Decisão sobre sensores de glicose é “retrocesso sem precedentes”, diz sociedade científica 17

A Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD) classificou esta segunda-feira (04) como um “retrocesso clínico sem precedentes” a decisão da Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) de permitir a prescrição de sensores de monitorização contínua da glicose como genéricos.

“A medida é considerada um retrocesso clínico sem precedentes, com potencial para comprometer a segurança e a qualidade de vida de milhares de pessoas com diabetes em Portugal”, alertou a sociedade científica em comunicado, citado pela Lusa.

Em causa está uma circular informativa divulgada em abril, na qual o Infarmed considera a necessidade de alterar o modelo de prescrição destes dispositivos médicos, passando a ser efetuada à semelhança dos medicamentos genéricos, em substituição das receitas por marca comercial que estavam em vigor.

A autoridade nacional justifica a medida com “um maior acesso a estas tecnologias de saúde”, tendo em conta que tem sido reforçada a oferta de sensores de monitorização da glicose no sangue, que permitem aos diabéticos evitar as picadas no dedo, existindo atualmente alternativas comparticipadas.

A SPD realçou que, ao contrário dos medicamentos, os sistemas de medição contínua da glicose não são equivalentes entre si, uma vez que cada dispositivo apresenta características únicas e clinicamente relevantes que determinam a sua adequação a cada doente.

As diferenças entre sensores abrangem a “precisão analítica, os algoritmos proprietários de leitura e interpretação, a necessidade ou não de calibração manual, a capacidade de integração com bombas de insulina e plataformas digitais de saúde, bem como a usabilidade e os alarmes configuráveis”, adiantou o comunicado.

“Equiparar estes dispositivos a medicamentos genéricos é uma simplificação tecnicamente errada e potencialmente perigosa”, avisou ainda a SPD, ao salientar que a escolha do sensor adequado resulta de um conhecimento profundo do doente, do seu contexto de vida, da sua literacia e da sua capacidade de utilização da tecnologia.

A sociedade científica adiantou também que países europeus com sistemas de saúde de referência na área da diabetes, como Espanha, França, Alemanha e Itália, não adotaram modelos de prescrição indiferenciada e, com esta medida, Portugal “arriscaria afastar-se das melhores práticas europeias num momento de aceleração tecnológica sem precedentes”.

A SPD lamentou não ter sido previamente consultada sobre esta decisão do Infarmed, apelando ao diálogo com sociedades científicas, profissionais de saúde e associações de doentes, para garantir que as “decisões sejam baseadas na evidência e centradas no interesse das pessoas com diabetes”.

Na mesma linha, a Ordem dos Médicos (OM) exigiu que o Infarmed revogue a sua decisão de permitir a prescrição de sensores de monitorização da glicose como genéricos, alegando que isso representa um “perigo real” para a segurança dos doentes.

Apesar de reconhecer a importância de garantir o acesso equitativo e eficiente aos dispositivos, a OM alertou que esse objetivo não pode ser alcançado através de uma “solução administrativa que trata dispositivos médicos complexos como se fossem medicamentos genéricos”.

A comparação não faz sentido do ponto de vista clínico”, salientou a ordem, adiantando que, ao contrário dos medicamentos genéricos, os sistemas de monitorização contínua da glicose não são equivalentes entre si.