
O Museu da Farmácia assinalou, quinta-feira, dia 24 de setembro, o seu 30.º aniversário com a incorporação no seu acervo de uma peça excecional dos séculos XVII/XVIII: uma taça de casca de coco e filigrana de prata, objeto de elevado valor histórico, científico e simbólico que testemunha a forma como ciência, medicina e crença se cruzaram ao longo da história.

A obra foi apresentada durante a conferência comemorativa “Património cultural e ciência: Conhecimento que constrói o futuro”, realizada na Associação Nacional das Farmácias, em Lisboa, que reuniu representantes das áreas da cultura, saúde, ciência e museologia e contou com a presença do Secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos.
Considerado durante a Época Moderna uma das mais raras e fascinantes substâncias naturais conhecidas, o coco esteve durante séculos envolto em lendas sobre a sua origem e foi valorizado pelas propriedades terapêuticas que lhe eram atribuídas. Na Europa dos séculos XVII e XVIII, era reputado como um poderoso antídoto e procurado por nobres, colecionadores e boticários pelas suas alegadas virtudes medicinais e protetoras.
O seu prestígio foi de tal forma significativo que surge, inclusive, referido na obra Os Lusíadas, de Luís de Camões, testemunhando o lugar que ocupava no imaginário e no conhecimento do mundo da época.
“Esta é uma peça excecional, raríssima”, destacou, citado em comunicado, João Neto, diretor do Museu da Farmácia.
O objeto passa, assim, a integrar um acervo onde se encontram outros bens excecionais associados a este universo, como o chamado corno de unicórnio, as pedras de bezoar e os corais, permitindo compreender como diferentes sociedades procuraram, em cada época, respostas para a doença e para a cura.
Um museu raro e cheio de memória
Na sessão comemorativa, Alberto Santos, Secretário de Estado da Cultura, referiu que é o encontro entre património e conhecimento que mantém atual a missão dos museus: “O Museu da Farmácia mostra-nos o lugar onde o património cultural e a ciência se encontram”, afirmou.

Ema Paulino, presidente da Associação Nacional das Farmácias, destacou a importância da missão desenvolvida ao longo das últimas três décadas: “Celebrar os 30 anos do Museu da Farmácia é celebrar uma instituição cultural de referência, mas é também celebrar algo maior: a capacidade de uma profissão olhar para a sua história e compreender que o futuro se constrói sobre a memória”.
João Neto, diretor do Museu da Farmácia, lembrou que “este Museu mostra que todas as culturas e todas as civilizações contribuíram para o bem-estar humano”. “Cada peça representa uma nação, uma civilização, mas também uma pessoa: a pessoa que fez o medicamento e a pessoa que foi curada por esse medicamento”, sublinhou
Henrique Leitão, pró-reitor da Universidade de Lisboa, destacou a singularidade do Museu e da sua coleção: “É raríssimo ver-se uma coleção constituída de forma tão inteligente, programática e rica como aquela que temos aqui. O Museu da Farmácia é uma verdadeira pérola na cidade de Lisboa”.
A conferência contou ainda com a participação de José Augusto Cardoso Bernardes, comissário-geral para as Comemorações do V Centenário do Nascimento de Luís Vaz de Camões, que refletiu sobre Os Lusíadas e a ideia de conhecimento, cruzando património, cultura e ciência.

No encerramento, Paula Dinis, vice-presidente da ANF, apontou aos próximos 30 anos do Museu da Farmácia, reforçando a ambição de ter um museu “mais visível, aberto e próximo das pessoas”.
“O património não é apenas memória, é conhecimento acumulado. É a possibilidade de compreender de onde vimos, perceber como evoluímos e encontrar referências para aquilo que queremos construir”, afirmou, por seu turno, Hélder Mota Filipe, Bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, sublinhando que preservar o património é também “uma responsabilidade perante o futuro”.
Fundado em 1996, em Lisboa, o Museu da Farmácia preserva a história da saúde e da farmácia, com um acervo com mais de 16 mil peças que percorre cerca de 5000 anos de história e reúne testemunhos de diferentes culturas e civilizações. Ao longo de 30 anos, afirmou-se como um espaço de referência na valorização do património farmacêutico, cruzando ciência, história, arte e cultura e aproximando este legado de diferentes públicos. Em 2010 abriu também o Museu da Farmácia no Porto.




