Farmacêuticos no Estrangeiro: “Para os perfis certos, pode representar um salto muito relevante de patamar”, a história de Joana de Almeida Cruz

Entre Lisboa, Dubai e Abu Dhabi, Joana de Almeida Cruz construiu um percurso profissional marcado pela diversidade geográfica e pela exposição a diferentes modelos de organização da saúde. Depois de exercer atividade em Portugal, de uma breve passagem pelo Brasil, a atual Senior Manager Global Partnerships na M42 tem hoje uma perspetiva global sobre os desafios e oportunidades do setor. Se, por um lado, reconhece a qualidade dos profissionais portugueses, por outro sublinha que a experiência nos Emirados Árabes Unidos evidenciou diferenças claras na escala, na velocidade de decisão e na capacidade de transformar visão em execução.

Na véspera do RETHINKING PHARMA 2026 – quase um ano depois de ter estado em Portugal, na edição do ano passado, em que trouxe a sua experiência internacional para o debate sobre o futuro da Saúde e da Indústria Farmacêutica -, a farmacêutica falou com o NETFARMA sobre a sua experiência além-fronteiras.

 

Nome: Joana de Almeida Cruz
Função:
Senior Manager Global Partnerships, na M42, onde trabalha na interseção entre parcerias estratégicas, inovação em saúde, inteligência artificial, multiomics e transformação dos sistemas de saúde
Localização:
Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.

– Há quanto tempo está fora e de onde partiu?
Estou fora de Portugal desde 2020, tendo partido de Aveiro.

– Como ‘chegou’ à M42? 
O meu percurso internacional não começou com a M42, nem resultou de uma mudança súbita. Foi sendo construído de forma progressiva, através de etapas distintas, mas coerentes entre si, sempre ancoradas na mesma ambição: trabalhar na interseção entre ciência, saúde, estratégia e politicas publicas.

Sou farmacêutica de formação e considero importante dizer que Portugal me deu uma formação académica de excelência, em particular na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa. Foi aí que adquiri o rigor científico, o método e a disciplina intelectual que continuam a moldar a forma como penso e trabalho. Portugal deu-me os alicerces; o percurso internacional deu-me a escala.

Iniciei a minha carreira em Portugal, em funções ligadas a informação científica, regulatory affairs e medical affairs, com experiência em organizações como ANF, UCB, MSD e AstraZeneca. Mais tarde, aprofundei a dimensão da política de saúde, da participação pública e da investigação, incluindo trabalho académico na Universidade de Aveiro, com foco em governação, políticas públicas e saúde digital.

A dimensão internacional consolidou-se depois com experiência numa empresa sueca, na área de market access e health policy, e, mais tarde, nos Emirados Árabes Unidos, onde desenvolvi atividade em projetos ligados a inovação, relações institucionais, stakeholder management e business strategy.

Em paralelo, fui construindo um posicionamento institucional ativo na relação entre Portugal e os Emirados, como fundadora do Portuguese Business Council Abu Dhabi, com foco em governmental affairs, como membro do Conselho da Diáspora Portuguesa, do Healthcare Working Group da Abu Dhabi Chamber of Commerce and Industry, e também como Expert Evaluator e Rapporteur da Comissão Europeia, no âmbito das Marie Skłodowska-Curie Actions, em áreas ligadas à inovação em saúde, transformação digital e medicina de precisão.

A M42 surge, assim, não como ponto de partida, mas como consequência natural de um percurso que foi ganhando profundidade, escala e alinhamento com aquilo que hoje mais me mobiliza: contribuir para sistemas de saúde mais precisos, personalizados e orientados para prevenção.

– O que a levou a sair de Portugal? Foi decisão planeada ou oportunidade inesperada?
Foi uma decisão consciente. Não saí de Portugal por rutura; saí por horizonte. Portugal deu-me muito: formação, exigência, profundidade técnica e uma excelente escola de pensamento. Mas houve um momento em que percebi que queria trabalhar em ecossistemas onde a saúde fosse assumida como prioridade estratégica de país, e onde a convergência entre ciência, tecnologia, policy, investimento e execução fosse mais tangível.

A minha saída de Portugal não teve como objetivo imediato integrar a M42. O que existiu foi um percurso internacional progressivo, feito de diferentes funções e contextos institucionais, até chegar a uma plataforma onde essa convergência fazia pleno sentido.
Diria, com algum humor britânico, que não se tratou de um salto romântico para o desconhecido.

Tratou-se, isso sim, de uma decisão estratégica: com coragem, trabalho e uma saudável ausência de ingenuidade.

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– Que expectativas tinha antes de ir?
Esperava encontrar contextos mais orientados para execução, mais internacionais e mais próximos das agendas de futuro. Essa expectativa confirmou-se. Nos Emirados, e em Abu Dhabi em particular, sente-se que a ambição estratégica não é decorativa: é operacional. Existe uma forte orientação para concretização e uma capacidade real de articular visão e implementação.

Esperava também encontrar um contexto em que temas como inteligência artificial, genómica, multiomics, saúde digital e novos modelos de cuidado fossem tratados como infraestrutura do presente, e não apenas como promessa. Isso confirmou-se de forma muito clara. Talvez o mais exigente tenha sido a dimensão humana da travessia. Mudar de país não é apenas mudar de função. É reaprender o quotidiano, reconstruir referências e perceber que a adaptação se faz com tempo, carácter e consistência.

– Como foi o processo de adaptação a nível pessoal e profissional?
Foi um processo gradual. Do ponto de vista profissional, fui-me adaptando a ecossistemas muito diferentes: a exigência técnico-científica da Indústria Farmacêutica em Portugal, a dimensão europeia da avaliação e da policy, os ambientes de inovação nos Emirados, o trabalho institucional entre Portugal e UAE e, mais recentemente, a M42, onde a escala e a ambição são de outra ordem. Nos Emirados aprende-se rapidamente que influência não é ruído. É precisão, leitura de contexto, respeito institucional e capacidade de entrega.

Do ponto de vista pessoal, a adaptação foi também uma construção interior. Viver fora obriga-nos a desenvolver elasticidade, maturidade e capacidade de recentramento. Ensina-nos que pertencer não é replicar o país de origem noutro lugar; é saber honrar o lugar novo sem perder o centro.

– Que barreiras encontrou?
No meu caso, as barreiras não foram tanto de equivalência clínica ou exame profissional clássico. Foram sobretudo barreiras de posicionamento, credibilidade e entrada em ecossistema. Em contextos internacionais, o currículo ajuda a abrir a porta, mas é a confiança que permite permanecer na sala. E essa constrói-se com consistência, discrição, inteligência cultural e resultados concretos.

Há também custos menos visíveis: o tempo necessário para recomeçar, a energia exigida para construir rede de forma séria e a maturidade de perceber que nem tudo se conquista com velocidade.

– Em que difere a prática profissional da portuguesa?
Diria que a principal diferença reside em escala, velocidade e alinhamento entre visão e execução.
Portugal tem excelentes profissionais. O nosso desafio raramente está na falta de talento; está mais frequentemente na fragmentação, na lentidão decisória e na dificuldade em converter intenção estratégica em implementação robusta.

Nos Emirados, a Saúde é tratada como vetor de soberania, inovação, competitividade e projeção internacional. Isso altera o nível da conversa e a disciplina da execução.

Portugal forma muito bem. Abu Dhabi, quando decide, executa com rapidez. O ideal seria combinar o melhor das duas virtudes.

– Houve momentos em que quase desistiu?
Houve momentos exigentes, naturalmente. Há fases em que o peso da construção se torna muito real: carreira, família, identidade, adaptação, reputação e futuro — sobretudo quando se está a edificar uma vida inteira, e não apenas a ocupar uma função. Atravessei, além disso, contextos particularmente desafiantes em diferentes momentos: a pandemia, as cheias no Dubai e o atual conflito no Médio Oriente. Situações assim, vividas no estrangeiro, revelam-nos com nitidez invulgar: mostram-nos a natureza de que somos feitos, aquilo que verdadeiramente priorizamos, onde colocamos o foco, quem é a nossa tribo e quão funda pode ser a nossa resiliência.

Mas nunca me revi verdadeiramente na ideia de desistir. Revejo-me mais na ideia de recalibrar, respirar fundo e continuar. Nem todos os dias são dias de brilho; muitos são dias de mera disciplina. E são esses, muitas vezes, que acabam por sustentar o futuro.

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– Que conselhos práticos daria para acelerar a integração profissional de um colega?
Diria cinco:
a. Chegar não apenas com qualificações, mas com proposta de valor;
b. Estudar o país, e não apenas a oportunidade;
c. Desenvolver inteligência cultural com a mesma seriedade com que se desenvolveu competência técnica;
d. Comunicar com precisão, respeito e contenção;
e. Construir rede com substância, não com ansiedade.

Internacionalizar-se não é apenas sair de Portugal. É conseguir tornar-se relevante fora de Portugal.

– Que competências novas ganhou que seriam difíceis de adquirir em Portugal?
Ganhei, acima de tudo, uma visão mais ampla e integrada da saúde enquanto setor estratégico. A experiência internacional obrigou-me a aprofundar competências em stakeholder engagement intercultural, diplomacia executiva, policy dialogue, construção institucional, governação da inovação em saúde, parcerias transnacionais e leitura geopolítica aplicada ao setor.

Também me permitiu trabalhar mais de perto com contextos onde a conversa sobre o futuro da saúde já integra, de forma muito concreta, inteligência artificial, dados populacionais, multiomics, genómica, precisão terapêutica e prevenção personalizada.

Portugal deu-me base. A experiência internacional deu-me escala, contraste e horizonte.

– Em termos de salário e benefícios, como compara com Portugal considerando custo de vida?
De forma geral, a compensação tende a ser mais competitiva do que em Portugal, sobretudo para perfis qualificados e funções estratégicas. Mas uma comparação séria não se deve limitar ao salário líquido. É necessário considerar habitação, educação, segurança, qualidade das infraestruturas, progressão e capacidade de poupança. Abu Dhabi oferece, em muitos casos, uma combinação bastante sólida entre remuneração, segurança, qualidade de vida e exposição internacional.

Não é um conto oriental com tapete voador incluído. Mas, para os perfis certos, pode representar um salto muito relevante de patamar.

– Horários, equilíbrio vida-trabalho: melhor ou pior?
Em contextos como este, trabalha-se muito e trabalha-se com exigência. Mas trabalha-se, em larga medida, com orientação para impacto real. Há uma diferença importante entre trabalhar intensamente para mover o essencial e trabalhar intensamente para mover papel. Existe aqui uma cultura de seriedade, compromisso e entrega que exige muito de nós, mas que também devolve a perceção de que o trabalho tem consequência, direção e utilidade.

Ao mesmo tempo, há um elemento que valorizo profundamente: o respeito pela família. E isso, para mim, não é um detalhe. Sou mãe. Sei bem que uma carreira pode ser exigente sem deixar de reconhecer que a estabilidade familiar, o tempo com a Maria e a dignidade do espaço privado fazem parte de uma vida bem construída.

– Quais foram os maiores desafios fora do trabalho?
O maior desafio é reconstruir pertença. Quando se vive fora, tudo tem de ser redesenhado: rotina, referências, apoio, identidade social, logística familiar. A burocracia resolve-se. A pertença constrói-se.
E essa construção torna-se ainda mais importante quando a vida não é apenas nossa, mas também da família.

– Qual o impacto na família?
O mais exigente é garantir que uma escolha de ambição também seja uma escolha de enraizamento.
Quando há família, a mobilidade internacional não pode ser apenas progresso profissional; tem de ser também construção de casa, de pertença e de horizonte.

Há uma imagem que guardo como síntese desta travessia: a minha filha, Maria, chegou aos Emirados com dois anos, sem compreender uma palavra de inglês. Hoje floresce aqui de forma extraordinária, com uma naturalidade impressionante perante diferentes culturas, línguas e formas de estar. Tornou-se, quase sem esforço, uma verdadeira cidadã do mundo.

Talvez essa seja uma das maiores recompensas desta escolha. Não se perdeu raiz; ganhou-se horizonte.

– Como descreve esta situação atual no Médio Oriente? De que modo está a interferir no seu dia a dia?
Estamos a viver um momento regional que exige serenidade, maturidade institucional e absoluto respeito pela informação oficial. A posição dos Emirados Árabes Unidos tem sido clara: defesa da soberania nacional, proteção de civis e infraestruturas críticas, contenção da escalada e gestão responsável da estabilidade.

No plano do quotidiano, isso traduz-se em atenção, sobriedade e confiança nas instituições. Existe um sentido muito claro de coesão cívica. Quem vive aqui sente que o país protege não apenas cidadãos, mas também residentes, famílias e o tecido económico com elevado sentido de responsabilidade.

Não vivo, por isso, o dia a dia em alarme. Vivo-o com respeito pelo contexto, atenção às orientações oficiais e confiança na capacidade do Estado.

– Voltou para Portugal ou pensa em fazê-lo em breve devido ao conflito? 
Não. Neste momento, não estou a tomar decisões estruturais em reação emocional ao contexto. Tenho grande respeito pela forma como os Emirados têm gerido a situação, quer do ponto de vista diplomático, quer operacional. Decisões de vida, sobretudo quando envolvem família e carreira, não devem ser tomadas ao ritmo do ruído.

– Numa situação normal, vê-se a ficar noutro país, regressar ou viver de forma transnacional?
Vejo-me claramente a viver de forma transnacional. Continuo profundamente ligada a Portugal, não apenas afetivamente, mas por compromisso ativo. Sou Head of Governmental Affairs do Portuguese Business Council Abu Dhabi, contribuindo para reforçar pontes de investimento, negócio e relacionamento institucional entre Portugal e Abu Dhabi. Sou também membro do Conselho da Diáspora Portuguesa, onde participo no Núcleo do Médio Oriente e no grupo de trabalho da Saúde, liderando um projeto na área da Inteligência Artificial em Saúde.

Esse trabalho é particularmente relevante para mim porque procura transformar conhecimento especializado, experiência internacional e leitura comparada de ecossistemas em valor estratégico para policy, inovação e decisão em Portugal. Não me interessa a inteligência artificial como moda; interessa-me como instrumento sério de transformação dos sistemas de saúde, da prática clínica, da prevenção e da capacidade de decisão pública.

Em paralelo, o meu sonho profissional atual encontra na M42 um espaço de rara coerência: trabalhar na interseção entre inteligência artificial, multiomics e healthcare, contribuindo para sistemas de saúde mais precisos, mais personalizados e, finalmente, mais orientados para prevenção efetiva.

Talvez por isso, me reveja tanto em Pessoa: “Senhor, falta cumprir-se Portugal!” Para mim, cumprir Portugal também é isto: o poder da Diaspora Portuguesa, de levar o melhor da nossa formação, da nossa inteligência e da nossa vocação para o mundo — e devolvê-las depois em escala, em pontes e em obra.