferentes de contribuir para a vida dos outros e, para mim, complementam-se de uma forma muito especial.

– Que projetos musicais integra atualmente e como descreveria o seu estilo artístico?
– Atualmente faço parte de dois projetos musicais que, apesar de muito diferentes entre si, representam duas facetas importantes daquilo que sou enquanto música. Os Amor Vitae foram o meu primeiro projeto e já contam com quase sete anos de percurso. É um grupo dedicado a tornar momentos especiais ainda mais memoráveis, através da música, em casamentos, batizados e outros eventos. É um projeto muito próximo das pessoas, onde cada atuação é única, porque faz parte de um dos dias mais importantes da vida de alguém. É muito gratificante sentir que a nossa música fica para sempre associada a essas memórias.

Mais recentemente surgiu um novo desafio: os N’Roll On Night, um projeto que já leva cerca de um ano e meio e que me permite explorar uma energia completamente diferente. É uma banda de rock que percorre várias gerações deste estilo musical, desde os grandes clássicos até temas mais recentes. Em palco, a entrega, a intensidade e a ligação ao público são elementos que tornam cada concerto numa experiência muito especial.

Créditos: Beatriz Cardoso

Quanto ao meu estilo artístico, é difícil defini-lo numa única palavra. Gosto de acreditar que a minha maior característica é precisamente a versatilidade. Sinto um enorme prazer em interpretar diferentes géneros musicais e em adaptar-me a cada contexto, porque cada estilo tem algo para ensinar e uma forma diferente de comunicar emoções. Ou seja, mais do que identificar-me com um género específico, identifico-me com a música enquanto forma de expressão. Seja numa balada mais intimista, num tema rock cheio de energia ou numa canção que acompanha um momento especial, o mais importante para mim é conseguir transmitir emoção e criar uma ligação genuína com quem está a ouvir.

– De que forma a música influencia a sua vida pessoal e profissional enquanto farmacêutica?
– A música e a Farmácia alimentam-se mutuamente na minha vida. Embora sejam áreas diferentes, ambas têm um ponto em comum: as pessoas. A música ensinou-me a ouvir com mais atenção, a trabalhar em equipa, a lidar com a pressão e a comunicar emoções sem precisar de muitas palavras. Subir a um palco também me deu confiança, disciplina e capacidade de adaptação, características que levo comigo todos os dias para a minha profissão enquanto farmacêutica. Por outro lado, a Farmácia recorda-me diariamente a importância da empatia, da responsabilidade e do cuidado com o outro. No contacto com os utentes, percebemos que, muitas vezes, um sorriso, uma palavra de conforto ou a disponibilidade para ouvir podem fazer tanta diferença como o próprio medicamento. Essa sensibilidade acompanha-me também quando estou em palco, porque acredito que a música tem um poder único de tocar, de criar memórias e de despertar emoções.

Sinto que tenho o privilégio de viver duas paixões que, de formas diferentes, me permitem cuidar dos outros. Enquanto farmacêutica, procuro contribuir para o bem estar e a saúde das pessoas. Enquanto artista, procuro oferecer-lhes momentos de felicidade, emoção e partilha. É essa ligação humana que torna estas duas áreas tão especiais para mim e faz com que uma complete a outra.

– Como é que os seus colegas e a equipa da farmácia encaram essa sua vertente artística? Sente apoio ou surpresa?
– Desde o início que sempre houve alguma curiosidade por parte da equipa em relação à minha vida artística. Queriam saber onde ia atuar, como tinham corrido os concertos e, muitas vezes, até perguntavam qual era o próximo palco. É engraçado porque, de certa forma, acabam por conseguir acompanhar o meu percurso.

Na Farmácia da Sé sempre encontrei uma equipa muito compreensiva e que me apoia verdadeiramente. Percebem que a música faz parte de quem eu sou e incentivam-me a continuar a viver essa paixão. Esse carinho e esse apoio fazem toda a diferença e mostram que, mais do que colegas de trabalho, somos uma equipa que celebra as conquistas uns dos outros.

– Subir a palco e lidar com o público exige competências próprias. Acredita que essa experiência contribui para a forma como comunica com os utentes na farmácia?
– Sem dúvida. A experiência de palco ensinou-me a gerir o nervosismo, a ganhar confiança e, acima de tudo, a perceber que cada pessoa é diferente. Quando estamos a atuar, aprendemos a ‘ler’ o público, a sentir a sua energia e a adaptar a forma como comunicamos para criar uma verdadeira ligação. Essa capacidade acompanha-me também na farmácia. No atendimento aos utentes, procuro ouvir com atenção, explicar de forma clara e transmitir tranquilidade, sobretudo quando as pessoas chegam preocupadas ou fragilizadas. Tal como num concerto, acredito que um sorriso, um olhar atento ou uma palavra dita no momento certo podem fazer toda a diferença.

Créditos: Beatriz Cardoso

Curiosamente, também acontece o contrário. Muitos utentes conhecem-me da música e, quando entram na farmácia, acabam por quebrar o gelo com um comentário sobre um concerto ou sobre uma atuação. Isso cria uma proximidade muito especial e faz com que a relação seja ainda mais humana.

Desta forma, tanto no palco como ao balcão da farmácia, o meu objetivo é fazer com que as pessoas se sintam acolhidas, ouvidas e, de alguma forma, saiam dali um pouco melhor do que chegaram.

– Conciliar uma profissão exigente com uma atividade artística ativa implica organização. Como gere esse equilíbrio e que competências da farmácia a ajudam nessa gestão?
– Conciliar a profissão de farmacêutica com uma atividade musical tão ativa exige, acima de tudo, organização e uma boa rede de apoio. Costumo dizer, em tom de brincadeira, que esta gestão precisava de mais braços e de mais cabeças do que apenas os meus.

Tenho a sorte de contar com pessoas que tornam este equilíbrio possível: a equipa da Farmácia da Sé, os meus pais, que em tanto contribuíram para que tivesse todas as condições possíveis e imaginárias para ir avante com estes “dois mundos” e o meu Tiago que tem um papel fundamental, que me ajuda a organizar horários, a gerir compromissos e, muitas vezes, a lembrar que tenho de abrandar quando é preciso.

A própria Farmácia também me deu competências que aplico diariamente nesta gestão. O rigor, a capacidade de organização, a definição de prioridades e a concentração são essenciais para conseguir cumprir todas as responsabilidades sem comprometer a qualidade do meu trabalho em nenhuma das áreas. Aprendi que, para conciliar duas paixões, não basta ter vontade; é preciso disciplina e, sobretudo, saber gerir o tempo. E acredita que nem sempre é fácil: há dias mais exigentes do que outros. Mas quando fazemos aquilo de que gostamos, o esforço acaba por valer apena. Por isso, sinto que tanto a Farmácia como a música me fazem crescer enquanto profissional e enquanto pessoa, e é esse equilíbrio que me motiva a continuar a dar o melhor de mim em ambas.

– Trabalha em farmácia comunitária, um espaço de grande proximidade com o utente. O que mais valoriza neste contacto diário?
– O que mais valorizo na Farmácia Comunitária é, sem dúvida, a relação que se cria com as pessoas. Mais do que utentes, muitas das vezes acompanhamos histórias de vida. Há pessoas que entram na farmácia apenas para levantar a sua medicação, mas também há quem entre porque precisa de ser ouvido, de um conselho, de uma palavra de conforto ou simplesmente de um sorriso. Com o tempo, vamos conhecendo as suas rotinas, as suas preocupações, as suas conquistas e até as suas famílias. Criam-se laços de confiança que vão muito além do ato da dispensa de medicamentos. É muito gratificante perceber que, por vezes, somos um dos primeiros profissionais de saúde a quem recorrem quando têm uma dúvida ou uma preocupação. Isso traz uma enorme responsabilidade, mas também um enorme privilégio.

Créditos: Beatriz Cardoso

Acredito que a Farmácia Comunitária é um lugar onde a ciência e a humanidade caminham lado a lado. Podemos ter todo o conhecimento técnico do mundo, mas nunca devemos esquecer que, do outro lado do balcão, está sempre uma pessoa, muitas vezes fragilizada, ansiosa ou à procura de esperança. E sinto que são esses pequenos gestos do dia a dia — chamar alguém pelo nome, perguntar como está, celebrar quando uma pessoa recupera ou simplesmente dedicar alguns minutos para ouvir — que dão verdadeiro sentido à profissão. É nesses momentos que sinto que ser farmacêutica é muito mais do que exercer uma profissão; é ter a oportunidade de fazer, todos os dias, uma pequena diferença na vida de alguém.

– A farmácia é um espaço de confiança e apoio. Como se constrói essa relação com os utentes no dia a dia?
– Essa relação não se constrói de um dia para o outro. É um processo lento, feito de pequenos gestos repetidos ao longo do tempo, e que respeita sempre o ritmo de cada utente. Há pessoas que se abrem mais facilmente, outras que precisam de mais tempo para confiar. E isso é algo que, na farmácia comunitária, aprendemos a respeitar. A confiança nasce da consistência: de estar presente todos os dias, de ouvir com atenção, de explicar com clareza e de nunca desvalorizar aquilo que o utente sente ou traz consigo. Muitas vezes, são os detalhes mais simples que fazem a diferença e são esses momentos que, pouco a pouco, transformam uma relação profissional numa relação de proximidade e confiança.

Por isso, acredito que a confiança na farmácia constrói-se como se constrói qualquer relação humana verdadeira: com tempo, respeito e autenticidade. E quando essa ligação se estabelece, o trabalho ganha um significado ainda maior, porque deixa de ser apenas técnico e passa a ser profundamente humano.

– Olhando para o futuro, quais são as suas ambições, tanto na Farmácia como na música, e como imagina conciliar estas duas áreas a longo prazo?
– Olhando para o futuro, vejo-me a continuar a crescer em ambas as áreas, que fazem parte da minha identidade de forma muito diferente, mas igualmente importante. Na música, o meu grande objetivo é continuar a desenvolver as minhas capacidades vocais e evoluir enquanto intérprete, com temas originais. Sinto que é uma área onde há sempre algo novo a aprender, a explorar e a melhorar.

Na Farmácia, a minha grande paixão está no mundo da dermocosmética. Foi precisamente nesse sentido que desenvolvi a minha tese de mestrado na Universidade da Beira Interior, o que reforçou ainda mais o meu interesse por esta área. Vejo-me a aprofundar este caminho, porque acredito que a pele também é uma forma de bem estar e de confiança pessoal, e a farmácia tem um papel fundamental nesse cuidado.

Quanto à conciliação das duas áreas, não a vejo como um obstáculo, mas como um equilíbrio possível, desde que exista organização, dedicação e, acima de tudo, amor pelo que se faz. Não imagino ter de escolher entre uma e outra, porque cada uma me completa de forma diferente.