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Investigadores acreditam ser possível vencer toxidade de fármaco contra o cancro

05-Mar-2014

Investigadores da Universidade de Coimbra (UC) estão a desenvolver estudos para ultrapassar a «elevada toxicidade» da cisplatina (fármaco utilizado em tratamento de cancros) e «a resistência adquirida pelos pacientes» à quimioterapia, anunciou hoje a instituição.

Experiências realizadas por «uma equipa de investigadores da UC, no Centro de investigação ISIS», no Reino Unido, obteve «resultados altamente promissores», que «representam um passo significativo no sentido de ultrapassar dois dos grandes problemas da cisplatina e fármacos análogos – a sua elevada toxicidade e a resistência adquirida pelos pacientes ao tratamento quimioterapêutico», afirma a UC, numa nota citada pela “Lusa”.

Os ensaios permitiram «uma melhor compreensão do modo como a glutationa (antioxidante celular) contribui para a resistência adquirida à cisplatina, fármaco muito aplicado no tratamento de vários tipos de cancro (pulmão, testículo, ovário e bexiga, entre outros)».

Liderada por Maria Paula Marques e Luís Batista de Carvalho, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC, a equipa de especialistas conseguiu, simultaneamente, «mascarar» o fármaco com «um veículo à base de ciclodextrina (polímero de açúcares), para impedir o seu contacto com a glutationa e, assim, fazê-lo chegar eficazmente ao tumor onde exercerá o seu efeito terapêutico».

Perceber como «a glutationa sequestra a cisplatina, impedindo-a de chegar ao alvo em doses apreciáveis – apenas uma pequena percentagem da dosagem administrada ao doente chega às células cancerígenas – e encontrar uma forma de ultrapassar este tipo de resistência, permitirá desenvolver formulações farmacológicas mais eficazes e menos tóxicas para o doente», sustentam Maria Paula Marques e Luís Batista de Carvalho.

A equipa de investigadores vai deslocar-se novamente ao ISIS para continuar as experiências, que «terão desta vez como objetivo verificar se o fármaco (cisplatina e novos compostos análogos) encapsulado em ciclodextrinas não é afetado pela glutationa, evitando-se deste modo o seu consumo antes de atingir o alvo terapêutico».

Caso se obtenham resultados positivos, será então possível avançar para ensaios pré-clínicos e clínicos, de modo a testar a viabilidade da aplicação prática das novas formulações.

«Esperamos provar que a cápsula de ciclodextrinas protege eficientemente a cisplatina, sendo assim um bom transportador até ao alvo», afirmam os especialistas, salientando que se se confirmar «a eficácia desta estratégia, este veículo poderá também reduzir os efeitos secundários do fármaco, já que protege as células sãs dos seus efeitos nocivos».

Além disso, a cápsula poderá igualmente permitir que «o tratamento até agora administrado exclusivamente por via intravenosa possa ser feito por via oral, aumentando significativamente o conforto e a qualidade de vida do doente», destacam Maria Paula Marques e Luís Batista de Carvalho.

Para chegar a estes resultados, «as experiências realizadas no ISIS Facility do RAL são determinantes», porque fornecem «uma visão única dos fármacos a nível molecular, possibilitando obter informação extremamente detalhada», que não seria possível alcançar de outro modo.

O centro de investigação ISIS, que «produz o mais potente feixe de neutrões e muões do mundo», está sediado no Rutherford Appleton Laboratory (RAL) do Science and Technology Facilities Council, perto de Oxford, no Reino Unido.

A atribuição de tempo de experiência naquele laboratório internacional, assim como o financiamento pela União Europeia, implica «um exigente processo de avaliação por peritos académicos mundiais».

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