“O humor constituiu uma ferramenta relevante para ironizar, criticar e (…) atenuar a seriedade de acontecimentos” 94

O Museu da Farmácia de Lisboa relembra com humor, ironia e sentido crítico o passado do setor farmacêutico em ‘Rir é o melhor remédio’uma exposição que estará patente até 30 de setembro.

A exposição reúne vários cartoons publicados na Revista Farmácia Portuguesa, entre 1986 e 2011, desafiando a visão tradicional sobre a Farmácia, através de criações singulares da autoria do cartoonista Eduardo Perestrello. As ilustrações reavivam alguns episódios que marcaram e pautaram o rumo do setor farmacêutico, com destaque para a história da Associação Nacional das Farmácias (ANF).

Em entrevista ao NETFARMA, Paula Basso, curadora do Museu da Farmácia, sublinha que a exposição demonstra que “o setor farmacêutico, perante as adversidades de uma época marcada por profundas transformações sociais, económicas e políticas, soube sempre adaptar-se e ultrapassar as dificuldades com humor e autocrítica — uma atitude que se revelou eficaz na procura de soluções adequadas”.

– Como surgiu a ideia de criar a exposição ‘Rir é o Melhor Remédio’ no Museu da Farmácia?
– A exposição ‘Rir é o Melhor Remédio’ nasceu como uma homenagem a Francisco Guerreiro Gomes (1944–2012), farmacêutico e antigo membro da Direção da ANF. Ao longo da sua carreira associativa, esteve sempre ligado à revista Farmácia Portuguesa como colaborador (1983–1988), subdiretor (1988–1995) e diretor (2005–2012), tendo sido igualmente um dos principais impulsionadores do projeto do Museu da Farmácia.

Recordado pelo seu espírito bem-disposto, Guerreiro Gomes recorria frequentemente ao humor como forma de enfrentar os desafios do quotidiano e encontrar soluções criativas.

– Que importância teve o humor, através dos cartoons, para retratar a evolução do setor farmacêutico entre 1986 e 2011?
– O humor constituiu uma ferramenta relevante para ironizar, criticar e, em certa medida, atenuar a seriedade de acontecimentos que impactaram negativamente o setor farmacêutico, como a implementação de legislação por diferentes Ministros da Saúde, nem sempre favoráveis.  Através dos cartoons, foi possível abordar essas adversidades de forma construtiva, tornando a crítica mais acessível e reflexiva.

No editorial da revista Farmácia Portuguesa, da autoria de Guerreiro Gomes, publicado no «Especial Eleições ANF 1986», foi justificada a inclusão de cartoons com a ideia de que “o humor fazia falta no setor farmacêutico”, apelando ainda a que as figuras e instituições visadas encarassem essas representações com fair play.

– Que episódios ou desafios da história da Farmácia em Portugal ficam mais evidentes nesta exposição?

– Um dos temas mais recorrentes na exposição é o das sucessivas eleições para a Direção da ANF. Os cartoons destacam, com ironia, a continuidade de João Cordeiro (n. 1947), fundador da ANF, que integrou consecutivamente as direções eleitas entre 1976 e 1980, assumindo posteriormente, em março de 1981, o cargo de presidente da Direção.

– De que forma o trabalho de Eduardo Perestrello ajuda a questionar a visão tradicional sobre a Farmácia?
– Os cartoons de Eduardo Perestrello oferecem uma perspetiva crítica e irónica sobre a evolução da Farmácia portuguesa, acompanhando um período de profundas transformações entre as décadas de 1980 e 2011. Através do humor, é possível destacar os desafios e mudanças que marcaram esta evolução do setor farmacêutico.

Entre os temas mais marcantes, encontram-se a remodelação do espaço farmácia, a informatização, a crescente influência de grandes grupos económicos, a liberalização da propriedade das farmácias e questões como os prazos de pagamento do receituário ou a devolução de receitas médicas sem comparticipação por parte do Ministério da Saúde.

São ainda retratadas transformações estruturais, como o lançamento da marca Farmácias Portuguesas, a legislação relativa à transferência de localização das farmácias e a introdução dos medicamentos genéricos, apresentados através de uma abordagem humorística.

– Até que ponto o humor pode ser uma ferramenta eficaz de reflexão crítica num setor ligado à saúde?
– O humor pode ser uma ferramenta muito eficaz de reflexão crítica, ao permitir a abordagem de temas sensíveis através de uma crítica construtiva. Num setor como o farmacêutico, onde as questões em análise têm impacto direto na sociedade, o humor facilita a sua compreensão e promove o diálogo construtivo.

Eduardo Perestrello, ao ironizar determinadas situações complicadas para as farmácias, promoveu a sua reflexão e análise, desdramatizando os problemas e facilitando, deste modo, identificar as soluções.

– Qual é a ligação entre esta exposição e a promoção da saúde mental, tema abordado na inauguração?
– A ligação entre a exposição e a promoção da saúde mental reside na valorização do humor como ferramenta promotora de bem-estar. Ao longo da exposição, o humor é apresentado como algo que permite enfrentar desafios, reduzir tensões e estimular uma abordagem mais positiva perante situações complexas.

Nesta perspetiva, o riso e a capacidade de relativizar problemas assumem um papel relevante na forma como lidamos com o quotidiano, contribuindo para a gestão do stress e para o equilíbrio emocional. Assim, esta exposição não só revisita a história e os desafios do setor farmacêutico, como também reforça a ideia de que o humor pode ter um impacto significativo na saúde mental, ao favorecer uma atitude mais resiliente e uma melhor capacidade de adaptação às adversidades.

Que mensagem principal gostaria que o público levasse consigo ao visitar ‘Rir é o Melhor Remédio’?
– Que o setor farmacêutico, perante as adversidades de uma época marcada por profundas transformações sociais, económicas e políticas, soube sempre adaptar-se e ultrapassar as dificuldades com humor e autocrítica — uma atitude que se revelou eficaz na procura de soluções adequadas.

Perante situações difíceis e problemáticas, o humor pode, por vezes, ser uma ferramenta valiosa. Rir é, de facto, o melhor remédio!